Categorias: Fundamentos, Manejo de fim de vida, Educação para a morte Autor(a): Manuela Lopes, enfermeira paliativista e doula da morte Publicado em: 05/11/2025
Contexto
O termo doula tem origem grega e pode ser traduzido como “mulher cuidadora”. Seu uso na saúde começou no contexto do acompanhamento de gestantes, no pré-natal, parto e pós-parto. A doula da morte é aquela que cuida de pessoas em fim de vida e de suas famílias, caminhando ao lado da equipe de Cuidados Paliativos e oferecendo suporte através do acolhimento do sofrimento e da preparação para a morte. Nesta #PP, discutiremos o papel da doula da morte no Brasil — também conhecida como sentinela ou guardiã do fim da vida — e algumas experiências práticas associadas a essa função.
O Movimento no Brasil e no Mundo
O movimento das doulas da morte surgiu nos anos 2000, a partir de programas voluntários que buscavam oferecer apoio emocional, espiritual e prático a pessoas em fim de vida. Com o tempo, essas iniciativas se expandiram para contextos clínicos e inspiraram o desenvolvimento de formações estruturadas em diferentes países.
Desde 2015, a International End-of-Life Doula Association (INELDA) já formou mais de 5.600 doulas da morte, e a National End-of-Life Doula Alliance (NEDA), nos Estados Unidos, registrou crescimento expressivo no número de profissionais — de 260 membros em 2019 para 1.545 em 2024. A atuação das doulas da morte está hoje mais consolidada em países como Austrália, Canadá, Reino Unido e Estados Unidos.
Como Se Tornar Doula da Morte?
Com a pandemia de COVID-19, o interesse pela formação se ampliou, alcançando também o Brasil, onde a prática vem se fortalecendo, embora ainda sem regulamentação profissional. Apesar da Classificação Brasileira de Ocupação (CBO) descrever doula através do código 322135, refere-se exclusivamente ao profissional que acompanha gestantes, parturientes e puérperas, não mencionando o contexto de fim de vida.
Para se tornar doula da morte, não é preciso formação na área da saúde ou ensino superior. Durante o curso — cuja carga horária e formato variam conforme a instituição —, são ensinados o conceito e os principíos dos Cuidados Paliativos e do cuidado centrado na pessoa, além de práticas integrativas e complementares em saúde (PICS), como meditação e aromaterapia. A formação também desenvolve habilidades de escuta ativa, presença compassiva e uso de rituais, música, arte e culinária como formas de cuidado, além de abordar as transformações físicas e emocionais que ocorrem no processo de morrer.
O Que Faz Uma Doula da Morte: Relato de Experiência
Para ilustrar a atuação de uma doula da morte, compartilho aqui uma vivência que me marcou profundamente. Tive a honra de acompanhar, nesse papel, uma família muito querida quando o irmão mais novo de um grande amigo enfrentava um câncer de intestino. Seus nomes foram trocados para preservar sua identidade.
Júnior tinha 39 anos, era filho da Sra. Rose e do Sr. Heitor, irmão de Paulo e Mariana, marido de Tamires e pai de dois meninos — um de 7 anos e outro de apenas 6 meses.
Tradução do cuidado técnico em cuidado humano: Naquela quarta-feira, recebi a notícia de que Júnior estava “começando a descansar” na UTI. Ao chegar, encontrei Sra. Rose amparada pelos familiares e tomada pelo sofrimento. Ela me disse que já não podia desejar que o filho continuasse vivendo daquele modo e o desespero se intensificou quando a médica informou que “nada mais poderia ser feito”. Expliquei à família que, embora a medicina não oferecesse mais cura, ainda havia muito o que cuidar — que poderíamos ajudá-lo a partir com conforto e dignidade. Em ação conjunta com a equipe da UTI, foram tomadas medidas para aliviar desconfortos, como a suspensão da dieta enteral e o início de morfina, e procurei explicar cada conduta em linguagem simples, garantindo compreensão e segurança.
Apoio emocional e ressignificação do lugar do cuidado: Tamires, inconsolável, sentia-se culpada, como se “todos estivessem desistindo dele”. Disse a ela que sentia muito pelo que estavam passando e reforcei que ela estava, sim, cuidando de Júnior, embora de uma outra forma — que assistir à morte de quem amamos é um ato de coragem.
Promoção do conforto do paciente e da família: Em cada visita, eu o observava com atenção e testemunhava cenas de profundo afeto e cuidado. A doula da morte não substitui a equipe clínica nem a rede familiar — seu papel é acolher, orientar e apoiar, ajudando a família a atravessar os limites impostos pela doença. Júnior permanecia tranquilo, consciente e sem sinais de sofrimento. Abria os olhos suavemente quando era chamado — e quase sempre sorria.
Favorecimento de despedidas simbólicas e presença acolhedora: No sábado, ele pediu para ir para casa. Já mais hipoativo e com períodos de apneia, havia a preocupação de que o controle dos sintomas não fosse possível fora do hospital. Então buscamos humanizar aquele espaço de UTI: pedi que a família trouxesse fotos, que colei nas paredes junto à Mariana. Entre lágrimas e risos, revivemos histórias que o cercaram de afeto. Percebendo a proximidade da morte, perguntei a Mariana se gostaria de se despedir. Ao ouvido do irmão, ela disse que o amava, e ele assentiu. Pouco depois, os pais também se despediram; com um meio sorriso, Sr. Heitor contou que haviam escutado “Harmonia do Samba” juntos. Mais tarde, Sra. Rose, em lágrimas, me disse que “a morte devia ser como um interruptor”. Apenas a abracei — o silêncio também é uma forma de acolhimento, como aprendi na minha formação como doula da morte.
Apoio ao luto e alívio da culpa: Júnior morreu no domingo à tarde, de forma serena. Como dizem os monges budistas, “morremos como vivemos” — e ele partiu em paz. No velório, Sra. Rose me agradeceu por tê-los preparado para aquele momento. Ao pai, que se culpava, lembrei que todas as decisões haviam sido tomadas com amor e com base no presente.
Continuação do vínculo e elaboração simbólica da perda: **Dias depois, voltei para visitá-los e entreguei um presente: sete azulejos com palavras que resumiam o que vi naquela família — amor, luz, amizade, força, união, afeto e coragem. No cartão, escrevi: “Sorrir não é esquecer, sorrir é lembrar.”
Falar sobre a morte ainda em vida é uma necessidade urgente — e um ato profundo de cuidado consigo mesmo e com aqueles que amamos. Encará-la como parte do ciclo natural da existência nos permite ressignificar a finitude, favorecendo escolhas mais conscientes e dignas. O silêncio e a negação apenas intensificam o sofrimento, enquanto o diálogo aberto fortalece vínculos e prepara o coração para a despedida. Reconhecer a morte como inevitável não diminui a vida; ao contrário, amplia seu valor e nos convida a vivê-la com mais presença e sentido.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Reconheça a morte como parte natural da vida, favorecendo o diálogo aberto para reduzir o sofrimento e fortalecer os vínculos familiares.
Aplique os princípios dos Cuidados Paliativos para garantir dignidade, conforto e acolhimento no fim da vida.
Estimule a preparação emocional e espiritual, ajudando pacientes e familiares a lidar com a finitude por meio de gestos de afeto, escuta atenta e presença compassiva.
Integre doulas da morte e outros profissionais de apoio à equipe interdisciplinar, ampliando o cuidado e promovendo uma experiência de morrer mais humana.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 O trabalho da doula da morte revela que, mesmo diante da impossibilidade de cura, ainda há muito a ser feito pelo paciente e sua família. Seu papel vai além do cuidado físico, trazendo acolhimento, dignidade e leveza ao processo de partir. Ela transforma a despedida em um momento de amor, presença e humanidade.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Doula: Pessoa que oferece suporte físico, emocional e informativo durante momentos de transição importantes, como o nascimento ou a morte. Seu papel é acolher, escutar e orientar, complementando — não substituindo — o cuidado do profissional de saúde. A Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) associa o termo apenas à doula que presta cuidados a gestantes e puérperas. Doula da morte: Pessoa que acompanha pessoas em fim de vida e suas famílias, oferecendo apoio emocional, espiritual e prático. Atua em conjunto com os profissionais de saúde e da equipe de Cuidados Paliativos, promovendo conforto, significado e dignidade no fim da vida e no luto. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura, está associado aos seis últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como marcador de tempo, mas de estado de saúde. Morfina: Opioide forte. Em Cuidados Paliativos, amplamente utilizada no controle da dor e da dispneia. Práticas integrativas e complementares em saúde (PICS): Conjunto de abordagens terapêuticas que buscam estimular os mecanismos naturais de prevenção e recuperação da saúde, como meditação, aromaterapia, acupuntura, reiki, musicoterapia, entre outras. Podem ser utilizadas de forma complementar aos tratamentos convencionais para promover bem-estar e aliviar o sofrimento. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
Referências bibliográficas
Rawlings D, Tieman J, Miller-Lewis L, Swetenham K. What role do Death Doulas play in end-of-life care? A systematic review. Health Soc Care Community. 2019;27(3):e82–e94.
Rinpoche S. O livro tibetano do viver e do morrer. 30ª ed. São Paulo: Palas Athena; 2017.
Arantes ACQ. Cuidar até o fim. 1ª ed. Rio de Janeiro: Sextante; 2024.
Tourinho F. E-Pali 1: conceitos e fundamentos. [S.l.]: [s.n.]; 2023.
International End-of-Life Doula Association (INELDA). Training for end-of-life doulas [Internet]. Disponível em: https://www.inelda.org/



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