Categorias: Comunicação compassiva, Manejo de sintomas, Manejo de fim de vida, Educação para a morte Autor(a): Mariana Sarkis, psicóloga e paliativista Publicado em: 28/01/2026
Contexto
O processo de adoecimento frequentemente envolve perdas que afetam não apenas o paciente, mas também seus familiares, compreendidos como unidade de cuidado. Diante de doenças ameaçadoras à vida, sintomas difíceis de manejar e tratamentos complexos, é comum a vivência de medo, insegurança e ruptura da previsibilidade da vida cotidiana. Em contextos marcados por incerteza e ausência de garantias, torna-se relevante refletir sobre o papel da equipe de saúde na construção de confiança e segurança ao longo do cuidado. Em Cuidados Paliativos, essa dimensão relacional pode ser compreendida à luz da Teoria do Apego, descrita por John Bowlby, que fundamenta a noção de segurança através do estabelecimento de vínculos ao longo da vida. É a partir desse referencial que discutiremos o círculo de segurança nesta #PP.
Equipe de saúde como base segura e porto seguro
Lutos associados ao adoecimento, comunicação de notícias difíceis, discussão sobre objetivo do cuidado e do tratamento e o acompanhamento do fim de vida são situações corriqueiras para os profissionais de saúde que atuam em Cuidados Paliativos, mas não necessariamente para pacientes e familiares. Para estes, é comum a vivência de medo e a sensação de que seus recursos internos não são suficientes para enfrentar a situação.
Nesse sentido, a equipe de saúde pode ser compreendida como uma base segura, ao incentivar vivências exploratórias, reorganizações e decisões possíveis nos períodos de maior estabilidade, e como um porto seguro nos momentos de maior vulnerabilidade, como internações, agravamentos clínicos e crises. Responder às demandas do paciente e de sua família de forma consistente e sensível contribui para um reasseguramento psicológico, permitindo que pacientes e familiares se sintam menos ameaçados e mais capazes de lidar com as dificuldades impostas pelo adoecimento.
Círculo de segurança
O Círculo de Segurança é um modelo derivado da Teoria do Apego, desenvolvido por Glen Cooper, Kent Hoffman, Bert Powell e Robert Marvin, inicialmente no campo das relações parentais, mas com ampla aplicabilidade clínica também. Esse modelo oferece uma representação da dinâmica relacional que pode ser observada no contexto dos Cuidados Paliativos, durante o acompanhamento da unidade de cuidado.
Ora, pacientes e familiares podem buscar maior autonomia e necessidade de exploração — indo para o mundo e compreendendo a equipe como base segura —, ora podem necessitar de maior proteção, compreendendo a equipe como porto seguro.
O reconhecimento dessas movimentações ao longo do adoecimento pode orientar os profissionais a calibrar seus cuidados de acordo com as necessidades de cada momento, evitando respostas rígidas ou padronizadas. Mesmo em contextos de fragilidade, pacientes e familiares podem dispor de recursos internos e externos para lidar com as situações, desde que se sintam suficientemente amparados.

De base segura à prevenção de complicações no processo de luto
A atuação da equipe de saúde como base segura e porto seguro ao longo do adoecimento pode constituir um fator de proteção para luto complicado em Cuidados Paliativos. A forma como pacientes e familiares são acompanhados diante das perdas progressivas, das incertezas e das ameaças à previsibilidade da vida pode influenciar diretamente a maneira como essa perda será elaborada após a morte. Isso se dá porque, quando se fala sobre fatores de risco e proteção para luto complicado, deve-se levar em consideração, principalmente, o que o indivíduo narra para si mesmo sobre determinada situação.
Quando a equipe oferece presença consistente, comunicação clara, disponibilidade emocional e respeito aos limites do paciente e de sua família, cria-se um ambiente relacional que favorece a elaboração simbólica das perdas, a expressão emocional e a construção de sentido. Assim, a prevenção do luto complicado não se inicia no período pós-óbito, mas se constrói no cotidiano do cuidado, a partir de vínculos suficientemente seguros e que sustentam uma adaptação mais saudável à perda.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Invista em comportamentos que transmitam previsibilidade e disponibilidade, como escuta acolhedora, atenção às necessidades e comunicação clara, honesta e acessível.
Observe se pacientes e familiares se encontram em um movimento de maior autonomia ou de maior necessidade de proteção, ajustando o cuidado a cada momento.
Respeite os limites de quem tem maior dificuldade em ocupar o lugar de quem recebe cuidado, reconhecendo que isso pode estar relacionado a experiências prévias de vínculo.
Mantenha constância nas atitudes da equipe, especialmente quando o vínculo não se estabelece de forma imediata.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Em situações de adoecimento, compreender o significado da doença e das perdas associadas para cada pessoa é fundamental. Trata-se de uma vivência subjetiva e individual, atravessada por diferentes experiências de (in)segurança. O estabelecimento de vínculo com pacientes e familiares, assim como a atenção ao que pode fazê-los sentir-se mais seguros, constitui uma ferramenta clínica potente e frequentemente subestimada nos Cuidados Paliativos.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio.
Círculo de segurança: Modelo relacional derivado da Teoria do Apego que descreve o movimento dinâmico entre exploração e busca por proteção diante de situações percebidas como seguras ou ameaçadoras.
Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores.
Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente em literatura.
Luto: Vivência natural diante de uma perda de um vínculo significativo, seja ou não por morte. É uma resposta multidimensional, com manifestações emocionais, físicas, sociais, espirituais e comportamentais. Em inglês, três termos distintos costumam ser traduzidos como luto: 1. Bereavement – estado objetivo de perda, decorrente de um vínculo rompido. 2. Grief – resposta emocional e multidimensional à perda. 3. Mourning – expressão pública do luto, mediada por rituais, normas culturais ou práticas espirituais. Em português, luto pode abranger os três sentidos, o que exige atenção à polissemia em contextos clínicos, acadêmicos e culturais.
Luto complicado: Termo clínico utilizado para descrever uma vivência de luto marcada por sofrimento persistente, desorganização emocional e dificuldade de retomada das atividades da vida com a qualidade anterior após o rompimento de um vínculo significativo. Pode envolver isolamento, somatizações, sentimentos intensos e duradouros, sintomas depressivos, baixa autoestima e maior vulnerabilidade emocional. Diferencia-se do transtorno do luto prolongado por não corresponder necessariamente a uma categoria diagnóstica formal única.
Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte".
Teoria do Apego: Teoria psicológica desenvolvida por John Bowlby que descreve como os vínculos afetivos estabelecidos ao longo da vida influenciam a forma como os indivíduos lidam com ameaça, separação, perda e necessidade de cuidado. A teoria propõe que a busca por segurança relacional é uma necessidade humana básica e persistente, sendo reativada em situações de vulnerabilidade, como o adoecimento grave, o sofrimento e o fim de vida.Referências bibliográficas
Braz MS, Franco MHP. Profissionais paliativistas e suas contribuições na prevenção de luto complicado. Psicologia: Ciência e Profissão. 2017;37:90-105.
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Casellato G. Luto não reconhecido: o fracasso da empatia nos tempos modernos. In: Casellato G, organizadora. O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. São Paulo: Summus; 2015. p. 10-15.
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Neimeyer RA, Jordan JR. Disenfranchisement as empathic failure: grief therapy and the co-construction of meaning. In: Doka KJ, editor. Disenfranchised grief: new directions, challenges and strategies for practice. Illinois: Research Press; 2002. p. 95-11.


