Categorias: Manejo de sintomas, Manejo de fim de vida, Educação para a morte Autor(a): Silvana Aquino, psicóloga e paliativista Publicado em: 24/09/2025
Contexto
Os Cuidados Paliativos abrangem múltiplas dimensões do cuidado, que precisam ser reconhecidas ao longo do processo saúde-doença. Isso significa olhar não apenas para a pessoa que adoece, mas também para sua rede de apoio, compreendendo a experiência do sofrimento em suas diversas manifestações. O adoecimento traz consigo perdas inevitáveis, que exigem atenção dos profissionais envolvidos. Por isso, o apoio ao luto constitui uma das tarefas centrais e um dos princípios fundamentais dos Cuidados Paliativos.
Luto: aspectos conceituais
Nas diversas etapas que compreendem o desenvolvimento humano, o indivíduo convive simultaneamente com a questão da vida e da morte. Na passagem de uma etapa da vida para a outra, ocorre uma forma simbólica de morte, pois, em cada travessia, é preciso perder algumas características da fase anterior para iniciar a fase subsequente, atingindo, assim, uma nova etapa da vida. No processo do desenvolvimento humano, as experiências de perda — como separação, desemprego ou doença — podem ser comparadas àquelas vividas diante da morte. O término ou a interrupção de um projeto também traz a dimensão de perda, visto que, ao fazer escolhas, o ser humano decreta, consequentemente, a morte da outra possibilidade que não foi escolhida.
Há, portanto, perdas adjacentes à perda da pessoa. Mas a morte é a última, porque não é possível reaver quem se foi. Desse modo, entende-se que a morte é um acontecimento múltiplo, presente ao longo de todo o processo existencial. Dito de outra maneira, a morte pode se manifestar em pequenas doses ao longo da vida, sendo o adoecimento uma experiência que aciona o processo de luto e que deve ser contemplado como parte da estratégia de cuidado.
Apresentações do Luto nos Cuidados Paliativos
No contexto dos Cuidados Paliativos, o luto antecipatório é uma das formas mais prevalentes de expressão do luto. O termo surgiu a partir das observações de Lindemann (1944) sobre esposas de soldados que iam para a guerra e apresentavam reações de enlutamento pela separação e pela possibilidade de morte dos maridos. Foi compreendido como uma resposta adaptativa, permeada por períodos de depressão, raiva, desorganização e reorganização, antecipando o desligamento afetivo.
Segundo Worden (1998), o luto antecipatório ocorre antes da perda real, mas apresenta sintomas semelhantes ao luto agudo: torpor, aturdimento, anseio, protesto e desesperança. É uma resposta frente à quebra do mundo presumido, marcada por elevada intensidade emocional e pela necessidade de recursos adaptativos. Embora funcione como um ensaio que pode favorecer a reorganização psicossocial e o planejamento, não substitui a experiência da morte propriamente dita.
O suporte nesse cenário deve priorizar a construção de uma relação de confiança, favorecer a compreensão da doença e auxiliar no enfrentamento do adoecimento e dos tratamentos propostos. Também deve criar espaço para a expressão de sentimentos e autorregulação emocional, apoiar a continuidade dos projetos de vida e promover uma comunicação cuidadosa que permita a assimilação gradual da realidade.
Nos últimos dias de vida, cabe à equipe oferecer uma atmosfera de cuidado que contemple o alívio dos sintomas, a abordagem de preocupações psicossociais e espirituais e o apoio aos familiares envolvidos. Faz parte desse processo a possibilidade de realização de rituais de despedida, que podem auxiliar na assimilação da morte como evento inevitável. O vínculo estabelecido entre equipe e cuidadores torna-se, nesse momento, uma ferramenta essencial para o fortalecimento da família até que a morte se concretize.
Luto agudo: Principais características
O modelo do processo dual, proposto por Stroebe e Schut, define o luto como uma experiência emocional que oscila entre a orientação para a perda e para a restauração. Essa vivência se expressa por reações físicas, psicológicas, comportamentais e sociais, podendo se manifestar em cinco dimensões:
Cognitiva: confusão, desorganização, falta de concentração, desorientação e negação.
Emocional: choque, entorpecimento, raiva, culpa, alívio, depressão, irritabilidade, solidão, saudade, descrença, tristeza, ansiedade e medo.
Física: alterações no apetite e no sono, dispneia, palpitações, exaustão, diminuição ou perda de interesse sexual, alterações de peso, dor de cabeça, choro, mudanças intestinais.
Espiritual: sonhos com o falecido, perda ou aumento da fé, raiva de Deus ou outra representação religiosa, dor espiritual, questionamento de valores.
Sociocultural: perda da identidade, afastamento de pessoas significativas, isolamento e perda da capacidade de se relacionar socialmente.
A intervenção no período após o óbito facilita a elaboração e o enfrentamento da perda, e o suporte pós-óbito configura uma prática em consonância com a filosofia e os princípios dos Cuidados Paliativos. O apoio emocional envolve a presença respeitosa diante dos modos como cada família compreende e atribui significado à morte e ao morrer, levando em conta seu sistema de crenças e seus recursos de enfrentamento. Trata-se de uma tarefa que pode ser realizada por qualquer membro da equipe, por ser compreendida como uma intervenção primária, indicada nos casos em que não haja fatores de risco para o luto complicado. Nesses casos, torna-se necessário o encaminhamento para suporte especializado.
Possibilidades de intervenção
As reações e comportamentos diante da perda podem ser intensificados ou inibidos por fatores familiares, culturais, socioeconômicos, étnico-raciais e religiosos. Também devem ser consideradas as circunstâncias da perda, o contexto, o suporte social e as perdas secundárias ao evento.
O atendimento deve oferecer espaço para expressão do pesar, validação do sofrimento, informações sobre sintomas esperados no processo de luto e apoio às adaptações psicossociais nos primeiros meses após a perda. As intervenções podem ser:
Primária: ações de caráter informativo e acolhimento emocional, realizadas por membros da equipe de saúde ou voluntários treinados.
Secundária: grupos informativos, temáticos ou de ajuda mútua, conduzidos por conselheiros treinados.
Terciária: psicoterapia especializada para casos de transtorno do luto prolongado.
É importante ressaltar que o luto não é um processo linear, determinado por estágios ou fases iniciais e finais, mas uma nova condição existencial na qual é lançado aquele que perdeu alguém significativo. Sendo assim, o luto é uma vivência que suspende os sentidos habituais do mundo/vida, exigindo novos significados e um novo modo de ser com aquele que morreu. Isso porque, embora não esteja mais presente em sua corporeidade, o ente querido se apresenta cotidianamente no mundo que o anuncia, por meio de hábitos, experiências partilhadas e objetos — mas como ausência. Isso significa que a dor do luto tende a ser revivida de tempos em tempos, ainda que com menor frequência e intensidade, como em datas festivas ou em momentos marcantes, quando o mundo existencial emerge como sentido partilhado com quem se foi.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Reconheça o luto como parte do processo de cuidado, tanto do paciente e de seus familiares quanto da própria equipe de saúde.
Observe manifestações do luto antecipatório em pacientes e familiares, favorecendo espaços de diálogo e acolhimento antes mesmo da morte.
Facilite rituais de despedida nos cuidados de fim de vida, respeitando valores culturais, espirituais e afetivos.
Ofereça suporte pós-óbito de forma respeitosa, identificando sinais de luto complicado e encaminhando quando necessário.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 É preciso considerar um aspecto do luto que comumente é negligenciado: o luto do profissional de saúde, que se enquadra na categoria dos lutos não reconhecidos. O luto não reconhecido, conceito cunhado por Kenneth Doka (1989), decorre da quebra ou falha de empatia em situações de perdas não sancionadas socialmente. Os desafios envolvidos em nossa prática incluem construir espaços seguros de descompressão, acolhimento e apoio, como medida de autocuidado diante das perdas recorrentes que vivenciamos ao longo da trajetória profissional. É fundamental assegurarmos estratégias de gestão emocional que contemplem a saúde mental de quem cuida.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Cuidados de fim de vida: Cuidados ofertados a pacientes em terminalidade com o propósito de assegurar qualidade de vida até os últimos dias e proporcionar uma morte digna e sem sofrimento. Fazem parte dos Cuidados Paliativos e, por isso, possuem os mesmos princípios, porém não são sinônimos. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Luto: Vivência natural diante de uma perda de um vínculo significativo, seja ou não por morte. É uma resposta multidimensional, com manifestações emocionais, físicas, sociais, espirituais e comportamentais. Em inglês, três termos distintos costumam ser traduzidos como luto: 1. Bereavement – estado objetivo de perda, decorrente de um vínculo rompido. 2. Grief – resposta emocional e multidimensional à perda. 3. Mourning – expressão pública do luto, mediada por rituais, normas culturais ou práticas espirituais. Em português, luto pode abranger os três sentidos, o que exige atenção à polissemia em contextos clínicos, acadêmicos e culturais. Luto antecipatório: Processo de elaboração emocional e relacional que ocorre antes da morte ou perda efetiva, geralmente diante do diagnóstico de doença ameaçadora à vida ou da percepção de uma perda iminente. Luto complicado: Termo clínico utilizado para descrever uma vivência de luto marcada por sofrimento persistente, desorganização emocional e dificuldade de retomada das atividades da vida com a qualidade anterior após o rompimento de um vínculo significativo. Pode envolver isolamento, somatizações, sentimentos intensos e duradouros, sintomas depressivos, baixa autoestima e maior vulnerabilidade emocional. Diferencia-se do transtorno do luto prolongado por não corresponder necessariamente a uma categoria diagnóstica formal única. Luto não reconhecido: Forma de luto em que a perda não é socialmente validada, dificultando o apoio, os rituais de despedida e a elaboração do sofrimento. Pode ocorrer em perdas estigmatizadas (como suicídio, overdose ou HIV), vínculos invisíveis (como relações extraconjugais ou amizades intensas) ou perdas não humanas (como animais de estimação). Modelo do processo dual do luto: Proposto por Margaret Stroebe e Henk Schut, descreve o luto como um processo dinâmico de oscilação entre dois tipos de enfrentamento: a orientação para a perda (confronto com a ausência e o sofrimento) e a orientação para a restauração (adaptação às mudanças e reorganização da vida). Essa alternância é considerada saudável e necessária à elaboração do luto. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Transtorno de luto prolongado: Transtorno de saúde mental caracterizado por sofrimento intenso, persistente e incapacitante após uma perda, com prejuízo significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas da vida. No DSM-5-TR, possui critérios diagnósticos específicos, incluindo duração mínima e sintomas centrais relacionados à preocupação persistente com a pessoa falecida ou dificuldade de adaptação à perda.
Referências bibliográficas
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Obrigada pelo texto!