Categorias: Manejo de sintomas, Manejo de fim de vida Autor(a): Rodrigo Bittencourt, médico de família e paliativista Publicado em: 11/03/2026
Contexto
A hipersecretividade de vias aéreas, apesar de poder parecer um tópico de fácil resolução em Cuidados Paliativos, é bastante complexa de manejar. Isso porque pode ter significados e etiologias distintos e, portanto, exige intervenções individualizadas — como é o caso da sororoca (ou “death rattle”, também chamada de respiração ruidosa). É importante construirmos um raciocínio clínico que permita prevenir seu surgimento sempre que possível e, quando isso não for viável, tratá-la adequadamente, reduzindo o sofrimento do paciente, da família e da equipe. Assim, esta #PP abordará esse tema tão relevante em Cuidados Paliativos.
O que é, quando e por que acontece
A sororoca é o som resultante da vibração de secreções faríngeas e pulmonares acumuladas em pacientes com redução do nível de consciência e muito fracos para expectorar ou deglutir essas secreções.
Pela sua alta prevalência na fase ativa de morte, é considerada um marcador de óbito breve (leia mais sobre a fase ativa de morte na #PP055). Nesse período, a sororoca não representa aumento súbito de secreção, mas a incapacidade progressiva do organismo de manter mecanismos automáticos de proteção das vias aéreas. O declínio neuromuscular e a perda de coordenação respiratória impedem a mobilização das secreções, que passam a vibrar com o fluxo de ar. Apesar de provocar grande angústia na equipe e na família, em geral não há desconforto para o paciente — e isso precisa estar muito claro para todos que presenciam o evento.
É fundamental que, ao perceber a presença do ruído, se considerem também outras etiologias de hipersecretividade, como congestão pulmonar ou processos infecciosos ainda passíveis de tratamento. Conforme já discutimos na #PP045 — Antibióticos no fim de vida —, mesmo diante da identificação de um processo infeccioso, é essencial avaliar se há indicação de tratamento direcionado, considerando o objetivo do cuidado e a potencial eficácia do tratamento da infecção.
A identificação correta do processo é essencial para a escolha da intervenção mais eficaz. Por isso, é necessária uma avaliação clínica detalhada, com exame físico cuidadoso e reconhecimento da fase de vida em que o paciente se encontra. Reconhecer que esse ruído integra o processo fisiológico de morrer evita interpretações equivocadas e intervenções desproporcionais, mantendo o cuidado alinhado ao objetivo do cuidado.
Prevenção: o que podemos fazer antes que ela aconteça?
Lembre-se: nesse contexto, a prevenção é, definitivamente, o melhor remédio. Prevenir a sororoca é evitar um sinal que, embora raramente cause sofrimento ao paciente, frequentemente provoca angústia em familiares e na própria equipe.
Evitar hipervolemia é uma medida central. Não é incomum que, durante a fase ativa de morte, seja introduzido soro glicosado como forma de acolhimento à família ou até à equipe. Nem sempre é fácil compreender que “dieta” não é necessária nesse período, então é fundamental orientar familiares e profissionais sobre os possíveis malefícios da infusão de volumes desnecessários, que podem contribuir para maior acúmulo de secreções. O mesmo raciocínio se aplica à dieta em pacientes com via alternativa de alimentação: o recomendado é manter dieta zero. Quando isso não for possível, deve-se utilizar o menor volume viável, sempre alinhando a conduta ao objetivo do cuidado.
Diante da impressão de que o paciente esteja na fase ativa de morte, pode-se considerar o uso profilático de escopolamina. Embora os anticolinérgicos possam causar efeitos adversos, como constipação ou xerostomia, o benefício em termos de conforto costuma superar os riscos nessa fase, especialmente ao prevenir a angústia dos familiares diante da sororoca. Nesse contexto, vale lembrar o princípio do duplo efeito.
O posicionamento no leito também merece atenção. Além de ser medida essencial para conforto, pode favorecer a drenagem passiva das secreções. Esse pode ser, inclusive, um momento oportuno para envolver a família no processo de cuidado, especialmente na atenção domiciliar, fortalecendo o senso de participação e presença.
A aspiração, por sua vez, deve ser realizada apenas se a secreção estiver facilmente acessível na cavidade oral e se o procedimento não gerar desconforto adicional ao paciente. Não devemos permitir que a angústia provocada pelo ruído respiratório nos conduza a intervenções que aumentem o sofrimento.
Por fim, prevenir também é comunicar. Explicar antecipadamente à família que alterações respiratórias podem ocorrer na fase ativa de morte, esclarecer que a sororoca não costuma causar desconforto ao paciente e manter presença e acolhimento são medidas tão terapêuticas quanto qualquer intervenção farmacológica.
Manejo quando a sororoca já está instalada
Após o surgimento da sororoca, a eliminação das secreções já acumuladas costuma ser limitada, uma vez que os anticolinérgicos atuam reduzindo a produção futura de secreções, e não eliminando aquelas já presentes. Por isso, sua eficácia tende a ser maior quando introduzidos precocemente, na fase ativa de morte, antes do acúmulo significativo. Há evidência de que a administração profilática de escopolamina em pacientes próximos da morte, mas ainda sem sororoca, reduz a incidência do ruído respiratório quando comparada ao placebo. Por outro lado, a evidência que sustenta o tratamento após o início do quadro é menos consistente, não havendo demonstração clara de superioridade entre diferentes anticolinérgicos. Assim, outros xerostômicos podem ser utilizados conforme o contexto clínico e a disponibilidade, como atropina sublingual, propantelina tópica em região retroauricular ou nebulização com ipratrópio.
Não há evidência de que o tratamento da sororoca melhore o conforto do paciente. Pode, contudo, reduzir o sofrimento das pessoas à beira do leito. Por isso, as decisões terapêuticas devem ser guiadas por conversas claras com familiares e cuidadores, considerando o objetivo do cuidado naquele momento.
Durante essa abordagem, é fundamental abrir espaço para acolhimento e esclarecimento à família. A presença da sororoca não costuma indicar sofrimento para o paciente, e comunicar isso de forma clara e serena reduz significativamente a angústia associada ao ruído respiratório.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Inicie anticolinérgico de forma profilática quando houver suspeita de fase ativa de morte, sendo a escopolamina por via subcutânea uma opção amplamente utilizada. Lembre-se de que o efeito se dá na redução da produção futura de secreções, com evidência limitada quanto à eliminação das já acumuladas.
Busque a euvolemia. Revise infusões venosas e dieta por via alternativa. Evitar hipervolemia é medida fundamental na prevenção e no manejo da sororoca, sempre alinhando a conduta ao objetivo do cuidado.
Aspire apenas se necessário, quando a secreção estiver facilmente acessível na cavidade oral e o procedimento não gerar desconforto adicional. Evite intervenções motivadas exclusivamente pela angústia provocada pelo ruído.
Otimize o posicionamento. Prefira decúbito lateral e mantenha cabeceira elevada para favorecer drenagem passiva e conforto.
Comunique de forma antecipatória e acolhedora. Explique à família que alterações respiratórias são esperadas na fase ativa de morte e que a sororoca não costuma indicar sofrimento para o paciente. Nomear o que está acontecendo, permanecer disponível e validar a angústia reduzem significativamente o sofrimento à beira do leito.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Na prática clínica, é comum que a equipe se angustie diante do som e se sinta pressionada a “fazer algo” imediatamente. Mas, antes de intervir, é preciso perguntar: estou tratando um sintoma do paciente ou a angústia de quem está ao redor do leito? Isso não significa inação. Significa agir com discernimento. Ajustar volumes, posicionar, utilizar anticolinérgicos quando indicados e, sobretudo, comunicar com clareza. Muitas vezes, a intervenção mais potente não está na seringa, mas na explicação serena de que aquele som faz parte do processo fisiológico de morrer e não costuma representar sofrimento.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Atropina: Anticolinérgico (antagonista muscarínico). Constipação: Evacuação infrequente (menos de três vezes por semana), com esforço excessivo, fezes endurecidas ou sensação de esvaziamento incompleto. Escopolamina: Medicamento anticolinérgico que atua bloqueando receptores muscarínicos, reduzindo a secreção das glândulas salivares e brônquicas. Seu uso requer cautela devido a potenciais efeitos adversos como delirium, confusão mental e retenção urinária, especialmente em pacientes idosos ou com demência. Fase ativa de morte: Fase em que o processo de morte se iniciou, com alterações fisiológicas que, de forma irreversível, culminarão com o óbito. Tem duração de horas a dias. Ipratrópio: Broncodilatador anticolinérgico de ação inalatória, que promove bloqueio muscarínico nas vias aéreas. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Princípio do duplo efeito: Princípio ético que admite a realização de uma ação com dois efeitos previsíveis — um desejado (como alívio de sintoma) e outro potencialmente indesejado — desde que a intenção seja produzir o efeito benéfico, o efeito negativo não seja o meio para alcançar o benefício e haja proporcionalidade entre riscos e benefícios. Propantelina: Anticolinérgico sistêmico com efeito antissecretor e antiespasmódico. Sintoma: Fenômeno subjetivo caracterizado por uma sensação anormal relatada pelo paciente em relação à sua condição de saúde. No caso de sintomas físicos, sua caracterização geralmente envolve sete atributos: localização, característica, intensidade, início, duração/frequência, fatores associados e fatores de melhora/piora. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Sororoca: Ruído respiratório característico do fim de vida, causado pelo acúmulo de secreções nas vias aéreas superiores em pacientes com reflexo de deglutição ou tosse comprometido. Produz um som semelhante a um ronco úmido, audível durante a inspiração ou expiração. Embora muitas vezes angustiante para familiares, não costuma estar associado a sofrimento para o paciente. Xerostomia: Termo médico para boca seca, geralmente secundária à diminuição da produção de saliva.
Referências bibliográficas
Van Esch HJ, van Zuylen L, Geijteman ECT, et al. Effect of prophylactic subcutaneous scopolamine butylbromide on death rattle in patients at the end of life: the SILENCE randomized clinical trial. JAMA. 2021;326(13):1268–1276.
Cherny NI, Fallon MT, Kaasa S, et al. Dyspnoea and other respiratory symptoms. In: Cherny NI, Fallon MT, Kaasa S, et al., editors. Oxford Textbook of Palliative Medicine. 5th ed. Oxford: Oxford University Press; 2015. p.432.
Bruera E, Higginson IJ, Von Gunten CF, et al. Other respiratory symptoms (cough, hiccup, and secretions). In: Bruera E, Higginson IJ, Von Gunten CF, editors. Textbook of Palliative Medicine and Supportive Care. 3rd ed. Boca Raton: CRC Press; 2015. p.437.


