Categorias: Manejo de sintomas Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 11/09/2025
Contexto
A tosse é um reflexo natural e protetor do corpo humano, ajudando a expulsar secreções e partículas que não deveriam estar nos pulmões. Contudo, em pessoas com doenças ameaçadoras à vida, esse mecanismo pode se transformar em fonte de intenso sofrimento. O que antes era defesa, torna-se sinal de desgaste: crises repetidas que atrapalham o sono, dificultam a alimentação, expõem à fadiga e podem até gerar constrangimento social.
Entre proteção e sofrimento
O reflexo da tosse é complexo: começa quando receptores espalhados pelas vias aéreas, pleura e até no esôfago captam estímulos irritativos (como secreções ou refluxo ácido). Esses sinais chegam ao tronco encefálico e dali partem comandos que ativam a musculatura respiratória. O resultado é a explosão de ar que conhecemos como tosse, capaz de atingir velocidades superiores a 800 km/h.
Nas doenças avançadas, porém, pode surgir a chamada hipersensibilidade do reflexo da tosse: mesmo sem obstrução real, o corpo interpreta estímulos mínimos como ameaça, mantendo um ciclo contínuo de tosse persistente. Esse sintoma pode ser desencadeado por infiltração tumoral, bronquiectasias, infecções recorrentes ou até por medicamentos, como os inibidores da enzima conversora da angiotensina. No fim da vida, até 80% dos pacientes apresentam tosse e, quando o “alarme” não desliga, a tosse perde seu caráter protetor e se converte em desgaste físico e emocional.
Avaliar para aliviar
Em Cuidados Paliativos, a avaliação da tosse precisa ir além de classificá-la como “seca” ou “produtiva”. É essencial investigar sua intensidade, impacto na funcionalidade e no bem-estar do paciente. Uma tosse noturna, por exemplo, pode ser devastadora para o sono. Tosse durante as refeições sugere deglutição ineficaz e pede avaliação fonoaudiológica. Já a tosse acompanhada de sialorreia pode sinalizar falha no controle orofacial.
Anamnese e exame físico bem feitos são suficientes para identificar causas tratáveis na maioria dos casos, poupando intervenções desnecessárias. Alguns pontos fundamentais incluem:
Duração da tosse
Impacto da tosse e fatores desencadeantes
História familiar
Intensidade da tosse, mensurada através da Escala Visual Analógica, por exemplo
Aplicação do HARQ (Hull Cough Hypersensitivity Questionnaire), questionário que avalia hipersensibilidade da tosse, útil especialmente em casos associados a refluxo
Sintomas associados: garganta, tórax, trato gastrointestinal
Fatores de risco: tabagismo, uso de IECA, síndrome da apneia obstrutiva do sono
Exame físico: garganta, tórax e ouvido
Quando indicados, exames complementares podem ajudar a refinar a investigação, como radiografia de tórax, espirometria, hemograma com contagem de eosinófilos e FeNO (fração exalada de óxido nítrico), se disponível.
A chave está em alinhar diagnóstico e conduta com o prognóstico e com o objetivo do cuidado.
Manejo centrado na pessoa
O tratamento deve equilibrar medidas simples e eficazes com intervenções farmacológicas bem indicadas.
Medidas não farmacológicas: mel, uso de respiração diafragmática, adaptação postural e ajustes na alimentação podem ser suficientes em casos leves. O simples ato de explicar a natureza da tosse à família pode reduzir a ansiedade que o sintoma provoca.
Antitussígenos periféricos: como dropropizina ou levodropropizina, oferecem segurança em tosse seca e leve.
Antitussígenos centrais: opioides em baixas doses (codeína, morfina, metadona) são eficazes quando o sintoma interfere em sono, fala ou alimentação.
Adjuvantes: gabapentinoides são úteis em tosse neuropática, enquanto mucolíticos, expectorantes e nebulizações auxiliam nos casos produtivos com secreção espessa.
Terapias específicas: em situações selecionadas, pode-se lançar mão até da inalação de anestésicos locais, embora com cautela devido ao risco de broncoespasmo.
O importante é compreender que o manejo não deve seguir uma “receita fixa”, mas se adaptar ao impacto do sintoma para cada pessoa. Pequenas melhoras — como conseguir dormir algumas horas sem crises — podem ser conquistas enormes em qualidade de vida.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Pergunte como a tosse afeta a vida cotidiana.
Envolva a equipe interdisciplinar — fonoaudiologia e nutrição têm papel fundamental quando a tosse se relaciona com disfagia.
Reforce o cuidado centrado na pessoa, explicando o que esperar das intervenções e alinhando expectativas.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Na prática paliativa, é comum vermos familiares angustiados diante da tosse contínua do paciente. Muitas vezes, a explicação clara de que se trata de um sintoma controlável — e não de um “sinal de morte iminente” — já traz alívio. Como profissionais de saúde, não devemos subestimar o poder do esclarecimento — é preciso traduzir o que está acontecendo para reduzir o medo que amplifica o sintoma.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Ansiedade: Estado afetivo caracterizado por apreensão, tensão e antecipação de perigo, com componentes emocionais, físicos e cognitivos. Pode ser uma resposta adaptativa a situações de estresse, mas torna-se patológica quando é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento cotidiano. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Escala Visual Analógica: Ferramenta utilizada para medir a intensidade de um sintoma, especialmente dor. Consiste em uma linha reta graduada de 0 a 10, na qual 0 é a ausência do sintoma e 10 é a intensidade máxima do sintoma. Pode vir acompanhada de cores e emojis de faces para facilitar a classificação dos pacientes. Útil tanto para avaliação inicial quanto para acompanhamento da resposta ao tratamento instituído. Fadiga: Sensação subjetiva e persistente de cansaço, que pode ser física, emocional e/ou cognitiva. Caracteriza-se por ser desproporcional ao esforço realizado, não melhorar com repouso ou sono e interferir negativamente nas atividades da vida cotidiana. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Opioide: Termo que engloba os alcaloides derivados da papoula (Papaver somniferum), seus análogos sintéticos e as substâncias endógenas que se ligam aos receptores opioides distribuídos por todo o corpo. Como medicamentos, são utilizados principalmente para o controle da dor, mas também podem ser eficazes no alívio de outros sintomas. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida. Respiração diafragmática: Técnica respiratória que enfatiza o uso do diafragma, promovendo a expansão abdominal durante a inspiração. Pode ajudar no relaxamento, na redução da dispneia e no controle da tosse. Sialorreia: Condição caracterizada pelo excesso de saliva na boca, causado por produção aumentada ou por dificuldade no controle e deglutição da saliva. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Tosse: Reflexo natural de defesa do sistema respiratório, marcado pela expulsão súbita e ruidosa de ar para remover secreções, partículas ou irritantes das vias aéreas.
Referências bibliográficas
Morice AH, Millqvist E, Bieksiene K, et al. ERS guidelines on the diagnosis and treatment of chronic cough in adults and children. Eur Respir J. 2020;55(1):1901136.
Oxford Textbook of Palliative Medicine. 6th ed. Cherny NI, Fallon M, Kaasa S, Portenoy RK, Currow DC, eds. Oxford University Press; 2021.



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