Categorias: Manejo de sintomas Autor(a): Fernanda Romeiro, médica clínica e paliativista Publicado em: 03/09/2025
Contexto
Como conciliar a beleza exterior com a complexidade da finitude da vida? Será que cuidar da aparência é apenas vaidade? Em um mundo centrado na produtividade e na busca incessante pela juventude eterna, é fácil cair nessa armadilha. A estética em Cuidados Paliativos — um campo que para muitos ainda soa como paradoxo — mostra que intervenções simples, como um batom, uma massagem nas mãos ou um penteado, podem ser atos de profunda humanização e resgate da dignidade.
Nos últimos anos, a compreensão dos Cuidados Paliativos tem se expandido, abrindo espaço para que a estética, antes vista como algo supérfluo, revele seu poder transformador. Quando o sofrimento físico e emocional se instala, a estética transcende a superfície e pode se tornar um bálsamo, um gesto de respeito e um caminho para alcançar o bem-estar.
Desvendando a Estética Humanizada
A estética, entendida como o estudo do que é belo nas manifestações artísticas e naturais, ganha novos contornos no contexto dos Cuidados Paliativos. Imagine um paciente em tratamento oncológico que, além do enfrentamento de terapias invasivas, apresenta xerose, alopécia e queda da autoestima. Nesse cenário, a estética humanizada surge como cuidado que vai muito além da aparência. Mais do que “embelezar”, ela restabelece a conexão com a imagem corporal, promovendo uma sensação de dignidade e valor.
Não se trata de negar a realidade da doença, mas de oferecer recursos que ajudem a pessoa a sentir-se melhor consigo mesma. Como observa Le Breton (2007), a aparência corporal é uma forma de se apresentar e se representar, influenciando diretamente a autoestima. Para quem enfrenta uma doença ameaçadora à vida, olhar-se no espelho e reconhecer-se, mesmo com as marcas do tratamento, é um ato de resistência e força.
As terapias estéticas podem ser grandes aliadas nos cuidados, favorecendo o bem-estar, ampliando a autoestima e melhorando a imagem corporal. O resultado é um paciente mais confiante e engajado no próprio processo de cuidado.
O Resgate da Imagem Pessoal: Visagismo, Maquiagem e Saúde da Pele
Tratamentos oncológicos, como já mencionado, trazem efeitos colaterais visíveis: queda de cabelos, cílios e sobrancelhas, além de ressecamento da pele e alterações na imagem corporal. Para muitas pessoas, isso representa perda da identidade e da imagem pessoal, o que pode levar ao isolamento social. Nesse contexto, o visagismo e a maquiagem tornam-se ferramentas terapêuticas relevantes no resgate da autoestima.
Segundo Fernand Aubry, criador do conceito, o visagismo busca revelar qualidades intrínsecas na imagem pessoal, trazendo à tona características interiores, mas sempre respeitando a harmonia e a estética das formas. A maquiagem, por sua vez, não é uma “máscara”, mas um recurso que valoriza o estilo e a personalidade, auxiliando na reconstrução da imagem corporal e da autoconfiança. Cuidar da própria imagem, mesmo em meio à doença, é um ato de autocuidado e de reafirmação da identidade.
Projetos como “De Bem com Você – A Beleza contra o Câncer”, em São Paulo, ligado ao programa global “Look Good Feel Better”, oferecem workshops gratuitos a pessoas com câncer. O objetivo é ajudar a lidar com os efeitos colaterais relacionados à aparência, restaurando a confiança e a autoestima por meio de lições práticas de beleza.
A abordagem estética nos Cuidados Paliativos também se estende à saúde da pele, impactada pelos tratamentos oncológicos. A radiodermatite e a xerose são condições comuns e desconfortáveis, com impacto relevante na qualidade de vida dos pacientes. Nesse contexto, a cosmetologia oncológica propõe o uso de formulações seguras e regeneradoras, como aloe vera, ácido hialurônico, vitaminas C e E e óleos vegetais. Esses recursos auxiliam na recuperação da barreira cutânea, aliviam prurido e dor e melhoram o aspecto da pele, promovendo conforto, resgatando identidade e atenuando o sofrimento.
A Estética na Doenças Não-Oncológicas
Embora o enfoque recaia frequentemente sobre pacientes oncológicos, outras doenças ameaçadoras à vida também estão intimamente associadas à queda da autoestima secundária ao impacto da imagem corporal — seja por alterações corporais ou funcionais. Na Doença Renal Crônica, por exemplo, o prurido urêmico, a xerose e a hiperpigmentação são queixas frequentes, com repercussão significativa na qualidade de vida.
Nas doenças reumatológicas, as manifestações cutâneas podem ser ainda mais estigmatizantes. Na esclerose sistêmica, a fibrose progressiva com espessamento da pele, as telangiectasias, a microstomia e as deformidades digitais afetam especialmente mulheres jovens, comprometendo profundamente a imagem corporal e a qualidade de vida. Já na artrite reumatoide — a artrite inflamatória mais prevalente no mundo —, deformidades nas mãos e alterações corporais estão associadas à queda expressiva da satisfação corporal e da autoestima, com repercussões diretas na motivação para o tratamento e no bem-estar psicossocial. Por isso, faz-se necessário um olhar atento a esses pacientes, e não apenas aos oncológicos.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Investigue a imagem corporal e a autoestima do paciente durante sua avaliação em Cuidados Paliativos.
Adapte as intervenções estéticas à biografia, à fragilidade e à condição clínica de cada paciente.
Integre profissionais de estética especializados à equipe interdisciplinar, ampliando a qualidade dos cuidados.
Utilize produtos formulados para pele e fâneros sensibilizados, garantindo mais conforto e segurança.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Ao reconhecer a importância da estética no contexto de cuidado paliativo, demonstramos uma compreensão profunda do ser humano e sua necessidade inata de se sentir bem, de se reconhecer. Cuidar da aparência em um contexto de fragilidade não é um sinal de vaidade superficial, mas de resiliência e de amor-próprio. Um simples toque, um batom, uma massagem suave podem transformar o dia de alguém em tratamento. Cuidar da aparência, nesse contexto, é reafirmar que o paciente continua sendo sujeito de histórias, identidade e afeto. Estética em cuidados paliativos não é vaidade, é dignidade.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Autoestima: Percepção subjetiva de valor e segurança que uma pessoa atribui a si mesma, refletindo como se sente em relação a quem é. Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Imagem corporal: Representação mental e afetiva do próprio corpo, que integra como a pessoa percebe sua aparência e como se sente em relação a ela. Microstomia: Redução anormal da abertura da boca, de origem congênita ou adquirida (como em queimaduras, traumas, radioterapia ou doenças como esclerodermia). Prurido: Sensação incômoda na pele que provoca vontade de coçar. Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Xerose: Termo médico para pele seca.
Referências bibliográficas
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Mota, R. D. et al. A estética como ferramenta para promoção de saúde em pacientes crônicos: uma revisão integrativa. Anais da Mostra Científica de Enfermagem, 2019.
Le Breton, D. A sociologia do corpo. Petrópolis: Vozes, 2007.
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Ozkaraman A, et al. Aromatherapy: The Effect of Lavender on Anxiety and Sleep Quality in Patients Undergoing Chemotherapy. Eur J Integr Med. 2018;20:6–11.
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