Categorias: Fundamentos, Avaliação prognóstica, Comunicação compassiva, Manejo de sintomas, Tomada de decisão, Manejo de fim de vida, Educação para a morte Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 04/02/2026
Contexto
Compreender os sinais clínicos que indicam que o processo de morrer já se iniciou é fundamental para alinhar o objetivo do cuidado à priorização do conforto, mas Rreconhecer quando se inicia a fase ativa de morte ainda é um desafio na prática clínica. A dificuldade em nomear esse momento pode levar tanto à manutenção de intervenções inadequadas quanto ao adiamento de conversas essenciais com pacientes e familiares, o que contribui para sofrimento evitável, comunicação ambígua e maior insegurança para a família, especialmente quando a morte ocorre de forma não antecipada. Diante desse cenário, esta #PP discute a identificação e a abordagem da fase ativa de morte.
Reconhecer a fase ativa de morte: quando o processo de morrer já começou
A fase ativa de morte, também chamada de processo ativo de morte, corresponde ao último período do processo de morrer, situado nas últimas horas ou dias de vida. Trata-se de uma fase marcada por declínio fisiológico irreversível — isto é, mesmo a instituição de suporte orgânico artificial não é capaz de impedir a evolução para o óbito.
É fundamental distinguir a fase ativa de morte do fim de vida — conceito mais amplo, geralmente relacionado aos últimos meses de vida — bem como de uma piora clínica potencialmente reversível, ainda que de forma parcial. Essa diferenciação é essencial para evitar interpretações equivocadas e intervenções inadequadas.
O reconhecimento da fase ativa de morte deve ser um ato clínico intencional, e não apenas uma impressão subjetiva. Sua identificação permite ajustar o objetivo do cuidado, prevenir intervenções fúteis, reduzir sofrimento evitável e acolher o luto antecipatório da família, contribuindo também para a prevenção do luto complicado.
O diagnóstico da fase ativa de morte não se baseia em um sinal isolado, mas na presença de um conjunto de sinais clínicos de alta especificidade. Assim, a ausência desses sinais não exclui a proximidade da morte, enquanto sua presença representa alta probabilidade de morte em até 72 horas. Embora a fisiologia do morrer apresente semelhanças entre diferentes doenças, é importante destacar que a maior parte dos estudos observacionais disponíveis foi realizada com pacientes oncológicos, o que implica maior incerteza diagnóstica nas doenças não oncológicas.
O que o corpo mostra: sinais, sintomas e fenômenos da fase ativa de morte
A fase ativa de morte se expressa por um conjunto de alterações clínicas progressivas, que refletem a falência de múltiplos sistemas orgânicos. Esses sinais costumam surgir de forma combinada e devem ser interpretados em conjunto, à luz da trajetória clínica do paciente. Entre eles, observa-se a redução progressiva — e, por vezes, a cessação — da ingesta oral, decorrente da diminuição do nível de consciência, da perda do reflexo de deglutição e da redução da demanda metabólica, achado esperado e fisiológico nessa fase. Alguns sinais clínicos apresentam alta especificidade, surgindo geralmente nas últimas horas ou poucos dias de vida. Quando presentes, indicam fortemente que o processo de morrer já se iniciou, ainda que sua ausência não exclua a proximidade do óbito.
Entre os achados neurológicos, observa-se diminuição acentuada do nível de consciência, com redução progressiva da resposta a estímulos, além de pupilas pouco reativas e, em alguns casos, incapacidade de fechar os olhos, reflexo do comprometimento neurológico global característico dessa fase. Do ponto de vista circulatório e periférico, chama atenção a ausência de pulso radial e a cianose periférica, achados que traduzem a falência circulatória progressiva e a redistribuição do fluxo sanguíneo para órgãos vitais. A redução importante do débito urinário, evoluindo para oligúria ou anúria, também é um sinal relevante e indica falência funcional renal no contexto do morrer.
As alterações respiratórias ocupam lugar central no reconhecimento da fase ativa de morte. A respiração pode tornar-se irregular, com períodos de apneia, assumindo o padrão de respiração de Cheyne–Stokes. Entre todos os sinais descritos, destaca-se a respiração com movimento mandibular, considerada um dos achados clínicos de maior especificidade para morte iminente. Esse padrão ocorre quando a musculatura respiratória já não consegue sustentar o esforço ventilatório, levando ao movimento involuntário da mandíbula a cada incursão respiratória. Sua presença costuma indicar que o óbito ocorrerá em curto intervalo de tempo, frequentemente nas próximas horas, e deve orientar uma conduta exclusivamente centrada no conforto, sem tentativas de correção do padrão respiratório. Nessa fase, pode surgir também a sororoca (ou estertor da morte), relacionada ao acúmulo de secreções por perda dos reflexos de deglutição e tosse, geralmente sem causar sofrimento ao paciente, embora frequentemente angustie familiares. O reconhecimento desses sinais não tem como objetivo prever o momento exato da morte, mas situar a equipe e a família no tempo clínico que se impõe, permitindo alinhar decisões e atitudes a uma fase em que o cuidado se volta integralmente ao conforto, à presença e à preparação para a despedida.
Cuidar quando a morte é iminente: manejo, comunicação e ética do não abandono
Uma vez identificada a fase ativa de morte, o objetivo do cuidado passa a ser exclusivamente o conforto do paciente. Nesse momento, intervenções diagnósticas ou terapêuticas que não tragam benefício direto devem ser suspensas, evitando procedimentos invasivos, monitorizações excessivas e medidas que possam aumentar o sofrimento.
O manejo clínico deve ser antecipatório, priorizando o controle de sintomas como dor, dispneia, ansiedade e delirium. Alguns sintomas específicos podem surgir nesse período, como febre, crises convulsivas, sororoca e mioclonias. Também devem ser intensificados os cuidados com a pele, prevenindo lesões por pressão, e com a cavidade oral, mantendo hidratação e higiene adequadas. As condutas devem ser sempre individualizadas e ajustadas à via de administração disponível e, em situações de sintomas refratários, a sedação paliativa deve ser considerada (para mais sobre esse tema essencial, leia a #PP051 Sedação paliativa).
A desprescrição merece atenção especial. Embora deva ser iniciada ainda no fim de vida, é na fase ativa de morte que a revisão da prescrição precisa ser ainda mais criteriosa e intencional. Medicamentos voltados à prevenção de desfechos de longo prazo, à modificação da doença ou à manutenção de parâmetros laboratoriais deixam de trazer benefício clínico e podem aumentar a carga de intervenções, efeitos adversos e desconforto. A desprescrição, nesse contexto, não representa omissão de cuidado, mas adequação terapêutica ao objetivo do cuidado vigente, priorizando o conforto do paciente.
A comunicação é parte central do cuidado na fase ativa de morte. Evitar eufemismos e nomear, com sensibilidade, que o paciente está morrendo permite reduzir incertezas, alinhar expectativas e favorecer o preparo emocional da família. Explicar o que pode acontecer nas horas ou dias seguintes — incluindo alterações respiratórias, redução da consciência e diminuição da ingestão — ajuda a prevenir medo e interpretações equivocadas.
Cuidar na fase ativa de morte também significa não abandonar. Mesmo quando não há mais medidas modificadoras de desfecho, a presença contínua da equipe, o alívio de sintomas, o respeito à dignidade do paciente e o suporte à família permanecem como elementos centrais do cuidado. Reconhecer a morte como parte do processo assistencial é o que permite que ela aconteça com menor carga de intervenções desnecessárias e maior presença.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Observe tendências, não eventos isolados: a identificação da fase ativa de morte depende do conjunto e da progressão dos sinais clínicos, mais do que de um achado único.
Reavalie o plano terapêutico à luz do objetivo do cuidado: diante do reconhecimento dessa fase, revise intervenções em curso e suspenda aquelas que não contribuem para conforto ou alívio do sofrimento.
Antecipe conversas essenciais com a família: nomear a situação de forma clara e compassiva reduz incertezas, evita falsas expectativas e favorece decisões alinhadas ao cuidados de fim da vida.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Reconhecer a fase ativa de morte é assumir responsabilidade pelo cuidado certo no momento certo. Quando sinais de alta especificidade estão presentes, insistir em intervenções invasivas costuma aumentar o sofrimento sem modificar o desfecho. Nesses casos, a decisão mais técnica — e mais humana — é mudar o foco: aliviar sintomas, sustentar a presença e comunicar com clareza.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Ansiedade: Estado afetivo caracterizado por apreensão, tensão e antecipação de perigo, com componentes emocionais, físicos e cognitivos. Pode ser uma resposta adaptativa a situações de estresse, mas torna-se patológica quando é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento cotidiano. Anúria: Ausência ou baixa produção de urina, geralmente definida como débito urinário inferior a 50-100 mL em 24 horas. Cuidados de fim da vida: Cuidados ofertados a pacientes em terminalidade com o propósito de assegurar qualidade de vida até os últimos dias e proporcionar uma morte digna e sem sofrimento. Fazem parte dos Cuidados Paliativos e, por isso, possuem os mesmos princípios, porém não são sinônimos. Delirium: Distúrbio agudo, transitório e geralmente reversível, caracterizado pela alteração flutuante da atenção, da cognição e do nível de consciência. Geralmente, secundário à doença orgânica, representando uma disfunção neurológica associada. Desprescrição: Processo sistemático de retirada de medicamentos desnecessários ou potencialmente prejudiciais em uso por pacientes portadores de doença ameaçadora à vida à medida que a expectativa de vida se reduz. Dispneia: Sensação subjetiva de dificuldade ou desconforto para respirar, com intensidade variável. Resulta da interação de fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais, podendo desencadear respostas físicas e emocionais. Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Fase ativa de morte: Fase em que o processo de morte se iniciou, com alterações fisiológicas que, de forma irreversível, culminarão com o óbito. Tem duração de horas a dias. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente em literatura. Luto antecipatório: Processo de elaboração emocional e relacional que ocorre antes da morte ou perda efetiva, geralmente diante do diagnóstico de doença ameaçadora à vida ou da percepção de uma perda iminente. Luto complicado: Termo clínico utilizado para descrever uma vivência de luto marcada por sofrimento persistente, desorganização emocional e dificuldade de retomada das atividades da vida com a qualidade anterior após o rompimento de um vínculo significativo. Pode envolver isolamento, somatizações, sentimentos intensos e duradouros, sintomas depressivos, baixa autoestima e maior vulnerabilidade emocional. Diferencia-se do transtorno do luto prolongado por não corresponder necessariamente a uma categoria diagnóstica formal única. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Oligúria: Redução do volume urinário, habitualmente definida como débito urinário inferior a 400-500 mL em 24 horas em adultos. Respiração de Cheyne–Stokes: Padrão respiratório com ciclos de respiração progressivamente mais profunda, seguidos por respirações cada vez mais superficiais e pausas de apneia. Respiração com movimento mandibular: Padrão respiratório caracterizado por movimentos rítmicos da mandíbula, com mínima ou ausente expansão torácica. Decorre da falência da musculatura respiratória e da perda do controle neurológico da respiração, com recrutamento de músculos da face e orofaringe. É um sinal de alta especificidade para proximidade do óbito, observado na fase ativa de morte. Sedação paliativa: Redução intencional e monitorada do nível de consciência de paciente com doença ameaçadora à vida em vigência de sintoma refratário, seja ele físico, psicoemocional ou existencial. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Sororoca: Ruído respiratório característico do fim de vida, causado pelo acúmulo de secreções nas vias aéreas superiores em pacientes com reflexo de deglutição ou tosse comprometido. Produz um som semelhante a um ronco úmido, audível durante a inspiração ou expiração. Embora muitas vezes angustiante para familiares, não costuma estar associado a sofrimento para o paciente.
Referências bibliográficas
Simões C, Carneiro R, CardosoTeixeira A. High specificity clinical signs of impending death: A scoping review. Int J Nurs Stud. 2025;164:105015. doi:10.1016/j.ijnurstu.2025.105015
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Cherny NI, Fallon M, Kaasa S, Portenoy RK, Currow DC, eds. Oxford Textbook of Palliative Medicine. 6th ed. Oxford: Oxford University Press; 2020.


