Categorias: Fundamentos, Comunicação compassiva, Resolução de conflitos, Tomada de decisão Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 18/02/2026
Contexto
Em Cuidados Paliativos, comunicar não é apenas transmitir informações — é sustentar presença diante do sofrimento. Em conversas sobre diagnóstico, prognóstico, redefinição de objetivo do cuidado ou transições no fim de vida, emoções intensas emergem. Ignorá-las ou tentar neutralizá-las rapidamente costuma gerar mais distanciamento do que alívio, uma vez que o que desorganiza não é apenas a informação: é a emoção que a acompanha.
Entre as habilidades fundamentais da comunicação clínica está a capacidade de reconhecer, acolher e sustentar emoções. O acrônimo NURSE ocupa lugar central como ferramenta estruturada para responder às emoções do paciente com compaixão e intenção. Mais do que uma técnica, trata-se de uma postura relacional que sustenta vínculo, reduz isolamento emocional e qualifica decisões. Nesta #PP, aprofundaremos o estudo desta ferramenta.
O que é o NURSE (e por que ele importa)
O NURSE é um acrônimo utilizado no ensino da comunicação clínica para estruturar respostas compassivas diante de emoções difíceis. Foi descrito no contexto dos estudos sobre comunicação em Oncologia e, posteriormente, incorporado a diferentes modelos de comunicação em Cuidados Paliativos.
Ele organiza, de forma prática e treinável, cinco movimentos comunicacionais que ajudam o profissional a reconhecer e validar emoções antes de avançar para informações técnicas ou decisões:
N – Naming (Nomear)
U – Understanding (Demonstrar compreensão)
R – Respecting (Respeitar/Reconhecer)
S – Supporting (Oferecer apoio)
E – Exploring (Explorar)
Diferentemente de muitos protocolos que estruturam etapas da conversa ou organizam a transmissão de informações, o NURSE centra-se nas emoções — frequentemente negligenciadas na prática clínica. Ele nos lembra que decisões difíceis raramente são apenas racionais: elas atravessam medo, culpa, ambivalência, solidão e insegurança. Ignorar essas emoções compromete a qualidade da comunicação e, muitas vezes, a própria tomada de decisão.
O NURSE permite respostas empáticas que validam emoções sem julgamento e sem oferecer reasseguramento prematuro. O objetivo não é “animar” o paciente, mas reconhecer o sofrimento como legítimo e digno de cuidado.
Seu uso tem valor em toda a trajetória de adoecimento, especialmente em cenários de fim de vida ou redefinição de objetivo do cuidado — como na priorização de conforto —, tornando-se central para decisões alinhadas a valores.
N de Nomear: dar nome ao que está no ar
Muitas vezes a emoção já está explícita. Outras vezes, aparece em silêncios, microexpressões ou frases incompletas (para mais sobre o tema, leia a #PP016 Comunicação não verbal). Nomear significa colocar em palavras, de forma sugestiva ao interlocutor, o que está sendo percebido:
“Parece que isso está sendo muito assustador para você.”
“Eu me pergunto se há muita frustração nisso tudo?”
Importante: nomear não é diagnosticar emoção. É oferecer uma hipótese, permitindo que o paciente confirme, negue ou refine. Ao nomear, mostramos sintonia — e abrimos espaço para aprofundar.
Aqui, há a possibilidade de acerto mesmo no erro. Se a emoção nomeada não for exatamente a vivenciada pelo outro, abre-se a oportunidade de ajuste: o paciente ou familiar pode corrigir, especificar ou ampliar o que realmente está acontecendo em seu mundo interno. Esse refinamento não enfraquece a comunicação — ao contrário, torna-a mais alinhada e mais autêntica.
U, R e S: compreender, respeitar e sustentar
Demonstrar compreensão envolve validar a lógica interna da emoção:
“Faz sentido que você se sinta assim diante de tantas incertezas.”
Respeitar inclui reconhecer esforço, valores e modos de enfrentamento:
“Eu admiro como você tem cuidado da sua família mesmo nesse contexto.”
Oferecer apoio é afirmar presença e compromisso — antídotos contra o medo de abandono, que pode ocorrer durante o processo de adoecimento:
“Eu estarei com você ao longo desse processo.”
Essas frases parecem simples, mas têm impacto profundo na experiência de cuidado.
A ideia não é utilizar todas as estratégias de uma vez. O tom da conversa e a intensidade da emoção sinalizam qual é a demanda do outro naquele momento. Novamente, o NURSE não é um checklist, mas um repertório de possibilidades para que a vivência do paciente seja reconhecida, validada e acolhida com intencionalidade clínica.
O “E” de Explorar: uma ferramenta dentro da ferramenta
Explorar é aprofundar a emoção já reconhecida:
“O que tem sido mais difícil para você?”
Aqui entra algo poderoso: a solicitação “conte-me mais” (tell me more) se torna, literalmente, uma ferramenta dentro da ferramenta, utilizada como estratégia intencional de aprofundamento.
Gosto de pensar nessa etapa como uma caminhada à beira da praia: quando perguntamos “o que mais?”, é como caminhar ao longo da areia, deixando que novos assuntos apareçam — trabalho, família, sintomas, preocupações práticas. Vamos seguindo pela superfície, conhecendo o terreno e permitindo que diferentes temas surjam naturalmente.
Mas quando dizemos “me fale mais sobre isso”, algo muda. É como escolher um ponto específico da paisagem — uma marca diferente na areia, uma onda que se destaca — e decidir caminhar na direção do mar. Vamos mais fundo. A conversa deixa de percorrer vários assuntos e passa a mergulhar em um tema, uma emoção relevante.
“Você falou em medo… medo de quê exatamente?”
“Quando mencionou cansaço, o que isso significa para você?”
Nesse movimento, não estamos apenas coletando informações. Estamos aprofundando sentido. E é por meio desse aprofundamento que podemos diferenciar medo de dor, medo de abandono, medo de perda de controle, assim como acessar valores, prioridades e significados.
Explorar, portanto, não é prolongar sofrimento. É evitar decisões técnicas baseadas em interpretações superficiais. É sair da beira da praia e, com segurança, caminhar um pouco mais em direção ao mar — junto com o paciente.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Acolha as emoções antes de seguir com a comunicação: caso elas não sejam acolhidas, é possível que o restante da informação não seja absorvido e que percamos a chance de conhecer melhor o paciente e seu valores.
Use pelo menos um elemento do NURSE antes de propor soluções ou discutir condutas. Muitas vezes, o que parece ser uma discordância racional é, na verdade, uma emoção não reconhecida. Quando a emoção é nomeada e validada, a conversa se torna mais clara e a decisão mais consistente.
Faça pausas intencionais. Parte do acolhimento da emoção é dar tempo para que ela seja elaborada no mundo interno de quem a sente.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 A tentação mais comum é responder à emoção com solução técnica. Mas emoção não se acolhe com protocolo, mas sim com presença. O NURSE não prolonga a consulta. Ele evita decisões desalinhadas, reduz ruído comunicacional e fortalece vínculo.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Acrônimo NURSE: Ferramenta estruturada para apoiar a comunicação verbal diante das emoções do paciente, especialmente em conversas sensíveis. Descrita por Anthony L. Back e colaboradores, cada letra do acrônimo representa uma estratégia específica para reconhecer, validar e aprofundar a experiência emocional expressa: N: Name (Nomear) U: Understand (Compreender) R: Respect (Respeitar) S: Support (Apoiar) E: Explore (Explorar) Compaixão: Atitude de sensibilidade ativa diante do sofrimento do outro, que impulsiona à ação concreta de cuidado e solidariedade. Vai além da empatia, pois envolve envolvimento afetivo e intenção de aliviar o sofrimento. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente em literatura. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Reasseguramento prematuro: Resposta tranquilizadora oferecida antes da exploração e compreensão suficientes da preocupação ou emoção expressa pelo paciente. Ocorre quando o profissional tenta aliviar rapidamente o desconforto — muitas vezes o próprio — com frases como “vai dar tudo certo” ou “não se preocupe com isso”, sem antes validar, compreender e aprofundar a experiência relatada. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
Referências bibliográficas
Back AL, Arnold RM, Baile WF, Tulsky JA, Fryer-Edwards K. Approaching difficult communication tasks in oncology. CA Cancer J Clin. 2005;55(3):164–177.
Forte DN, Stoltenberg M, da Costa Ribeiro SC, de Almeida IMO, Jackson V, Daubman BR. The Hierarchy of Communication Needs: A Novel Communication Strategy for High Mistrust Settings Developed in a Brazilian COVID-ICU. Palliat Med Rep. 2024 Nov;5(1):86–93.
Martins J. Comunicação não verbal. Pílulas Paliativas [Internet]. 2025 Abr 23. Disponível em: https://pilulaspaliativas.substack.com/p/pilula-paliativa-016



