Categorias: Fundamentos Autor(a): Raíssa Dantas, médica oncologista e paliativista Publicado em: 18/06/2025
Contexto
O avanço das terapias oncológicas e o aumento da expectativa de vida dos pacientes com câncer ressaltam a importância dos Cuidados Paliativos como parte integrante do tratamento. Reconhecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como diretriz fundamental para a assistência em oncologia, esses cuidados devem ser considerados desde o diagnóstico, sobretudo em situações de prognóstico reservado de doença ameaçadora à vida. Nesta #PP, discutiremos as particularidades da integração entre oncologia e Cuidados Paliativos.
Importância dos Cuidados Paliativos em Oncologia
Os Cuidados Paliativos constituem uma abordagem voltada a melhorar a qualidade de vida de pacientes com doenças ameaçadoras à vida, incluindo os cânceres em estágios avançados. Priorizam o manejo de sintomas como dor, fadiga, náuseas, dificuldades respiratórias e questões sociais, emocionais e espirituais, fundamentando-se no conceito de dor total (para uma discussão mais ampliada sobre esse tema, leia a #PP010 Dor Total).
Na oncologia, esses cuidados são fundamentais , promovendo bem-estar tanto do paciente quanto de seus familiares. É importante compreender que não se restringem ao período de fim de vida, mas devem estar presentes de forma contínua, integrados às terapias curativas ou de controle da doença.
A recomendação atual é que os Cuidados Paliativos sejam iniciados o mais precocemente possível na trajetória do câncer. A integração precoce favorece melhor controle dos sintomas, maior autonomia do paciente e preparo emocional mais adequado para o enfrentamento da condição. A discussão sobre objetivos de tratamento, preferências e valores do paciente — incluindo o planejamento antecipado de cuidados (PAC) — reforça a autonomia e previne intervenções indesejadas ou desnecessárias.
Entendimento da doença como base para decisões em oncologia
Na oncologia, decisões terapêuticas estão frequentemente cercadas de complexidade e ambiguidade entre medo e esperança. Um dos grandes desafios é garantir que pacientes compreendam, de forma clara, o potencial e as limitações das terapias propostas. O estudo de Weeks et al. (2012), conduzido nos Estados Unidos, mostrou que 69% dos pacientes com câncer de pulmão metastático e 81% daqueles com câncer colorretal metastático acreditavam, de forma equivocada, que a quimioterapia poderia curar sua doença. Esse dado é preocupante, já que, na maioria das situações, a quimioterapia em estádios avançados oferece apenas ganho limitado de sobrevida e controle sintomático, mas não tem caráter curativo. Quando há essa lacuna de entendimento, escolhas podem ser feitas com base em expectativas irreais, fragilizando a autonomia e comprometendo o consentimento informado.
Por outro lado, quando os Cuidados Paliativos são integrados precocemente ao tratamento oncológico, observa-se impacto direto na forma como pacientes entendem sua doença e participam das decisões. O trabalho de Temel et al. (2010) demonstrou que pacientes com câncer de pulmão não pequenas células metastático, ao receberem Cuidados Paliativos desde o diagnóstico, apresentaram melhor qualidade de vida, menor depressão e menos tratamentos agressivos no fim de vida — e, ainda assim, viveram mais. Essa clareza no processo decisório possibilitou alinhar condutas às preferências individuais, sem que isso significasse perda de esperança, mas sim uma esperança mais realista e centrada em metas alcançáveis.
Essas evidências reforçam que, em oncologia, compreender a trajetória da doença ameaçadora à vida é fundamental para que pacientes e famílias possam tomar decisões embasadas, evitando tratamentos potencialmente inapropriados e favorecendo cuidados que tragam sentido, dignidade e qualidade de vida.
A equipe multidisciplinar e sua importância na oncologia
Nos Cuidados Paliativos em oncologia, a equipe multidisciplinar é indispensável para lidar com a complexidade do tratamento e da evolução da doença ameaçadora à vida. Médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos e outros profissionais (veja mais na #PP007 A equipe de Cuidados Paliativos) unem saberes para responder a demandas físicas, emocionais e sociais que emergem ao longo da trajetória da doença.
A enfermagem, por exemplo, está na linha de frente do manejo de toxicidades relacionadas à quimioterapia e radioterapia, no acompanhamento de cateteres e no suporte contínuo à família (#PP029 O papel da enfermagem em Cuidados Paliativos). A fisioterapia atua de forma decisiva na prevenção de complicações como a imobilidade e na reabilitação de pacientes que sofrem com fadiga, dispneia ou limitações físicas decorrentes do câncer e de seus tratamentos (#PP020 O papel do fisioterapeuta em Cuidados Paliativos). Já o farmacêutico clínico contribui diretamente para a segurança da terapia antineoplásica e adjuvante, prevenindo interações medicamentosas, otimizando esquemas de controle de náuseas e ajustando doses em situações de fragilidade ou falência orgânica (#PP012 O papel do farmacêutico em Cuidados Paliativos).
Quando integrada, essa equipe possibilita diálogos mais consistentes com pacientes e familiares, apoiando decisões alinhadas aos valores individuais. Essa prática reduz tratamentos potencialmente inapropriados, melhora a adesão às condutas e promove maior conforto, especialmente nos cenários de prognóstico limitado e no fim de vida.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Desenvolva e integre habilidades paliativas desde o diagnóstico. Oncologistas podem — e devem — incorporar princípios paliativos no cuidado oncológico.
Considere o encaminhamento à equipe especializada de Cuidados Paliativos sempre que houver complexidade clínica, sofrimento difícil de manejar ou transição no objetivo do tratamento — mesmo em terapias com intenção curativa.
Comunique-se de forma humanizada e transparente — mantenha diálogo aberto e empático com pacientes e familiares, explicando de maneira clara as opções de tratamento, expectativas realistas, objetivos e possíveis mudanças no plano terapêutico.
Promova alinhamento entre equipe, paciente e família — incentive reuniões multiprofissionais periódicas para revisar o prognóstico e ajustar o objetivo do cuidado conforme a evolução clínica e os desejos expressos.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 A chave para um cuidado eficaz em oncologia está na comunicação humanizada e na antecipação das necessidades do paciente. Quanto mais cedo os Cuidados Paliativos forem integrados, melhor será a qualidade de vida durante todo o percurso da doença. Não existe “momento errado” para começar — a ativação precoce dessa abordagem é uma estratégia comprovada para beneficiar não apenas o paciente, mas também seus familiares.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio. Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Dispneia: Sensação subjetiva de dificuldade ou desconforto para respirar, com intensidade variável. Resulta da interação de fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais, podendo desencadear respostas físicas e emocionais. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Dor total: Conceito criado por Dame Cicely Saunders na década de 1960, que propõe que a dor é multidimensional, não apenas física. Esse conceito apresenta o sofrimento como um fenômeno abrangente, envolvendo dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais, que estão interligadas e se influenciam mutuamente. Atualmente, esse entendimento pode ser ampliado para o termo sofrimento total, aplicando-se a outros tipos de sofrimento que, anteriormente, eram considerados exclusivamente físicos, como a dispneia e a náusea. Fadiga: Sensação subjetiva e persistente de cansaço, que pode ser física, emocional e/ou cognitiva. Caracteriza-se por ser desproporcional ao esforço realizado, não melhorar com repouso ou sono e interferir negativamente nas atividades da vida cotidiana. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente em literatura. Fragilidade: Estado clínico caracterizado pela diminuição da reserva fisiológica de múltiplos sistemas, tornando o indivíduo mais vulnerável a estressores e com maior risco de resultados adversos como hospitalização, dependência funcional e morte. Não deve ser confundida com a síndrome de fragilidade. Náusea: Sintoma caracterizado por vontade de vomitar, podendo ou não ser seguida de vômito. Organização Mundial da Saúde (OMS): Parte das Nações Unidas e também sediada em Genebra, na Suíça, é uma organização dedicada à saúde e segurança mundial fundada em 1948. Sua função central é direcionar e coordenar o trabalho internacional de saúde por meio da colaboração entre os 194 Estados-membros, estes organizados em 6 regiões de saúde (África, Américas/Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), Mediterrâneo Oriental, Europa, Ásia Sudoriental e Pacífico Ocidental). Em inglês, diz-se “World Health Organization (WHO)”. Planejamento antecipado de cuidados (PAC): Processo no qual uma pessoa com capacidade decisória preservada, com auxílio da equipe de saúde, expressa e registra seus valores, objetivos e preferências em relação a seus cuidados de saúde, com foco no fim da vida. Tem como objetivo garantir cuidados compatíveis com a biografia da pessoa, devendo ter como produtos finais: 1) A construção de um testamento vital e 2) A escolha de um procurador para cuidados de saúde. Em inglês, diz-se “Advance Care Planning (ACP)”, de forma que também pode ser traduzido como planejamento avançado de cuidado. Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida. Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Quimioterapia: Tratamento oncológico com uso de medicamentos de ação sistêmica que destroem ou inibem o crescimento de células tumorais. Pode ser curativa ou paliativa, e classificada conforme o momento de uso: neoadjuvante (antes) ou adjuvante (após outros tratamentos). Radioterapia: Tratamento oncológico com uso de radiação ionizante para destruir ou inibir o crescimento de células tumorais. Pode ser curativa ou paliativa, e classificada conforme o momento de uso: neoadjuvante (antes) ou adjuvante (após outros tratamentos). Sobrevida: Tempo de vida após um determinado marco temporal - por exemplo, sobrevida após diagnóstico de uma doença ou alta hospitalar. Tratamento potencialmente inapropriado: Intervenção que pode ter alguma chance de alcançar o efeito desejado, mas que, na avaliação da equipe, apresenta conflitos éticos ou clínicos relevantes que podem justificar sua não indicação. É preferível ao termo “fútil”, por reconhecer a possibilidade de benefício, ponderando sua proporcionalidade e adequação ao contexto do cuidado.
Referências bibliográficas
Organização Mundial da Saúde. Cuidados Paliativos. Geneva: WHO; 2020.
Mori M, Shimizu C, Ogawa A, Okusaka T, Yoshida S, Morita T. Integrating palliative care into oncology practice. J Palliat Med. 2020;21(5):623-9.
Ministério da Saúde (BR). Diretrizes para Cuidados Paliativos em Oncologia. Brasília: Ministério da Saúde; 2019.
Bruera E, Kuehn N, Miller MJ, Selmser P, MacDonald N. The Edmonton Symptom Assessment System (ESAS): A simple method for the assessment of palliative care patients. J Pain Symptom Manage. 1999;17(6):229-42.
Weeks JC, Catalano PJ, Cronin A, Finkelman MD, Mack JW, Keating NL, et al. Patients’ expectations about effects of chemotherapy for advanced cancer. N Engl J Med. 2012;367(17):1616-25.
Temel JS, Greer JA, Muzikansky A, Gallagher ER, Admane S, Jackson VA, et al. Early palliative care for patients with metastatic non–small-cell lung cancer. N Engl J Med. 2010;363(8):733-42.


