Categorias: Manejo de sintomas Autor(a): Raíssa Dantas, médica oncologista e paliativista Publicado em: 01/04/2026
Contexto
Em Cuidados Paliativos, pacientes frequentemente convivem com sintomas persistentes como fadiga, ansiedade, distúrbios do sono e perda de funcionalidade, que impactam profundamente sua qualidade de vida.
Embora o tratamento farmacológico seja essencial, muitas dessas dimensões do sofrimento permanecem parcialmente controladas, exigindo abordagens complementares que integrem corpo e mente. Nesse contexto, intervenções mente-corpo, como o yoga, têm despertado interesse crescente como estratégias adjuvantes de cuidado.
Nesta #PP, discutiremos o uso do yoga como estratégia complementar de cuidado em pacientes sob abordagem paliativa.
Conceito e importância do yoga em Cuidados Paliativos
O yoga é definido como um sistema que integra posturas físicas (asanas), técnicas de respiração (pranayamas) e práticas meditativas ou de relaxamento profundo (dhyana). Quando aplicado ao contexto da saúde e dos Cuidados Paliativos, deixa de ser compreendido apenas como “exercício físico” e passa a ser entendido como uma intervenção terapêutica multimodal, na qual o foco não é a performance ou a flexibilidade, mas sim a promoção de funcionalidade, conforto e conexão mente-corpo.
Sua aplicação no contexto clínico deve considerar as condições funcionais do paciente e, idealmente, ser conduzida por profissionais com formação específica em yoga terapêutico ou yoga oncológico, de modo a reduzir riscos — como fraturas em pacientes com metástases ósseas ou sangramentos em pacientes com plaquetopenia.
Estudos mostram que o yoga pode beneficiar pacientes com diversas condições crônicas e, entre sobreviventes de câncer, a prática está associada à redução da fadiga, melhora da qualidade do sono, diminuição do estresse e melhora do humor, da força física e da qualidade de vida. Embora as evidências específicas em Cuidados Paliativos ainda sejam limitadas, os benefícios observados em populações oncológicas, aliados ao baixo risco e à adaptabilidade da prática, sustentam sua utilização, de forma criteriosa, como estratégia complementar.
Nesse sentido, diretrizes como as da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e da Sociedade de Oncologia Integrativa (SIO) recomendam o yoga como intervenção complementar para redução de ansiedade, estresse, depressão e distúrbios de humor, além de melhora da qualidade de vida em pacientes com câncer. Entre pacientes menos ativos, abordagens como o yoga restaurativo podem ser mais acessíveis e igualmente benéficas, e a prática regular tende a potencializar esses efeitos.
Além dos benefícios físicos, a prática também pode estimular maior percepção corporal e favorecer momentos de presença e reflexão, oferecendo ao paciente espaço para lidar com dimensões emocionais e existenciais do adoecimento.
Quando implementar o yoga em Cuidados Paliativos
A introdução do yoga em Cuidados Paliativos deve ser compreendida como uma estratégia de cuidado integrativo precoce, e não apenas como um recurso de última instância para o fim de vida. Idealmente, a prática pode ser iniciada logo após o diagnóstico de uma doença ameaçadora à vida, momento frequentemente marcado por estresse agudo e ansiedade. Nesse cenário, o yoga pode funcionar como suporte para favorecer regulação emocional, respiração consciente e adaptação ao processo de adoecimento.
À medida que o paciente avança para o tratamento ativo, como quimioterapia ou radioterapia, a prática passa a assumir um papel mais direcionado ao manejo de sintomas associados ao tratamento. Nessa fase, a intervenção é frequentemente utilizada para mitigar fadiga, insônia e náusea, contribuindo para a manutenção da qualidade de vida e da funcionalidade.
Com a progressão da doença e o aumento da fragilidade, o yoga pode ser continuamente adaptado às condições clínicas e às preferências do paciente. Em contextos de maior limitação física, a prática pode migrar das posturas corporais para técnicas respiratórias e meditativas realizadas à beira do leito, com foco no alívio de sintomas como dispneia e dor.
A equipe interdisciplinar e sua importância
A importância da abordagem interdisciplinar está em permitir que o yoga seja integrado ao plano de cuidado de forma segura e alinhada ao objetivo do cuidado.
Em vez de uma atividade isolada, a prática passa a fazer parte de um cuidado coordenado, no qual a vigilância clínica contribui para a segurança física do paciente, por meio da avaliação de riscos e da adaptação da intensidade e dos movimentos às suas limitações e necessidades. Essa colaboração permite que o yoga seja aplicado no momento de maior benefício, respeitando as janelas de conforto e as necessidades de controle de sintomas como dor e dispneia.
Além disso, o trabalho conjunto potencializa os efeitos psicoemocionais e existenciais da prática, conectando o relaxamento corporal ao suporte emocional e à busca por significado diante da doença. Dessa forma, o yoga pode contribuir para a preservação da qualidade de vida ao longo da trajetória de adoecimento.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Comece pela respiração. Utilize técnicas simples de respiração lenta e profunda (pranayamas), com expiração mais longa que a inspiração, para ajudar no controle de ansiedade e dispneia.
Adapte a prática à funcionalidade do paciente. Movimentos suaves de extremidades realizados no leito ou na cadeira podem reduzir rigidez muscular e favorecer relaxamento corporal sem exigir esforço físico significativo.
Evite a prática em situações de instabilidade clínica, dor não controlada ou risco aumentado de complicações (como metástases ósseas instáveis ou risco de sangramento). Caso haja fadiga intensa ou desconforto, técnicas de respiração ou momentos de silêncio compartilhado podem substituir movimentos corporais.
Respeite a autonomia do paciente. A prática deve ser sempre um convite, e o paciente pode recusá-la a qualquer momento.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Não podemos esquecer que, em Cuidados Paliativos, o cuidado também se estende à família. A prática de yoga pode ser uma ferramenta valiosa para cuidadores e familiares, ajudando a reduzir o estresse, favorecer momentos de pausa e apoiar o equilíbrio físico e emocional necessário para sustentar o cuidado cotidiano e preservar o bem-estar do cuidador.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Abordagem interdisciplinar: Trabalho colaborativo entre profissionais de diferentes áreas para atender às múltiplas necessidades do paciente e da família. Há o compartilhamento de informações e experiências que permite a tomada de decisões conjuntas e a construção de um plano de cuidados colaborativo. Se diferencia do atendimento multidisciplinar por prever a estreita interação entre os membros da equipe, mesmo que não no momento do atendimento. Ansiedade: Estado afetivo caracterizado por apreensão, tensão e antecipação de perigo, com componentes emocionais, físicos e cognitivos. Pode ser uma resposta adaptativa a situações de estresse, mas torna-se patológica quando é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento cotidiano. Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio. Dispneia: Sensação subjetiva de dificuldade ou desconforto para respirar, com intensidade variável. Resulta da interação de fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais, podendo desencadear respostas físicas e emocionais. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Fadiga: Sensação subjetiva e persistente de cansaço, que pode ser física, emocional e/ou cognitiva. Caracteriza-se por ser desproporcional ao esforço realizado, não melhorar com repouso ou sono e interferir negativamente nas atividades da vida cotidiana. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente em literatura. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Insônia: Distúrbio que compromete a qualidade e/ou a quantidade do sono, com consequente redução da capacidade de realizar as atividades cotidianas. Náusea: Sintoma caracterizado por vontade de vomitar, podendo ou não ser seguida de vômito. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
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