Categorias: Fundamentos Autor(a): Aline Cintra, assistente social e paliativista Publicado em: 15/10/2025
Contexto
Os Cuidados Paliativos reconhecem o sofrimento humano em suas múltiplas dimensões: física, psicológica, espiritual e social (para mais sobre esse tema, leia a #PP010 Dor Total). A questão social, objeto central de intervenção do Serviço Social, refere-se às condições de vida dos indivíduos e grupos sociais, marcadas por desigualdades sociais, econômicas, políticas e culturais. O sofrimento da dimensão social se manifesta, sobretudo, por meio das expressões da questão social em suas repercussões subjetivas e concretas decorrentes da pobreza, desemprego, violência, racismo, exclusão e outras formas de vulnerabilidade social. Mais do que um conjunto de problemas, trata-se de um fenômeno histórico ligado à própria dinâmica social, que assume formas diversas e complexas.
Determinantes sociais e sofrimento
Os determinantes sociais da saúde são fatores cruciais na possibilidade de acesso ao tratamento e ao cuidado integral. A insuficiência da rede de proteção social — composta por políticas públicas, programas sociais, saúde, educação, moradia, trabalho e assistência — impacta diretamente a vida das pessoas. Quanto mais frágil essa rede, maior a exclusão, a desigualdade e a marginalização, ampliando o sofrimento na dimensão social-familiar.
Na prática, essa realidade se expressa de múltiplas formas: pacientes que vivem em regiões rurais ou periféricas enfrentam longas e cansativas viagens para receber quimioterapia ou radioterapia, o que aumenta o desgaste físico e emocional, podendo até levar à desistência do tratamento. Soma-se a isso a ausência de transporte público acessível, a falta de saneamento básico que dificulta cuidados simples — como a higiene de feridas e o uso seguro de medicamentos —, a dificuldade de acesso a medicações ou à dieta adequada e a sobrecarga de cuidadores familiares, frequentemente marcada pelo estresse do cuidador.
Em muitos lares, uma filha, esposa ou neta assume o cuidado integral, precisando deixar o emprego e, com isso, reduzir a renda familiar. Esse cenário gera um ciclo de vulnerabilidade: menos recursos para transporte, alimentação e medicamentos, potencializando ainda mais o sofrimento social.
Esses exemplos mostram como os Cuidados Paliativos não podem ser vistos apenas pela perspectiva clínica. Eles exigem sensibilidade e empenho das equipes para articular recursos da comunidade, acionar políticas sociais e oferecer suporte que vá além da saúde, alcançando as condições reais de vida de cada paciente e sua família.
Dignidade e Cuidados Paliativos
O sofrimento social não se limita à ausência de recursos materiais: abrange também a perda de dignidade e visibilidade, configurando processos de exclusão. A dignidade da pessoa humana é princípio constitucional, inscrito na Constituição Federal de 1988 como fundamento do Estado Democrático de Direito.
Segundo Sarlet (2001), “a dignidade da pessoa humana pode ser compreendida como a qualidade intrínseca e distintiva de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa contra todo e qualquer ato degradante e desumano, bem como garantam condições existenciais mínimas para uma vida saudável e participativa na comunidade”.
No campo da saúde, especialmente nos Cuidados Paliativos, esse princípio assume relevância ímpar: orienta as práticas diante de doenças ameaçadoras à vida, de prognóstico limitado, onde o sofrimento é multidimensional. O respeito à autonomia, ao alívio do sofrimento e à integralidade do paciente concretiza o direito à dignidade — tanto no viver quanto no processo de morrer.
Os Cuidados Paliativos, nesse sentido, são expressão legítima do princípio constitucional, ao assegurar que o paciente tenha suas vontades respeitadas, receba assistência humanizada e vivencie todas as etapas do adoecimento e o final da vida com o máximo possível de qualidade, significado e ausência de sofrimento evitável.
Isso se materializa no controle adequado da dor, na possibilidade de permanecer em casa junto à família, no respeito ao testamento vital e na recusa a intervenções fúteis ou desproporcionais. Assim, a dignidade da pessoa humana torna-se eixo orientador no acesso aos Cuidados Paliativos, impedindo que a vida seja reduzida à mera manutenção biológica e garantindo que o morrer seja vivido como etapa legítima da existência, merecedora de cuidado, respeito e amparo.
O Serviço Social, nesse contexto, atua na visibilização das desigualdades sociais, na defesa e acesso a direitos e no fortalecimento da rede de proteção. Reconhecer a dignidade no processo de morrer implica enfrentar as condições sociais que determinam a vida, reafirmando o caráter ético e humanizador dos Cuidados Paliativos.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Investigue a dimensão social em cada avaliação, além dos sintomas físicos.
Articule recursos da comunidade e políticas sociais para além do sistema de saúde.
Valorize e apoie cuidadores familiares, prevenindo estresse do cuidador.
Defenda a dignidade como eixo central das práticas paliativas, reconhecendo os determinantes sociais.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Reconhecer o sofrimento social é abrir espaço para enxergar que cada paciente é mais do que seu diagnóstico. Ele é também história, vínculos, condições de vida e sonhos. Cuidar dessa dimensão exige ampliar o olhar clínico e assumir o compromisso ético de reduzir desigualdades.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio. Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Estresse do cuidador: Nível de sobrecarga multifacetada do cuidador ao cuidar de um familiar e/ou ente querido ao longo do tempo. Também chamado de sobrecarga do cuidador, pode ser mensurado através da escala de Zarit. Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Testamento vital: Tipo de diretiva antecipada de vontade (DAV), que versa sobre os tratamentos e preferências de cuidados relacionados à terminalidade da vida. Na Resolução do Conselho Federal de Medicina Nº 1995/2012, é trazida como sinônimo de DAV.
Referências bibliográficas
Hanks G, Cherny NI, Christakis NA, Fallon M, Kaasa S, Portenoy RK. Oxford Textbook of Palliative Medicine. 6th ed. Oxford: Oxford University Press; 2021.
Sarlet IW. A eficácia dos direitos fundamentais. 8. ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado; 2001.
Werlang BSG, Mendes JMR. Sofrimento social: uma reflexão sobre a clínica em contextos de vulnerabilidade. Psicol Estud. 2013;18(4):657-66.
Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília: Senado Federal; 1988.



