Categorias: Manejo de sintomas, Tomada de decisão, Manejo de fim de vida, Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 04/03/2026
Contexto
A obstrução maligna da saída gástrica (OMSG) é a interrupção mecânica do esvaziamento do estômago, geralmente ao nível do piloro ou do duodeno proximal, causada por infiltração tumoral direta ou compressão extrínseca, especialmente em neoplasias pancreáticas e gástricas avançadas. Embora frequentemente confundida com a obstrução intestinal maligna (OIM), trata-se de uma entidade distinta, com fisiopatologia e possibilidades terapêuticas próprias, já que costuma envolver um único ponto de bloqueio.
Esta #PP propõe revisar a abordagem da OMSG, entendendo que discutir sua condução é também discutir o significado da alimentação, da autonomia e do cuidado em contexto de doença ameaçadora à vida, especialmente nas fases mais avançadas.
Quem acomete e como se manifesta
A OMSG é mais frequentemente observada em neoplasias pancreáticas e gástricas avançadas, especialmente nos tumores de cabeça de pâncreas, podendo ocorrer em cerca de 15–20% desses pacientes ao longo da evolução da doença. Trata-se, portanto, de uma complicação relativamente comum no cenário oncológico avançado, muitas vezes coexistindo com outras manifestações de progressão tumoral.
Seu quadro clínico é marcado por náuseas persistentes, vômitos alimentares precoces, sensação de plenitude pós-prandial e incapacidade de manter ingestão oral adequada. A retenção gástrica progressiva leva à perda ponderal acelerada, desidratação e declínio funcional, por vezes em curto intervalo de tempo. Para muitos pacientes, a impossibilidade de se alimentar representa não apenas desconforto físico, mas também perda simbólica de autonomia e convivência.
A OMSG raramente ocorre em fase inicial da doença ameaçadora à vida, mas sim quando a sobrevida é limitada a meses. Nesse cenário, estimar o prognóstico torna-se determinante para a definição da conduta terapêutica: intervenções de alívio rápido podem ser preferíveis quando o tempo é curto, enquanto estratégias com maior durabilidade podem fazer sentido quando há expectativa de vida um pouco mais prolongada. Assim, na OMSG, decidir o que fazer começa por estimar quanto tempo temos — e o que importa dentro desse tempo. É a partir dessa leitura prognóstica, alinhada ao objetivo do cuidado, que a conduta terapêutica ganha sentido.
Manejo clínico através da abordagem interdisciplinar
Na OMSG, o manejo clínico deve começar por uma abordagem interdisciplinar. Gastroenterologia, oncologia, nutrição, enfermagem e equipe de Cuidados Paliativos precisam atuar de forma integrada, reconhecendo que as decisões não são apenas técnicas, mas também prognósticas e relacionais. O alinhamento com o objetivo do cuidado é essencial para definir se o controle clínico dos sintomas será uma ponte para intervenção ou a estratégia principal de cuidado.
Medidas não farmacológicas desempenham papel relevante desde o início. Fracionamento alimentar, preferência por dieta pastosa ou líquida, cabeceira elevada após refeições e hidratação criteriosa podem reduzir desconforto enquanto se avalia a possibilidade de intervenção definitiva. Em alguns casos, essas estratégias já proporcionam alívio significativo, especialmente quando o foco é conforto.
A desnutrição é risco concreto e precoce na OMSG. A avaliação nutricional deve ser realizada de forma sistemática, considerando o impacto da restrição alimentar sobre o estado funcional e a qualidade de vida. A decisão sobre suporte nutricional — seja por via enteral distal ou, mais raramente, por via parenteral — exige análise criteriosa do prognóstico e alinhamento com o objetivo do cuidado. Nutrir não é apenas oferecer calorias, mas ponderar benefícios, riscos e significado para aquele paciente, bem como o impacto da desnutrição no sucesso de estratégias modificadoras do curso da doença, quando estas ainda fazem parte do plano terapêutico.
O tratamento farmacológico deve ser individualizado e precedido por avaliação cuidadosa de fatores potencialmente agravantes, como constipação (leia mais sobre o tema na #PP034) ou distúrbios metabólicos. Diferenciar obstrução parcial de completa é essencial para orientar a terapêutica. O controle dos sintomas — sobretudo náuseas, vômitos e dor associada à distensão — deve considerar o mecanismo predominante. Antieméticos de ação central, como haloperidol ou levomepromazina, podem auxiliar no controle da náusea. A metoclopramida pode ser utilizada apenas em obstrução parcial, pelo risco de exacerbar dor e vômitos quando há bloqueio completo. Corticoides podem reduzir edema tumoral e melhorar temporariamente a passagem do conteúdo gástrico.
Em casos de dor associada à OMSG, o tratamento deve ter como base o uso de opioide, como a morfina, especialmente quando a dor é contínua ou de intensidade moderada a alta. Em situações em que há componente cólico associado à distensão, agentes com ação anticolinérgica — como escopolamina — podem ser considerados como adjuvantes, sempre associados ao opioide, mas não devem ser utilizados como monoterapia.
Quando intervir: técnica, contexto e intenção
Na presença de OMSG, intervenções endoscópicas podem ser consideradas para restaurar a via alimentar. O stent duodenal metálico autoexpansível é um procedimento minimamente invasivo e amplamente recomendado como estratégia para controle de sintomas, capaz de promover alívio rápido dos vômitos e retorno à dieta oral em poucos dias, com baixa taxa de complicações graves. Por isso, costuma ser a primeira opção quando o objetivo é restaurar a alimentação de forma célere. No entanto, sua durabilidade é limitada. Disfunção do stent ocorre em parcela significativa dos pacientes, frequentemente exigindo nova intervenção. Em indivíduos com expectativa de sobrevida mais prolongada (> 3-4 meses), pode fazer mais sentido optar por estratégias com maior durabilidade.
A gastroenterostomia endoscópica guiada por ultrassom (EUS-GE) surge como alternativa nesse cenário. Ao criar um bypass entre estômago e jejuno, combina a durabilidade tradicionalmente associada à gastrojejunostomia cirúrgica com a menor invasividade de um procedimento endoscópico, apresentando menor risco de reobstrução quando comparada ao stent duodenal. Estudos recentes sugerem menor necessidade de reintervenção, embora o procedimento exija equipe experiente e centro especializado, não sendo recomendado em serviços sem expertise específica. Assim, a escolha da estratégia deve considerar não apenas a evidência disponível e a expectativa de vida, mas também os recursos da unidade e da rede de saúde em que o paciente está inserido.
Quando intervenções desobstrutivas não são indicadas ou não estão disponíveis, medidas de descompressão — como sonda nasogástrica temporária ou gastrostomia de alívio — podem oferecer controle sintomático significativo. Nesses casos, o objetivo não é restabelecer a via alimentar, mas reduzir a pressão intragástrica e, consequentemente, aliviar náuseas e vômitos. A manutenção prolongada de sonda nasogástrica deve ser evitada, tanto pelo desconforto quanto pelo impacto negativo sobre a qualidade de vida, devendo ser considerada apenas como medida transitória.
Por fim, é fundamental explicitar ao paciente e à família de que estes procedimentos não se configuram terapia modificadora de doença, mas visam aliviar sofrimento e preservar qualidade de vida. O alinhamento de expectativas, por meio da tomada de decisão compartilhada, é tão importante quanto a escolha técnica.
Modo de usar:
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Atente-se ao manejo clínico. Controle de náuseas, vômitos, dor e avaliação de constipação devem preceder ou acompanhar qualquer decisão intervencionista.
Diferencie obstrução parcial de completa. Essa distinção orienta o manejo farmacológico, especialmente o uso de procinéticos como metoclopramida.
Avalie o prognóstico e o contexto da rede antes de definir a intervenção. A expectativa de sobrevida ajuda a escolher entre alívio rápido (stent) e estratégias mais duráveis (como gastroenterostomia endoscópica guiada por ultrassom (EUS-GE)), considerando também a expertise do serviço e o objetivo do cuidado.
Explique a intenção paliativa. Procedimentos desobstrutivos ou descompressivos não modificam a evolução da doença de base. A clareza sobre expectativas, por meio da tomada de decisão compartilhada, evita frustração e fortalece a relação terapêutica.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Nem toda obstrução precisa ser desobstruída. Às vezes, o maior alívio vem da redução da pressão gástrica, do controle adequado de náuseas e dor e da clareza sobre o que esperar. Quando o prognóstico é limitado, procedimentos tecnicamente bem-sucedidos podem não se traduzir em benefício percebido.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio. Constipação: Evacuação infrequente (menos de três vezes por semana), com esforço excessivo, fezes endurecidas ou sensação de esvaziamento incompleto. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Gastroenterostomia endoscópica guiada por ultrassom (EUS-GE): Procedimento endoscópico minimamente invasivo que cria uma comunicação entre o estômago e o intestino delgado, guiada por ultrassom, para desviar a obstrução maligna da saída gástrica (OMSG). Gastrojejunostomia cirúrgica: Cirurgia que estabelece uma anastomose entre o estômago e o jejuno. Haloperidol: Antipsicótico típico com ação antagonista dopaminérgica (bloqueio dos receptores D2). Levomepromazina: Antipsicótico típico de baixa potência, que atua como antagonista multirreceptor, bloqueando receptores dopaminérgicos (D2), serotoninérgicos (5-HT2), histaminérgicos (H1), adrenérgicos (α1) e muscarínicos. Esses mecanismos produzem efeitos sedativo, ansiolítico, antiemético e analgésico adjuvante. Metoclopramida: Fármaco procinético e antiemético, antagonista dopaminérgico (D2), que aumenta o esvaziamento gástrico e auxilia no controle de náuseas. Morfina: Opioide natural forte, agonista de receptores μ, utilizado como fármaco de referência para comparação de potência entre opioides. Náusea: Sintoma caracterizado por vontade de vomitar, podendo ou não ser seguida de vômito. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Obstrução intestinal maligna (OIM): Interrupção parcial ou completa do trânsito intestinal — delgado ou grosso — por tumor primário ou metastático, associada a dor, náuseas, vômitos e redução ou ausência da eliminação de flatos e fezes. Obstrução maligna da saída gástrica (OMSG): Bloqueio mecânico parcial ou completo do esvaziamento gástrico por infiltração ou compressão tumoral, causando náuseas, vômitos e intolerância alimentar. Opioide: Termo que engloba os alcaloides derivados da papoula (Papaver somniferum), seus análogos sintéticos e as substâncias endógenas que se ligam aos receptores opioides distribuídos por todo o corpo. Como medicamentos, são utilizados principalmente para o controle da dor, mas também podem ser eficazes no alívio de outros sintomas. Plenitude pós-prandial: Sensação de estômago cheio ou desconforto após alimentação, desproporcional à quantidade ingerida. Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida. Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Sintoma: Fenômeno subjetivo caracterizado por uma sensação anormal relatada pelo paciente em relação à sua condição de saúde. No caso de sintomas físicos, sua caracterização geralmente envolve sete atributos: localização, característica, intensidade, início, duração/frequência, fatores associados e fatores de melhora/piora. Sobrevida: Tempo de vida após um determinado marco temporal - por exemplo, sobrevida após diagnóstico de uma doença ou alta hospitalar. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Terapia modificadora de doença: Todo tratamento que modifica o curso de uma doença, com objetivo de aumento de sobrevida e, idealmente, melhora na qualidade de vida. Não é sinônimo de terapia curativa. Tomada de decisão compartilhada: Processo colaborativo em que profissionais de saúde, pacientes e — quando apropriado — seus familiares ou representantes constroem juntos as decisões sobre o cuidado, integrando evidências clínicas (conhecimento técnico) com os valores, preferências e objetivos de vida do paciente.
Referências bibliográficas
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Chen YI, et al. EUS-guided gastroenterostomy versus enteral stenting for malignant gastric outlet obstruction: a systematic review and meta-analysis. Gastrointest Endosc. 2021;94(5):873–884.
Cherny NI, Fallon MT, Kaasa S, Portenoy RK, Currow DC, editors. Oxford Textbook of Palliative Medicine. 6th ed. Oxford: Oxford University Press; 2024.


