Categorias: Fundamentos, Gestão em Cuidados Paliativos Autor(a): Tatiana Maíta, fisioterapeuta e paliativista Publicado em: 20/05/2025
Contexto
Os Cuidados Paliativos visam oferecer suporte integral a pessoas com doenças graves e ameaçadoras da vida, promovendo qualidade de vida e alívio do sofrimento em todas as suas dimensões — física, emocional, social e espiritual. Dentro dessa abordagem, o fisioterapeuta tem um papel singular e muitas vezes subestimado: sua atuação vai além da reabilitação tradicional e se estende à promoção de conforto, funcionalidade e dignidade, mesmo em cenários de declínio progressivo.
A fisioterapia em Cuidados Paliativos reconhece que o “melhor cuidado possível” nem sempre está atrelado à recuperação, mas sim ao respeito pelas escolhas do paciente, à prevenção de sofrimento e à presença cuidadosa ao longo da trajetória da doença.
Fisioterapia e Cuidados Paliativos
A atuação do fisioterapeuta se adapta a diversos contextos — hospitais, domicílios, hospices, ambulatórios e instituições de longa permanência — e a diferentes fases da doença. Em todos eles, o foco é aliar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida, respeitando os limites da pessoa e evitando intervenções desnecessárias ao seu objetivo de cuidado.
O cuidado centrado no paciente orienta a construção de metas terapêuticas realistas e individualizadas, que são frequentemente revistas conforme a evolução clínica, ou seja, estão alinhadas à progressão da doença e às metas do paciente e da família. As metas são formuladas a partir da escuta empática das necessidades, desejos e preocupações do paciente, em um espaço seguro para sua expressão. Neste contexto, o fisioterapeuta ajuda o paciente a manter a máxima independência e autonomia, conforme suas possibilidades.
O contato físico cuidadoso, o incentivo ao movimento e a presença atenta são formas concretas de cuidado e podem reduzir o sofrimento total, trazendo sensação de utilidade e reconhecimento de que ainda há algo que pode ser feito. A fisioterapia se torna, assim, um espaço de vínculo, onde a escuta ganha corpo e o corpo ganha sentido.
Manejo de sintomas físicos
O fisioterapeuta atua diretamente no controle de sintomas comuns em pacientes sob Cuidados Paliativos, com um amplo instrumental para o alívio do sofrimento, respeitando sempre os limites e preferências do paciente, com destaque para:
Sintomas respiratórios e dispneia: técnicas de reexpansão pulmonar, posicionamento, higiene brônquica, ventilação não invasiva (quando compatível com os objetivos de cuidado) e treinamento respiratório;
Dor: eletrotermoterapia analgésica, mobilizações suaves, alongamentos e posicionamento adequado, respeitando zonas de hiperalgesia e dor neuropática;
Fadiga: dosagem adequada de esforço, pausas terapêuticas, atividades de baixa intensidade com foco em funcionalidade e estratégias de conservação de energia;
Na fase ativa de morte, o foco muda: o objetivo não é mais ganho funcional, mas conforto máximo. O fisioterapeuta pode aliviar sintomas como rigidez postural, desconforto respiratório e dor, por meio de mobilizações passivas, mudanças de decúbito suaves, cuidado com a posição da cabeça e do pescoço e apoio à equipe e família quanto aos limites das intervenções. Nesse momento, a sensibilidade clínica é indispensável: o “fazer menos”, aqui, é ético e compassivo.
Preservação da funcionalidade e prevenção de complicações
Mesmo quando recuperação funcional plena não é mais possível, preservar a funcionalidade remanescente traz ganhos importantes: reforça a autoestima, reduz o risco de complicações secundárias e promove independência, contribuindo para o bem-estar físico e emocional.
A atuação do fisioterapeuta inclui:
Mobilidade no leito e fora dele: prevenção de contraturas, favorecimento de transferências seguras e estímulo à postura antálgica e funcional;
Atividades de vida diária: treino funcional adaptado à realidade do paciente (ex: higiene pessoal sentado, locomoção com auxílio mínimo);
Prevenção de complicações secundárias: lesões por pressão, tromboses, atelectasias e retenção de secreção são alvos frequentes do cuidado;
Adaptação de estratégias e uso de tecnologias assistivas: indicação de órteses, cadeiras, dispositivos de suporte postural ou de mobilidade adaptados à fase da doença.
Tudo isso deve ser feito respeitando o tempo do paciente, com metas negociadas e flexibilizadas à medida que a doença avança.
Comunicação e suporte interdisciplinar
O fisioterapeuta paliativista não é apenas um executor de técnicas: é um agente de escuta, acolhimento e presença qualificada. A comunicação interpessoal é uma de suas principais ferramentas. Durante os atendimentos, ele capta informações objetivas e subjetivas relevantes e ajuda o paciente a nomear desconfortos que podem não chegar a outros membros da equipe.
Participar das reuniões clínicas e de reuniões familiares permite que a fisioterapia seja integrada ao plano de cuidados de forma coerente com os valores do paciente, alinhando expectativas entre a equipe, o paciente e seus familiares. Essa abordagem interdisciplinar amplia a compreensão do sofrimento total e favorece decisões consoantes ao que é significativo para a pessoa — mesmo quando isso significa recuar de metas terapêuticas estabelecidas.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Apresente este conteúdo em momentos de educação permanente, capacitações e reuniões de equipe para sensibilizar colegas sobre a importância da atuação fisioterapêutica nos Cuidados Paliativos.
Inclua o fisioterapeuta nas discussões clínicas e no plano terapêutico desde a admissão do paciente em Cuidados Paliativos, para favorecer o cuidado interdisciplinar precoce e centrado na pessoa.
Utilize as informações para desenvolver protocolos institucionais ou fluxos de atendimento que valorizem a fisioterapia como parte integrante do cuidado paliativo.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 A presença precoce do fisioterapeuta no plano de cuidado paliativo pode transformar trajetórias clínicas. Incorporar esse profissional desde a admissão favorece estratégias personalizadas de conforto e funcionalidade, além de fortalecer o vínculo entre paciente, família e equipe.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em Cuidados Paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Abordagem interdisciplinar: Trabalho colaborativo entre profissionais de diferentes áreas para atender às múltiplas necessidades do paciente e da família. Há o compartilhamento de informações e experiências que permite a tomada de decisões conjuntas e a construção de um plano de cuidados colaborativo. Se diferencia do atendimento multidisciplinar por prever a estreita interação entre os membros da equipe, mesmo que não no momento do atendimento. Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio. Cuidado centrado no paciente: Abordagem do cuidado em saúde que coloca a pessoa - e não apenas sua condição clínica - no centro do processo de cuidado. Propõe que o serviço de saúde se ajuste às necessidades, valores e preferências do paciente, promovendo uma parceria ativa entre equipe, paciente, familiares e cuidadores. Essa abordagem busca garantir que todos sejam respeitados, bem informados, engajados nas decisões, apoiados e tratados com dignidade, compaixão e empatia. Dispneia: Sensação subjetiva de dificuldade ou desconforto para respirar, com intensidade variável. Resulta da interação de fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais, podendo desencadear respostas físicas e emocionais. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Eletrotermoterapia: Conjunto de recursos terapêuticos que utilizam correntes elétricas, calor ou frio com finalidades analgésica, anti-inflamatória, relaxante ou funcional. Fase ativa de morte: Fase em que o processo de morte se iniciou, com alterações fisiológicas que, de forma irreversível, culminarão com o óbito. Tem duração de horas a dias. Hospice: Termo utilizado para duas definições: um local de cuidado e um modelo de assistência em Cuidados Paliativos. Local de Cuidado: Unidade de internação especializada no cuidado de pacientes em terminalidade, tal como o St. Christopher Hospice. Modelo de assistência: Filosofia de cuidado integral ofertado a pacientes em terminalidade, que pode ser realizado em diferentes locais, como o domicílio e também em unidades hospice. Lesão por pressão: Definida pela National Pressure Ulcer Advisory Panel (NPUAP) como “dano localizado na pele e/ou tecidos moles subjacentes, resultantes de pressão ou pressão combinada com o cisalhamento. Geralmente ocorre sobre uma proeminência óssea, mas também pode estar relacionada ao uso de dispositivo médico ou a outro artefato”. Objetivo de cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Plano de cuidados: Estratégia através da qual o objetivo de cuidado será alcançado. É sempre individualizado, conforme fase da doença, valores e biografia do paciente. Reunião familiar: Encontro estruturado entre a equipe de saúde, o paciente (quando possível) e seus familiares ou representantes, com o objetivo de alinhar informações, esclarecer dúvidas, promover escuta ativa e favorecer decisões compartilhadas, respeitando os valores e desejos do paciente. Também chamada de conferência familiar.
Referências bibliográficas
Academia Nacional de Cuidados Paliativos. Manual de Cuidados Paliativos. 2. ed. São Paulo: ANCP, 2019.
World Health Organization. Palliative Care. Geneva: WHO; 2020.
Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Cuidados Paliativos em Pacientes com Doenças Respiratórias. SBPT, 2018.
Brasil. Ministério da Saúde. Caderno de Atenção Domiciliar – Volume 3: Cuidados Paliativos. Brasília: MS, 2018.
Dos Santos SA, Peruzzo. Atuação da Fisioterapia nos Cuidados Paliativos: Revisão de Literatura. Cadernos da Escola de Saúde, v.24, n.2, p.18-31, 2024.



Gostaria de uma pílula paliativa falando do papel do enfermeiro nos cuidados paliativos