Categorias: Fundamentos, Avaliação Prognóstica, Gestão em Cuidados Paliativos Autor(a): Fernanda Tourinho, médica clínica e paliativista, e Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 25/06/2025
Contexto
Como saber o momento certo de iniciar os Cuidados Paliativos (CPs)? Essa é uma das perguntas mais frequentes — e desafiadoras — para profissionais da saúde. Embora o ideal seja integrar os CPs desde o diagnóstico de uma doença grave e ameaçadora à vida, na prática, o início ainda ocorre de forma tardia, muitas vezes apenas diante de sinais extremos como falência orgânica, parada da alimentação ou sofrimento intenso. Quando isso acontece, a oportunidade de atuar precocemente, promovendo conforto, planejamento e alinhamento de expectativas, já pode ter sido perdida.
É fundamental migrar de uma lógica reativa para uma lógica proativa, baseada na identificação precoce de necessidades. Nesse cenário, as ferramentas de triagem em Cuidados Paliativos ganham protagonismo: são instrumentos clínicos que ajudam a reconhecer pacientes que podem se beneficiar da abordagem paliativa.
Modelo Global das Ferramentas de Triagem em Cuidados Paliativos
A identificação de pacientes com necessidade de Cuidados Paliativos é um desafio mundial. As ferramentas de triagem buscam sistematizar esse processo, integrando diferentes critérios que incluem o diagnóstico, grau de funcionalidade, demanda identificada e critérios específicos por doença.
Um dos elementos centrais dessas ferramentas é a Previsão Clínica de Sobrevida (PCS), que pode se expressar, por exemplo, na Pergunta Surpresa (PS) — “Você se surpreenderia se este paciente morresse nos próximos 12 meses?”. Embora nem todas as ferramentas usem a PS, a PCS quase sempre aparece como estímulo ao raciocínio prognóstico.
Esse modelo favorece a introdução oportuna da abordagem paliativa em múltiplos cenários — da atenção primária ao hospital e domicílio — e para diferentes condições crônicas, como DPOC, insuficiência cardíaca, demência e câncer. No entanto, vale destacar que a maioria das ferramentas ainda captura pacientes em fase de declínio clínico, já próximo à terminalidade — o que reforça a necessidade de combiná-las com estratégias institucionais que antecipem o cuidado.
Essas ferramentas podem ser especialmente úteis para serviços que, por limitações de recursos ou por definição institucional, não conseguem — ou não têm como objetivo — oferecer Cuidados Paliativos a todos os pacientes desde o diagnóstico. Nesses contextos, podem contribuir para a construção de critérios objetivos e transparentes de elegibilidade, orientando o encaminhamento para equipes especializadas ou para serviços como hospices, conforme a política da instituição.
Supportive and Palliative Care Indicators Tool (SPICT)
O Supportive and Palliative Care Indicators Tool (SPICT-BR) é uma das ferramentas validadas no Brasil. Ele combina indicadores clínicos gerais (como hospitalizações repetidas e declínio funcional) com indicadores específicos por doença, abrangendo desde o câncer até doenças neurológicas degenerativas.
Sua força está na objetividade: o SPICT-BR pode ser usado por equipes não especializadas, favorecendo a triagem em reuniões multidisciplinares, comissões de desospitalização e serviços de atenção primária. A versão adaptada para outros profissionais de saúde, o SPICT-4ALL-BR, amplia ainda mais seu alcance.
O SPICT-BR não define um número mínimo de critérios para que a triagem seja considerada positiva. Em vez disso, é flexível e serve como ferramenta clínica para apoiar a reflexão sobre necessidades de Cuidados Paliativos, de acordo com a realidade do paciente, da equipe e do serviço. Embora algumas pesquisas usem critérios combinados para fins de análise (como um ou dois indicadores gerais e um específico), esse uso não é obrigatório e deve ser ajustado ao contexto assistencial. O mais importante é reconhecer sinais de sofrimento persistente e progressivo que indiquem a necessidade de abordagem paliativa o mais precocemente possível.
Ou seja, o SPICT-BR e o SPICT-4ALL-BR podem ser adaptados por serviços que não conseguem ofertar CPs a todos, permitindo a definição de critérios de inclusão mais objetivos e a priorização de pacientes com maior risco ou sofrimento — sempre de forma ética e transparente.
NECPAL-BR (Necesidades Paliativas)/NECPAL-CCOMS-ICO
Desenvolvido na Espanha e validado no Brasil, o NECPAL-BR parte da Pergunta Surpresa e inclui critérios clínicos adicionais, como demanda identificada por parte do paciente, família ou equipe, deterioração da funcionalidade, síndromes geriátricas, sintomas persistentes, aspectos psicossociais, presença de múltiplas comorbidades, uso de recursos de saúde, além dos indicadores específicos por doença. Trata-se de uma ferramenta robusta, com foco ambulatorial e hospitalar.
Uma triagem positiva no NECPAL-BR ocorre quando a resposta à PS é “não” — ou seja, “não me surpreenderia se esse paciente morresse nos próximos 12 meses” — e há pelo menos um dos 13 parâmetros clínicos e/ou sinais de demanda por Cuidados Paliativos.
Seu diferencial é permitir uma visão completa do paciente, que integra julgamento clínico, solicitação do paciente ou família, complexidade e trajetória de adoecimento.
Gold Standards Framework Proactive Identification Guidance (GSF-PIG)
O Gold Standards Framework – Proactive Identification Guidance (GSF-PIG) é uma ferramenta desenvolvida no Reino Unido, ainda sem tradução oficial para o português. Ela combina a Pergunta Surpresa com indicadores clínicos gerais e específicos de declínio progressivo da saúde, seguindo o modelo geral adotado pelas ferramentas de triagem em Cuidados Paliativos.
O GSF-PIG é valorizado por sua abordagem prática e adaptabilidade a diferentes realidades, com foco na identificação proativa de pacientes com necessidades paliativas. Vai além da triagem: orienta o planejamento antecipado de cuidados (PAC) e decisões clínicas centradas na pessoa. O próprio GSF propõe a ferramenta 'Thinking Ahead' ('Pensando à frente', em português), que orienta discussões sobre o PAC.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Incorpore a Previsão Clínica de Sobrevida (PCS) como ponto de partida. Trata-se de uma abordagem rápida, que estimula o raciocínio prognóstico e contribui para antecipar necessidades de cuidado.
Implemente a ferramenta que melhor se adapta à sua realidade — seja o SPICT-BR, o NECPAL-BR ou o GSF-PIG —, todas aplicáveis e eficazes em diferentes contextos.
Fortaleça a identificação proativa de pacientes em sua equipe. As ferramentas de triagem também são excelentes recursos pedagógicos e de sensibilização.
Reconheça os limites dessas ferramentas. Mesmo as mais bem estruturadas ainda identificam pacientes em fase de declínio. Para avançar, é essencial integrar os Cuidados Paliativos de forma mais precoce, desde o diagnóstico de doenças ameaçadoras à vida.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Ferramentas de triagem não substituem o julgamento clínico — elas o qualificam. Utilize-as como complemento, nunca como filtro exclusivo. Pense nelas como uma lupa: ajudam a revelar o que os olhos acostumados à rotina podem não ver. Quando usadas com proatividade e empatia, tornam-se grandes aliadas na promoção de cuidado oportuno e compassivo.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Ferramentas de triagem em Cuidados Paliativos: Ferramenta destinada à identificação de pacientes que possam se beneficiar da abordagem paliativa. Uma boa ferramenta de triagem deve ser sensível – ou seja, capaz de identificar todos os pacientes com necessidades paliativas –, mesmo que, para isso, apresente menor especificidade, incluindo pacientes que talvez não tenham um benefício claro da abordagem paliativa. Além disso, é desejável que a ferramenta identifique os pacientes precocemente, e não apenas em fases avançadas ou no fim de vida. Exemplos incluem: NECPAL-BR, SPICT-BR e GSF-PIG. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. GSF-PIG: Ferramenta de triagem para busca ativa e identificação de pacientes com necessidade de abordagem paliativa através do uso da pergunta surpresa e da associação de critérios clínicos gerais e específicos de cada doença. Atualmente, essa ferramenta não possui tradução ou validação para o português. Publicado originalmente em 2004 pelo Royal College of General Practitioners (RCGP), no Reino Unido. Hospice: Termo utilizado para duas definições: um local de cuidado e um modelo de assistência em Cuidados Paliativos. Local de Cuidado: Unidade de internação especializada no cuidado de pacientes em terminalidade, tal como o St. Christopher Hospice. Modelo de assistência: Filosofia de cuidado integral ofertado a pacientes em terminalidade, que pode ser realizado em diferentes locais, como o domicílio e também em unidades hospice. Necessidades Paliativas (NECPAL-BR): Ferramenta de triagem para identificação de pacientes com necessidade de abordagem paliativa com base na previsão clínica de sobrevida, funcionalidade, sintomas não controlados e demanda identificada pela equipe, paciente ou familiares. Inclui a pergunta surpresa, assim como critérios gerais de piora clínica e específicos para doenças prevalentes, como insuficiência cardíaca e câncer. Validado para o português brasileiro. Publicada originalmente em 2011 pelo Instituto Catalão de Oncologia (ICO), através do Observatório Qualy - Cátedra de Cuidados Paliativos da Universidade de Vic - Central da Catalunha (UVic-UCC), na Espanha. Pergunta Surpresa (PS): Ferramenta prognóstica do tipo previsão clínica de sobrevida, baseada na opinião clínica do especialista. A pergunta é: *“Você se surpreenderia se este paciente falecesse no próximo ano?”*. Uma resposta negativa sugere maior risco de óbito. Planejamento antecipado de cuidados (PAC): Processo no qual uma pessoa com capacidade decisória preservada, com auxílio da equipe de saúde, expressa e registra seus valores, objetivos e preferências em relação a seus cuidados de saúde, com foco no fim da vida. Tem como objetivo garantir cuidados compatíveis com a biografia da pessoa, devendo ter como produtos finais: 1) A construção de um testamento vital e 2) A escolha de um procurador para cuidados de saúde. Em inglês, diz-se “*Advance Care Planning (ACP)*”, de forma que também pode ser traduzido como planejamento avançado de cuidado. Previsão Clínica de Sobrevida (PCS): Método utilizado por médicos para estimar a sobrevida de pacientes, com base em perguntas estruturadas, como a pergunta temporal, a pergunta probabilística e a Pergunta Surpresa (PS). Supportive and Palliative Care Indicators Tool (SPICT-BR): Ferramenta de triagem para identificação de pacientes com risco de piora clínica e que possam necessitar de Cuidados Paliativos, com base em sinais de deterioração clínica e complexidade de sintomas. Amplamente adotada em nível internacional, é validada para o português brasileiro. Publicada originalmente em 2010 por Kirsty Boyd e Scott Murray, do Primary Palliative Care Research Group da Universidade de Edimburgo, na Escócia. Supportive and Palliative Care Indicators Tool for All (SPICT-4ALL-BR): Versão da ferramenta de triagem SPICT-BR adaptada para aplicação por profissionais não-médicos, familiares, cuidadores profissionais ou outros envolvidos no cuidado de pessoas com doença ameaçadora à vida para a identificação de necessidades paliativas de forma precoce. Terminalidade: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura, está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. A maior parte da literatura considera terminalidade como sinônimo de fim de vida, embora algumas correntes façam distinção entre esses dois termos. Na Escola de Habilidades Paliativas, esses termos são utilizados como sinônimos.
Referências bibliográficas
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Turrillas P, Peñafiel J, Tebé C*, et alNECPAL prognostic tool: a palliative medicine retrospective cohort studyBMJ Supportive & Palliative Care* 2024;**14:**e1909-e1918.
O'Callaghan A, Laking G, Frey R, Robinson J, Gott M. Can we predict which hospitalised patients are in their last year of life? A prospective cross-sectional study of the Gold Standards Framework Prognostic Indicator Guidance as a screening tool in the acute hospital setting. Palliat Med. 2014;28(8):1046-1052.
Tourinho F. E-pali 2: prognóstico e funcionalidade. [S.l.: s.n.], 2025



