Categorias: Fundamentos, Avaliação prognóstica, Tomada de decisão, Manejo de fim de vida Autor(a): Fernanda Tourinho, médica clínica e paliativista, e Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 25/06/2025
Contexto
Falar de prognóstico em Cuidados Paliativos é mais do que tentar prever um desfecho clínico: é alinhar o cuidado com a realidade, a expectativa com a possibilidade. Para isso, não contamos com certezas — mas com modos estruturados de pensar, que ajudam a reduzir vieses e qualificar decisões. Nesta Pílula, exploramos três formas de avaliação prognóstica que podem — e devem — se complementar na prática clínica: a Previsão Clínica de Sobrevida (PCS), as ferramentas escalares e os modelos preditivos.
Previsão Clínica de Sobrevida (PCS): rápida, subjetiva e sujeita a vieses
A Previsão Clínica de Sobrevida (PCS) é uma estimativa subjetiva feita pelo médico sobre o tempo de vida restante de um paciente. Embora simples e rápida, essa previsão é influenciada por diversos fatores emocionais, cognitivos e contextuais — e, por isso, está sujeita a vieses. Ainda assim, quando bem utilizada, a PCS é uma ferramenta clínica valiosa para estimular o raciocínio prognóstico e apoiar decisões de cuidado.
Ela pode ser expressa de três formas distintas:
A Pergunta Surpresa (PS): “Você se surpreenderia se este paciente morresse nos próximos 12 meses?” — tem alto valor preditivo negativo e costuma ser usada como gatilho para discussões sobre planejamento antecipado de cuidados (PAC). Também integra várias ferramentas de triagem em Cuidados Paliativos, como discutido na PP #025.
A pergunta temporal: “Quantos dias/semanas/meses acredito que este paciente ainda viverá?” — oferece uma estimativa direta de tempo, útil em alguns contextos clínicos, mas vulnerável a imprecisões, especialmente em doenças crônicas.
A pergunta probabilística: “Qual a chance deste paciente estar vivo em 3 meses?” — busca uma estimativa percentual e é frequentemente usada em pesquisas clínicas e modelos quantitativos.
Todas essas formas têm em comum o fato de se basearem na experiência e julgamento clínico do profissional. A tendência à superestimação da sobrevida — sobretudo em pacientes com vínculo prévio ou doenças de progressão lenta — reforça a necessidade de combinar a PCS com abordagens mais objetivas. Quando utilizada com consciência de seus limites, ela pode ser um ponto de partida potente para decisões mais realistas e alinhadas com o que realmente importa para o paciente.
Ferramentas escalares: a funcionalidade como bússola
Avaliar a funcionalidade do paciente é uma das estratégias mais eficazes e acessíveis para estimar prognóstico em Cuidados Paliativos. O declínio funcional progressivo correlaciona-se com aumento da mortalidade e pode ser monitorado por ferramentas simples, com ampla aplicabilidade clínica. Embora não forneçam uma estimativa direta de tempo de vida, essas escalas oferecem informações valiosas sobre o curso da doença e orientam decisões ao longo da trajetória do cuidado.
Entre as principais ferramentas estão:
Palliative Performance Scale (PPS): amplamente usado na prática paliativa, avalia cinco domínios — deambulação, atividade e evidência de doença, autocuidado, ingestão oral e nível de consciência. Pontuações abaixo de 60% sugerem prognóstico limitado e maior necessidade de Cuidados Paliativos.
Karnofsky Performance Scale (KPS): atribui uma pontuação de 0 a 100 à capacidade de realizar atividades cotidianas. Tal como o PPS, valores < 60% indicam perda funcional relevante.
ECOG Performance Status: de uso difundido na Oncologia, classifica a funcionalidade de 0 (plenamente ativo) a 5 (óbito), sendo útil para estimar tolerância a tratamentos e avaliar sobrevida.
Além de sustentarem o raciocínio prognóstico, essas escalas auxiliam no monitoramento da evolução clínica, na comunicação com pacientes e famílias, e na definição de intervenções proporcionais à condição funcional.
Modelos preditivos: combinando dados para prever tempo de vida
Os modelos preditivos oferecem estimativas mais objetivas de sobrevida, ao combinar múltiplas variáveis clínicas e laboratoriais. Embora menos utilizados na prática diária — por demandarem mais tempo e familiaridade —, são valiosos em cenários de fim de vida ou em contextos de pesquisa.
Palliative Prognostic Score (PaP Score): integra sintomas (anorexia, dispneia, nível de consciência), KPS, PCS e exames laboratoriais (leucócitos e linfócitos), classificando o paciente em três grupos prognósticos conforme a probabilidade de óbito em 20 dias.
Palliative Prognostic Index (PPI): combina performance funcional, presença de delirium, dispneia e ingestão oral, podendo ser aplicado mesmo na ausência de exames laboratoriais.
Essas ferramentas são especialmente úteis em contextos de grande incerteza, quando é necessário tomar decisões difíceis e comunicar riscos com mais precisão. Ainda assim, é essencial lembrar que o prognóstico é sempre probabilístico, e não uma previsão exata. Sua elaboração requer cautela, e sua comunicação, empatia.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Utilize a Previsão Clínica de Sobrevida (PCS) com senso crítico: rápida e educativa, ela estimula o raciocínio prognóstico e pode sensibilizar a equipe para o cuidado antecipado. No entanto, deve ser complementada por métodos objetivos, já que é subjetiva e sujeita a vieses.
Incorpore escalas funcionais na prática clínica: ferramentas como PPS, KPS ou ECOG são simples, reprodutíveis e fornecem dados consistentes para estimar prognóstico, monitorar evolução e apoiar decisões.
Considere modelos preditivos em cenários complexos: instrumentos como o PPI e o PaP Score refinam a estimativa de sobrevida e são especialmente em cenários de fim de vida ou necessidade de maior precisão.
Fortaleça o raciocínio prognóstico em equipe: discutir estimativas de sobrevida melhora a qualidade das decisões, evita futilidades terapêuticas e alinha o cuidado com os objetivos e valores do paciente.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Quando bem aplicadas, as ferramentas prognósticas ajudam a evitar tanto a suspensão precoce de terapias modificadoras de doença quanto a obstinação terapêutica. Tornam-se aliadas na priorização de cuidados, no planejamento de trajetórias possíveis e, sobretudo, na construção de sentido para o paciente e sua rede de apoio.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Delirium: Distúrbio agudo, transitório e geralmente reversível, caracterizado pela alteração flutuante da atenção, da cognição e do nível de consciência. Geralmente, secundário à doença orgânica, representando uma disfunção neurológica associada. Dispneia: Sensação subjetiva de dificuldade ou desconforto para respirar, com intensidade variável. Resulta da interação de fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais, podendo desencadear respostas físicas e emocionais. ECOG Performance Status: Escala de avaliação funcional desenvolvida pelo Eastern Cooperative Oncology Group (ECOG), que classifica o desempenho físico do paciente de 0 (totalmente ativo) a 5 (óbito). É amplamente usada na oncologia e em Cuidados Paliativos para estimar a tolerância ao tratamento e a sobrevida. Ferramentas de triagem em Cuidados Paliativos: Ferramenta destinada à identificação de pacientes que possam se beneficiar da abordagem paliativa. Uma boa ferramenta de triagem deve ser sensível – ou seja, capaz de identificar todos os pacientes com necessidades paliativas –, mesmo que, para isso, apresente menor especificidade, incluindo pacientes que talvez não tenham um benefício claro da abordagem paliativa. Além disso, é desejável que a ferramenta identifique os pacientes precocemente, e não apenas em fases avançadas ou no fim de vida. Exemplos incluem: NECPAL-BR, SPICT-BR e GSF-PIG. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Karnofsky Performance Scale (KPS): Escala que mede a funcionalidade de pacientes por meio de pontuações de 0 a 100, em incrementos de 10, considerando a capacidade de realizar atividades da vida diária. Utilizada como ferramenta prognóstica em pacientes com doenças crônicas graves, incluindo câncer e condições neurológicas. Obstinação terapêutica: Prolongamento a qualquer custo da vida de um paciente em fim de vida, sem perspectiva de cura, causando sofrimento. Sinônimo de distanásia. Palliative Performance Scale (PPS): Escala que avalia a funcionalidade e o estado clínico geral de pacientes em Cuidados Paliativos. Desenvolvida pelo Victoria Hospice Society, ela varia de 0% (morte) a 100% (estado pleno de saúde), em incrementos de 10%, considerando cinco dimensões: deambulação, atividade e evidência de doença, capacidade de autocuidado, ingestão oral e nível de consciência. Palliative Prognostic Index (PPI): Modelo preditivo de sobrevida desenvolvido para pacientes com câncer avançado. Utiliza dados clínicos como funcionalidade (via PPS), presença de delirium, dispneia e ingestão oral para estimar a sobrevida em dias ou semanas, sem necessidade de exames laboratoriais. Palliative Prognostic Score (PaP Score): Modelo preditivo validado para pacientes com câncer avançado. Integra sintomas (dispneia, anorexia), funcionalidade (KPS), previsão clínica de sobrevida, nível de consciência e exames laboratoriais (leucócitos e linfócitos) para estimar a probabilidade de morte em 30 dias. Previsão Clínica de Sobrevida (PCS): Método utilizado por médicos para estimar a sobrevida de pacientes, com base em perguntas estruturadas, como a pergunta temporal, a pergunta probabilística e a Pergunta Surpresa (PS). Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida. Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Sobrevida: Tempo de vida após um determinado marco temporal - por exemplo, sobrevida após diagnóstico de uma doença ou alta hospitalar. Terapia modificadora de doença: Todo tratamento que modifica o curso de uma doença, com objetivo de aumento de sobrevida e, idealmente, melhora na qualidade de vida. Não é sinônimo de terapia curativa. Terminalidade: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura, está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. A maior parte da literatura considera terminalidade como sinônimo de fim de vida, embora algumas correntes façam distinção entre esses dois termos. Na Escola de Habilidades Paliativas, esses termos são utilizados como sinônimos. Tomada de decisão compartilhada: Processo colaborativo em que profissionais de saúde, pacientes e — quando apropriado — seus familiares ou representantes constroem juntos as decisões sobre o cuidado, integrando evidências clínicas (conhecimento técnico) com os valores, preferências e objetivos de vida do paciente.
Referências bibliográficas
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Scarpi E, Nanni O, Maltoni M. Development and validation of the PaP score nomogram for terminally ill cancer patients. Cancers (Basel). 2022 May 19;14(10):2510.
Tourinho F. E-pali 2: prognóstico e funcionalidade. [S.l.: s.n.], 2025


