Categorias: Fundamentos, Comunicação compassiva, Manejo de sintomas, Manejo de fim de vida, Educação para a morte Autor(a): Mariana Borges, capelã laica hospitalar e enfermeira Publicado em: 03/12/2025
Contexto
A capelania, no contexto da saúde, é uma prática assistencial voltada ao alívio do sofrimento espiritual e existencial de pessoas acometidas por doenças ameaçadoras à vida. É exercida por capelães capacitados nessa abordagem, que empregam múltiplos recursos para lidar com o sofrimento humano, incluindo referenciais da filosofia, sociologia, antropologia, teologia, artes e cultura, entre outros. Esses profissionais atuam especialmente junto às equipes de Cuidados Paliativos, contribuindo para um cuidado multidimensional e integrador. Nesta #PP, falaremos do papel da capelania laica na abordagem paliativa.
A arte de cuidar do sofrimento humano
Ao reconhecer o cuidado como um processo multidimensional, abrangendo aspectos físicos, psicoemocionais, sociofamiliares e espirituais (para revisão deste conceito, leia a #PP010 Dor total), a espiritualidade se destaca como elemento central no enfrentamento da doença grave e no processo de morrer. Ela não se restringe a práticas religiosas e funciona como um recurso essencial para sustentar esperança, resiliência e sentido de vida. Nesse contexto, cuidar implica mobilizar saberes diversos — sejam ancestrais ou científicos, populares ou técnicos — para responder às necessidades individuais, respeitando seus valores e crenças e mantendo o foco no cuidado centrado na pessoa.
O cuidado espiritual, como resposta ao sofrimento associado ao adoecimento, integra a noção de cuidado integral em saúde e deve ser abordado por profissionais em qualquer cenário assistencial, sendo complementado pelo trabalho de capelães — religiosos ou laicos —, quando demandas religiosas, espirituais ou existenciais mais profundas se fazem presentes.
Espiritualidade e capelania laica
A espiritualidade pode ser entendida como a busca inerente e dinâmica por sentido, propósito e transcendência, bem como pela experiência de conexão consigo mesmo, com os outros, com a natureza e/ou com o sagrado. Essa dimensão manifesta-se de forma intrínseca, relacionando-se com o ambiente, a comunidade e o estilo de vida da pessoa.
Nesse sentido, a capelania laica visa acolher as dores do espírito para além das dores religiosas, abraçar as ressonâncias e contribuir para ressignificações e para o fortalecimento do sentido de vida e de morte, favorecendo a paz. Diferentemente da capelania religiosa, que parte de um referencial confessional específico, a capelania laica atua de maneira não dogmática, acolhendo múltiplas crenças — inclusive a ausência delas — e oferecendo um espaço de sentido sem mediação ritual. Além disso, oferece suporte para que a pessoa reconheça, com maior clareza e serenidade, a realidade de vida e de finitude que está vivendo, ampliando sua capacidade de enfrentamento.
O reconhecimento e o acolhimento do sofrimento espiritual são competências de toda a equipe de Cuidados Paliativos. Cabe a cada profissional identificar sinais de sofrimento existencial e oferecer presença, escuta e apoio inicial. No entanto, diante de situações mais complexas — como angústia espiritual intensa, rupturas profundas de fé ou sofrimento não elaborado — é fundamental encaminhar o paciente para profissionais especializados, como capelães laicos e/ou religiosos. Nessa perspectiva, a equipe interprofissional atua de forma colaborativa: cada membro contribui com sua expertise, mas todos compartilham a responsabilidade de validar e cuidar da dimensão espiritual do sofrimento.
Cultura de cuidado espiritual e Cuidados Paliativos: o papel da capelania laica
No contexto da saúde, a dimensão espiritual permanece pouco reconhecida e raramente explorada pelos profissionais. Em um modelo biomédico que privilegia o tratamento da doença em detrimento do cuidado centrado na pessoa, os desdobramentos do sofrimento espiritual deixam de ser percebidos como prioridade e, portanto, o papel dos capelães torna-se invisibilizado. Contudo, considerando o alívio da dor total, a dimensão espiritual ganha relevância, especialmente quando mobilizada pela vivência de uma doença grave.
Surge, então, uma questão central: o que caracteriza o sofrimento espiritual? Nos Cuidados Paliativos, o sofrimento espiritual e existencial constitui um eixo fundamental da experiência de quem enfrenta uma doença ameaçadora à vida. Ele pode manifestar-se de forma explícita — por meio de questionamentos sobre sentido, propósito ou fé — ou de maneira mais sutil, como sentimentos de vazio, desesperança, culpa ou ruptura de valores. Suas repercussões se estendem às esferas física, psicoemocional, sociofamiliar e espiritual, intensificando a dor total da pessoa adoecida e de sua família.
Nesse cenário, a presença da capelania nas equipes de Cuidados Paliativos configura uma prática essencial para o cuidado integral. Ela possibilita o acolhimento de necessidades existenciais — religiosas ou não religiosas — e contribui para a construção compartilhada de planos terapêuticos. Atuando em sintonia com os demais profissionais, capelães ampliam a integralidade do cuidado ao promoverem o alívio do sofrimento espiritual, e também a preservação da dignidade e do sentido de vida da pessoa adoecida e de seus familiares.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Reconheça a multidimensionalidade do cuidado: integre dimensões física, psicoemocional, sociofamiliar e espiritual, valorizando a espiritualidade como recurso de sentido e esperança — não apenas como prática religiosa específica.
Acolha demandas espirituais e existenciais: esteja atento a dúvidas sobre sentido, propósito, finitude ou crenças. Acione capelães, laicos ou religiosos, sempre que tais demandas ultrapassarem o escopo clínico habitual.
Utilize a capelania laica nos casos mais complexos: convide capelães laicos quando houver intenso sofrimento espiritual, angústia existencial, ruptura de valores, perda de sentido ou sofrimento não elaborado.
Promova uma cultura de cuidado espiritual: identifique manifestações sutis ou explícitas de sofrimento espiritual e trabalhe de forma articulada com a equipe interprofissional, preservando dignidade, valores e sentido de vida.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Expanda a capacidade de olhar para além da clínica materialista e integre uma perspectiva vitalista, reconhecendo a multidimensionalidade da pessoa que recebe cuidado. Embora o controle dos sintomas físicos seja essencial, é igualmente necessário aliviar as dores imateriais que afetam o espírito, valorizando as dimensões subjetivas e existenciais do sofrimento espiritual. Dessa forma, o cuidado se torna verdadeiramente integral, acolhendo o que é visível e o que apenas se sente.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Capelania: Serviço de cuidado espiritual oferecido em instituições, que acolhe crenças, valores e necessidades de sentido de pacientes e famílias. Em Cuidados Paliativos, contribui para a busca de significado, expressão da espiritualidade e realização de rituais, com respeito à autonomia e à diversidade. Capelania laica: Modalidade de cuidado espiritual oferecida por profissionais ou voluntários não vinculados a tradições religiosas específicas. Atua de forma não dogmática, acolhendo múltiplas crenças — inclusive a ausência delas — e oferecendo um espaço de escuta, ressignificação e apoio existencial. Capelania religiosa: Modalidade de cuidado espiritual vinculada a uma tradição religiosa específica. É oferecida por ministros, sacerdotes ou representantes religiosos, e inclui escuta, aconselhamento, orações, sacramentos ou rituais de acordo com a fé professada pelo paciente e/ou sua família. Capelão: Profissional ou voluntário que atua na capelania, oferecendo suporte espiritual a pacientes, famílias e equipes. Seu papel inclui escuta qualificada, presença atenta e facilitação de práticas ou rituais significativos e em alinhamento ao plano de cuidados e ao objetivo do cuidado. Cuidado centrado na pessoa: Abordagem do cuidado em saúde que coloca a pessoa - e não apenas sua condição clínica - no centro do processo de cuidado. Propõe que o serviço de saúde se ajuste às necessidades, valores e preferências do paciente, promovendo uma parceria ativa entre equipe, paciente, familiares e cuidadores. Essa abordagem busca garantir que todos sejam respeitados, bem informados, engajados nas decisões, apoiados e tratados com dignidade, compaixão e empatia. Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Dor total: Conceito criado por Dame Cicely Saunders na década de 1960, que propõe que a dor é multidimensional, não apenas física. Esse conceito apresenta o sofrimento como um fenômeno abrangente, envolvendo dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais, que estão interligadas e se influenciam mutuamente. Atualmente, esse entendimento pode ser ampliado para o termo sofrimento total, aplicando-se a outros tipos de sofrimento que, anteriormente, eram considerados exclusivamente físicos, como a dispneia e a náusea. Espiritualidade: Busca pessoal por sentido, propósito e conexão com o sagrado ou o transcendente. Pode ou não envolver práticas religiosas, e reflete a relação da pessoa com aquilo que é essencial e dá sentido à vida. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
Referências bibliográficas
Referências bibliográficas
Melo, OJM. Teologia do cuidado: ensaios sobre capelania hospitalar no contexto da diversidade. Ed. Metanoia, 2023.
Puchalski CM, Vitillo R, Hull SK, Reller N. Improving the spiritual dimension of whole person care: reaching national and international consensus. J Palliat Med. 2014;17(6):642-56.


