Categorias: Fundamentos, Gestão em cuidados paliativos Autor(a): Licia Lima, enfermeira paliativista Publicado em: 23/07/2025
Contexto
A abordagem interprofissional nos Cuidados Paliativos é amplamente reconhecida como essencial para garantir um cuidado integral. Diante de doenças ameaçadoras à vida, oferecer assistência que contemple os diversos domínios do sofrimento humano — físico, emocional, social e espiritual — é uma necessidade ética e clínica. Nesse cenário, a enfermagem se destaca como eixo central da equipe, com atuação contínua e ativa no cuidado direto, no manejo de sintomas e na construção de decisões compartilhadas. Nesta #PP, vamos explorar o papel da enfermagem nos Cuidados Paliativos, reconhecendo sua trajetória, competências específicas, responsabilidades e os desafios enfrentados na prática brasileira.
Cuidar: a essência da enfermagem paliativista
Desde Florence Nightingale, pioneira da enfermagem moderna, o cuidar tem sido o eixo central dessa profissão. Seu legado — baseado em higiene, compaixão e organização hospitalar — estabeleceu as bases da enfermagem como ciência e arte. O cuidado de enfermagem ultrapassa o domínio técnico: envolve compaixão, conhecimento, escuta atenta, presença e comunicação acolhedora. Em Cuidados Paliativos, essa essência se intensifica. A proximidade com o sofrimento humano exige uma atuação sensível, ética e profundamente humana.
Foi também com uma enfermeira que os Cuidados Paliativos modernos começaram a se desenhar. Dame Cicely Saunders, que além de enfermeira foi assistente social e médica, desenvolveu o modelo do movimento hospice moderno. Ela cunhou o termo dor total, ao descrever o sofrimento multidimensional — físico, emocional, social e espiritual — vivido por seus pacientes (veja mais sobre Dor total na #PP010 e sobre a História dos Cuidados Paliativos na #PP004).
“Sempre pensei que foi a minha formação como enfermeira que me permitiu, acima de tudo, compreender o que os doentes esperam de nós”, afirmou ela, em um de seus textos mais citados.
No Brasil, a atuação da enfermagem em Cuidados Paliativos vem ganhando reconhecimento formal e político. A área é reconhecida como especialidade pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), conforme a Resolução nº 581/2018, atualizada pela nº 625/2020. Presente em todos os níveis da Rede de Atenção à Saúde (RAS), a enfermagem desempenha papel estratégico na efetivação dos Cuidados Paliativos. Sua atuação articula serviços, promove continuidade do cuidado e foca nas necessidades reais das pessoas e suas famílias. Ainda que essa articulação não seja realidade em todo o país, esse papel integrador da enfermagem está plenamente alinhado à Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP), que busca garantir qualidade de vida por meio de um cuidado integral, humanizado e voltado ao alívio do sofrimento.
Nesse contexto, a enfermagem paliativista revela sua vocação mais profunda. Para que esse cuidado seja ético, seguro e efetivo, é essencial que os profissionais estejam preparados para lidar com a complexidade e a singularidade de cada paciente. Cuidar, nesse sentido, é mais do que executar procedimentos: é estar presente, construir vínculos de confiança e oferecer conforto diante do adoecimento. É, sobretudo, reafirmar a dignidade humana até o fim da vida.
Competências e responsabilidades da(o) enfermeira(o) em Cuidados Paliativos
A atuação da enfermagem paliativista vai muito além da sensibilidade: requer competências técnicas bem definidas e uma visão ampliada do cuidado. O documento Diagnóstico de Competências do Enfermeiro Especialista em Cuidados Paliativos (ANCP, 2022) é um marco para o fortalecimento dessa prática no Brasil. Nele, propõe-se que o cuidado da(o) enfermeira(o) contemple todas as dimensões da experiência do adoecimento — física, emocional, social e espiritual.
Essas competências se traduzem no manejo de sintomas complexos, no acolhimento do sofrimento psicoemocional, no apoio à construção de testamento vital, na abordagem da espiritualidade e no fortalecimento das redes de apoio. Para além do cuidado direto, a(o) enfermeira(o) paliativista exerce papéis gerenciais e educativos: elabora protocolos, conduz capacitações, acompanha indicadores e contribui para a qualificação da assistência, sempre com base nas melhores evidências disponíveis.
A proposta da ANCP organiza-se em três pilares de competência: Constituintes Centrais, Competências Essenciais e Competências Específicas. Essa estrutura oferece um referencial claro para a formação e prática clínica, promovendo um cuidado tecnicamente qualificado, centrado na dignidade e nas necessidades reais de cada pessoa e de sua família.
A atuação da(o) enfermeira(o) paliativista na equipe multidisciplinar
Os Cuidados Paliativos, por definição, nascem e se sustentam no trabalho colaborativo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2016) e a European Association for Palliative Care (EAPC, 2022), equipes bem integradas — com liderança compartilhada e comunicação efetiva — são essenciais para garantir cuidado seguro, contínuo e centrado na pessoa.
Nesse cenário, a(o) enfermeira(o) paliativista frequentemente se torna uma figura de referência. Costuma ser quem estabelece o primeiro vínculo com a pessoa em cuidado, assegura a continuidade da assistência e atua como ponte entre paciente, família e equipe. Sua presença constante permite observar mudanças clínicas e emocionais sutis, antecipar complicações e apoiar decisões com empatia, escuta ativa e agilidade.
A enfermagem também exerce papel estratégico na construção do Plano Terapêutico Singular (PTS), conforme a Resolução COFEN nº 358/2009. Esse plano, elaborado de forma coletiva, reconhece a pessoa como protagonista do cuidado e busca articular conhecimento técnico com respeito, dignidade e valores individuais. Trata-se de oferecer um cuidado que faça sentido — mesmo nas situações mais difíceis — e que esteja alinhado com quem a pessoa é e com o que valoriza.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Cultive a escuta ativa: valorize o que é dito e também o que é silenciado. Seja presença acolhedora.
Reavalie continuamente: os objetivos de cuidado mudam. Revise com o paciente, a família e a equipe.
Integre as dimensões do cuidado: considere sintomas físicos, aspectos emocionais, espirituais e sociais.
Zele pela dignidade e pelas vontades do paciente: respeite seus valores e contribua para decisões compartilhadas.
Compartilhe saberes: participe da formação de colegas, estudantes, residentes e cuidadores.
Registre com precisão: o prontuário é ferramenta essencial de comunicação e continuidade do cuidado.
Cuide de si: reconheça os impactos emocionais do trabalho. Busque apoio, supervisão e práticas de autocuidado.
Aprofunde seu conhecimento: leia o e-book Competências do enfermeiro especialista em cuidados paliativos no Brasil.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 A escuta atenta durante a visita, o banho, o conforto oferecido na troca de posição, o silêncio respeitoso diante da dor ou a delicadeza ao tocar uma mão — quando permitido pelo paciente — são ações que, muitas vezes, têm impacto tão profundo quanto procedimentos complexos. Em Cuidados Paliativos, cada gesto conta — e o olhar sensível da enfermagem paliativista pode transformar o ordinário em extraordinário cuidado.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Abordagem interprofissional: Trabalho colaborativo entre profissionais de diferentes áreas para atender às múltiplas necessidades do paciente e da família. Há o compartilhamento de informações e experiências que permite a tomada de decisões conjuntas e a construção de um plano de cuidados colaborativo. Se diferencia do atendimento multidisciplinar por prever a estreita interação entre os membros da equipe, mesmo que não no momento do atendimento. Academia Nacional de Cuidados Paliativos: Instituição de representação multiprofissional de Cuidados Paliativos no Brasil. Tem como missão o desenvolvimento e reconhecimento dos Cuidados Paliativos como campo de conhecimento científico e área de atuação profissional. Fundada em 2005, tem sede em São Paulo. COFEN: Autarquia responsável por fiscalizar e normatizar o exercício da enfermagem no Brasil, em conjunto com os Conselhos Regionais (CORENs). Compaixão: Atitude de sensibilidade ativa diante do sofrimento do outro, que impulsiona à ação concreta de cuidado e solidariedade. Vai além da empatia, pois envolve envolvimento afetivo e intenção de aliviar o sofrimento. Dame Cicely Saunders: Médica, enfermeira e assistente social inglesa responsável pelo início do movimento hospice moderno e fundadora do St. Christopher’s Hospice, em Londres. Foi Dame Cicely que cunhou o termo dor total. Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Dor total: Conceito criado por Dame Cicely Saunders na década de 1960, que propõe que a dor é multidimensional, não apenas física. Esse conceito apresenta o sofrimento como um fenômeno abrangente, envolvendo dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais, que estão interligadas e se influenciam mutuamente. Atualmente, esse entendimento pode ser ampliado para o termo sofrimento total, aplicando-se a outros tipos de sofrimento que, anteriormente, eram considerados exclusivamente físicos, como a dispneia e a náusea. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. European Association for Palliative Care (EAPC): Organização europeia fundada em 1988 comprometida em apoiar a promoção e desenvolvimento dos Cuidados Paliativos na Europa, assim como fora dela através da parceria com outras organizações. Encontra-se sediada em Bruxelas, na Bélgica. Espiritualidade: Busca pessoal por sentido, propósito e conexão com o sagrado ou o transcendente. Pode ou não envolver práticas religiosas, e reflete a relação da pessoa com aquilo que é essencial e dá sentido à vida. Florence Nightingale: Fundadora da enfermagem moderna, destacou-se na Guerra da Crimeia por integrar cuidado, ciência e espiritualidade. Inovou ao aplicar estatística à saúde, criar o diagrama em rosa, reformar o design hospitalar e fundar a primeira escola secular de enfermagem. Organização Mundial da Saúde (OMS): Parte das Nações Unidades e também sediada em Genebra, na Suíça, é uma organização dedicada à saúde e segurança mundial fundada em 1948. Sua função central é direcionar e coordenar o trabalho internacional de saúde por meio da colaboração entre os 194 Estados-membros, estes organizados em 6 regiões de saúde (África, Américas/Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Mediterrâneo Oriental, Europa, Ásia Sudoriental e Pacífico Ocidental). Em inglês, diz-se “World Health Organization (WHO)”. Plano Terapêutico Singular (PTS): Também chamado de Projeto Terapêutico Singular, é o conjunto articulado de condutas planejadas para um indivíduo, família ou grupo, construído a partir da discussão coletiva de uma equipe interdisciplinar. Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP): Conjunto de medidas e diretrizes instituídas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS) pelo Ministério da Saúde do Brasil para garantir acesso a Cuidados Paliativos de qualidade aos usuários do sistema. A PNCP foi instituída através da Portaria nº 3.681, de 7 de maio de 2024. Rede de Atenção à Saúde (RAS): De acordo com o Ministério da Saúde, é o “arranjo organizativo de ações e serviços de saúde, de diferentes densidades tecnológicas que, integradas por meio de sistemas de apoio técnico, logístico e de gestão, buscam garantir a integralidade do cuidado”. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Testamento vital: Tipo de diretiva antecipada de vontade (DAV), que versa sobre os tratamentos e preferências de cuidados relacionados à terminalidade da vida. Na Resolução do Conselho Federal de Medicina Nº 1995/2012, é trazida como sinônimo de DAV.
Referências bibliográficas
Castilho RK, Silva VCS, Pinto CS. Manual de cuidados paliativos da Academia Nacional de Cuidados Paliativos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Atheneu; 2021.
Conselho Federal de Enfermagem (Brasil). Resolução COFEN nº 581/2018, alterada pela Resolução COFEN nº 625/2020. Diário Oficial da União. 2018 jul 19; Seção 1.
Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais. Manual de orientações quanto à competência técnico-científica, ética e legal dos profissionais de enfermagem. Belo Horizonte: Coren-MG; 2020. v. 1. (Obra em 3 volumes).
Firmino F, Trotte LAC, Silva RS da. Competências do enfermeiro especialista em cuidados paliativos no Brasil [livro eletrônico]. Rodrigues DP, organizador. 1ª ed. São Paulo: Academia Nacional de Cuidados Paliativos; 2022. ISBN: 978-65-993339-6-5.
Frias CFC, Pacheco S. Papel do enfermeiro na equipe interdisciplinar de CP. In: Silva RS, Amaral JB, Malagutti W, organizadores. Enfermagem em cuidados paliativos: cuidando para uma boa morte. São Paulo: Martinari; 2019. cap. 3.
Matzo M, Sherman DW. Palliative care nursing: quality care to the end of life. 4th ed. New York: Springer Publishing Company; 2014. ISBN: 978-0-8261-9635-4.
Saunders C. Prefácio. In: Sociedade Francesa de Acompanhamento e de Cuidados Paliativos (SFAP). Desafios da enfermagem em cuidados paliativos. Lisboa (PT): Lusociência; 2000.
Silva RS, Amaral JB. Trajetória histórica do Movimento Hospice Moderno e as contribuições de uma enfermeira. In: Silva RS, Amaral JB, Malagutti W, organizadores. Enfermagem em cuidados paliativos: cuidando para uma boa morte. 2ª ed. São Paulo: Martinari; 2019.
World Health Organization. Definition of palliative care [Internet]. Geneva: WHO; [s.d.]. Available from: https://www.who.int/cancer/palliative/definition/en/. Accessed: 2025 Jun 28



Que texto inspirador! A enfermagem paliativista é a expressão mais profunda do cuidar com dignidade, empatia e presença. Um chamado diário para reafirmar a humanidade até o fim.
Admiro muito pessoas que sabem “cuidar”. Não sou essa pessoa, jamais poderia ser enfermeira. Não tenho o tato necessário para esse trabalho tão difícil. Acho que enfermagem é um dos trabalhos mais difíceis que existe, exige que você esteja bem/ou pareça bem para cuidar do outro. O outro é sempre a prioridade. É um trabalho nobre.