Categorias: Fundamentos, Comunicação compassiva, Resolução de conflitos Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 26/11/2025
Contexto
Comunicar notícias difíceis ou más notícias é uma competência estruturante na prática clínica que, por décadas, foi tratada como talento, sorte ou “jeito” pessoal. O Protocolo SPIKES, descrito no artigo clássico de Baile e colaboradores em 2000, trouxe um roteiro objetivo, simples e treinável. Trata-se de um mnemônico, no qual cada letra representa uma etapa da conversa clínica, facilitando a memorização e a aplicação prática. É, até hoje, talvez o primeiro contato de estudantes e residentes com uma abordagem estruturada para conversas difíceis. Nesta #PP, revisamos os principais elementos do SPIKES e seus fundamentos.
Setting Up e Perception: preparar-se e entender antes de informar
O Setting Up (Preparação, em português) reforça que conversas difíceis exigem intenção e organização prévias: revisar exames, garantir privacidade, silenciar o celular, reservar o tempo necessário, sentar-se e sinalizar presença. Ambientes ruidosos, interrupções e pressa reduzem compreensão e aumentam sofrimento emocional. Em muitas situações, não será possível alcançar o cenário ideal — mas conhecer esse checklist nos faz buscar o melhor possível dentro das condições reais.
Assim, antes de iniciar, pergunte-se:
Sei tudo que deveria saber sobre o caso?
Estou no local mais privado, silencioso e confortável disponível?
Fiz tudo ao meu alcance para reduzir interrupções (telefone no silencioso, aviso de “não perturbe” na porta)?
É comum que o tempo esteja escasso — mas isso não significa que a conversa precise ser apressada ou improvisada. Se não for possível conduzi-la com o cuidado necessário, considere adiá-la para um momento mais apropriado. Quando isso não for viável, nomeie a limitação de tempo desde o início. Essa transparência ajuda a alinhar expectativas e permite que todos se concentrem no que é mais importante naquele momento.
Em seguida, o Perception (Percepção) traduz a máxima “antes de contar, pergunte”. Avaliar o que o paciente já entendeu, teme ou espera evita ruptura abrupta com a realidade interna dele. Ainda, pode revelar padrões comuns de coping: minimização, omissão de partes difíceis, otimismo irrealista… A pergunta “O que você sabe até agora?” é eficiente, respeitosa e permite calibrar a conversa ao ponto de partida da pessoa.
Aqui, será importante também a forma que você reage a essas informações. Comportamentos como blocking (ato de bloquear, que significa mudar de assunto quando o paciente expressa preocupação) e lecturing (ato de dar aula, representado por monólogos longos e técnicos) reduzem compreensão e intensificam ansiedade. Evitar esses desvios é parte da boa preparação do profissional.
Invitation e Knowledge: descobrir a medida e comunicar com precisão
O terceiro passo — Invitation (Convite) — questiona quanta informação a pessoa deseja receber. Embora muitos pacientes busquem clareza total, outros preferem apenas “o essencial”, especialmente à medida que a doença avança. Respeitar esse limite não é negligência, mas uma intervenção intencional de respeito à autonomia do paciente. Perguntar “Você prefere receber todos os detalhes ou um resumo com foco nos próximos passos?” posiciona o paciente no centro da conversa e reforça que ele tem o direito, mas não o dever, de saber todos os detalhes do seu adoecimento.
Já Knowledge (Informação) corresponde ao momento mais delicado: dar a informação. Aqui, uma estratégia relevante é o método “ask-tell-ask”:
Pergunte o que o paciente entende.
Conte a informação em blocos curtos, claros, sem jargões.
Pergunte novamente se faz sentido e o que ficou entendido.
Essa estrutura reduz sobrecarga cognitiva, favorece retenção e cria espaço para dúvidas. Estudos mostram que a compreensão melhora quando o profissional dá “alertas” como “Eu tenho algo difícil para conversar”, e quando permanece em silêncio por alguns segundos após a má notícia para permitir assimilação.
Importante: o protocolo enfatiza evitar frases que transmitam abandono, como “não há mais nada a fazer”, pois isso apaga possibilidades de cuidado — especialmente nos Cuidados Paliativos, quando há sempre algo a ser feito para aliviar sofrimento.
Emotions e Summary/Strategy: apoiar, resumir e construir os próximos passos
O passo Emotions (Emoções) é, segundo o estudo, o mais difícil para profissionais de saúde (52% relataram maior dificuldade nesta etapa). A proposta é reconhecer a emoção, nomeá-la, confirmar sua origem e responder com empatia genuína. Frases como “Eu não posso imaginar o quanto isso é difícil” ou “Eu também queria que os resultados fossem diferentes” têm função clínica: reduzem isolamento, validam sentimentos e permitem que o paciente avance para as próximas etapas.
Finalmente, Summary/Strategy (Resumo/Estratégia) organiza o plano daqui para frente — o próximo passo, o que é possível e o que será prioridade. É o momento de retomar, de forma breve, o que foi discutido e estabelecer os encaminhamentos concretos. Pacientes que saem da conversa com um plano de cuidados claro tendem a apresentar menos ansiedade e maior sensação de controle.
Essa etapa também inclui checar expectativas, corrigir percepções irreais e integrar a pessoa nas decisões subsequentes. Assim, constrói-se um caminho compartilhado, que faça sentido para quem vive a experiência e ajude a sustentar o cuidado que virá.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Prepare-se intencionalmente: cinco minutos de pausa antes da conversa já mudam o tom, o ritmo e a disponibilidade emocional.
Pergunte antes de informar: comece por “O que você entendeu até agora?” para calibrar expectativas.
Ofereça informação em pequenos blocos: fale, pause, cheque compreensão.
Responda à emoção antes de seguir: sem validar emoção, não se avança para estratégia de cuidado com qualidade.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 O SPIKES é o básico — o “feijão com arroz” — da comunicação de más notícias, funcionando como um checklist, um mapa que organiza a conversa e reduz omissões importantes. Mas nem de longe é suficiente. Comunicação compassiva é uma habilidade paliativa complexa, que exige escuta, presença, autopercepção e treino contínuo. O protocolo orienta o caminho, mas não substitui o trabalho profundo necessário para dominar a arte da Comunicação compassiva.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Ansiedade: Estado afetivo caracterizado por apreensão, tensão e antecipação de perigo, com componentes emocionais, físicos e cognitivos. Pode ser uma resposta adaptativa a situações de estresse, mas torna-se patológica quando é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento cotidiano. Má notícia: Informação que altera a perspectiva de presente e/ou futuro de uma pessoa de maneira negativa. Plano de cuidados: Estratégia através da qual o objetivo do cuidado será alcançado. É sempre individualizado, conforme fase da doença, valores e biografia do paciente. SPIKES: Protocolo de seis etapas criado para estruturar a comunicação de más notícias, inicialmente criado para aplicação no contexto de oncologia. Foi publicado por Baile WF et al. em 2000 e é utilizado mundialmente para a sistematização da comunicação de más notícias em diversos contextos clínicos, sendo cada etapa representada por uma letra: S: Setting up (Preparação), P: Perception (Percepção), I: Invitation (Convite), K: Knowledge (Informação), E: Emotions (Emoções) e S: Strategy and Summary (Estratégia e Resumo).
Referências bibliográficas
Baile WF, Buckman R, Lenzi R, Glober G, Beale EA, Kudelka AP. SPIKES—A six-step protocol for delivering bad news: application to the patient with cancer. The Oncologist. 2000;5(4):302-311.
Back AL, Arnold RM, Baile WF, Tulsky JA, Fryer-Edwards K. Approaching difficult communication tasks in oncology. CA: A Cancer Journal for Clinicians. 2005;55(3):164-177.


