Categorias: Educação para a morte, Manejo de fim de vida, Manejo de sintomas Autor(a): Mariana Sarkis, psicóloga e paliativista Publicado em: 15/04/2026
Contexto
Os Cuidados Paliativos têm como objetivo promover qualidade de vida por meio da prevenção e do alívio do sofrimento de pacientes e familiares que enfrentam doenças ameaçadoras à vida, contemplando as dimensões física, psicossocial e espiritual. Essa abordagem inclui o cuidado ao processo de luto, que deve ser compreendido em sua dimensão ampliada, uma vez que não se restringe ao período pós-óbito do paciente (para revisão deste conceito, leia a #PP040 Luto em Cuidados Paliativos). Esta #PP aborda o luto complicado e o papel da equipe de Cuidados Paliativos em sua prevenção, reconhecendo que esse processo se constrói ao longo de toda a trajetória do adoecimento.
Perdas relacionadas ao processo de adoecimento
O processo de luto pode se iniciar já no diagnóstico da doença, à medida que pacientes e familiares vivenciam múltiplas perdas ao longo do adoecimento. Essas perdas — simbólicas ou concretas, transitórias ou permanentes — dão origem aos chamados lutos em vida, que demandam reconhecimento e cuidado contínuos.
Entre as perdas frequentemente associadas ao adoecimento estão:
perda do lugar seguro no mundo;
perda de partes do corpo ou da funcionalidade;
perda da autonomia e da autoestima;
perda de papéis familiares e sociais;
mudanças na rotina social, afetiva e laboral.
Essas experiências devem ser compreendidas a partir do significado atribuído pelo paciente e por seus familiares, reconhecendo que uma mesma situação pode gerar impactos muito distintos. Quando acolhidas e elaboradas, favorecem a construção de significados que contribuem tanto para o enfrentamento da doença quanto para uma elaboração mais integrada do luto diante da morte.
Assim, um processo de luto mais saudável envolve reconhecimento da perda e adaptação progressiva à ausência. O luto complicado, por sua vez, caracteriza-se por sofrimento persistente e desorganização emocional e funcional que comprometem o funcionamento global do indivíduo. Estima-se que 10 a 20% dos processos de luto evoluam dessa forma.
Papel da equipe multiprofissional na prevenção do luto complicado
Muitas das perdas experienciadas durante o processo de adoecimento, por não estarem diretamente associadas à morte, configuram-se como lutos não reconhecidos. São vivências de luto que não encontram permissão social ou individual para serem expressas, o que pode gerar isolamento, fragilização do suporte social e sensação de não pertencimento. Nesse contexto, o luto não reconhecido pode constituir um importante fator de risco para o luto complicado.
Considerando que o luto atravessa toda a trajetória do adoecimento, o suporte a esse processo é responsabilidade de toda a equipe multiprofissional, e não exclusivamente do psicólogo. Ainda que o psicólogo detenha expertise específica, as atitudes, comunicações e decisões de todos os profissionais podem influenciar diretamente a forma como pacientes e familiares vivenciam perdas.
No contexto dos Cuidados Paliativos, a prevenção do luto complicado ocorre principalmente por meio de intervenções relacionais, comunicacionais e assistenciais, realizadas de forma longitudinal. A proposta não é patologizar o luto, mas antever possíveis complicações neste processo e oferecer cuidado oportuno, com intervenções e encaminhamentos precoces quando indicado. Ressalta-se que os fatores de risco e proteção devem ser compreendidos de acordo com a cultura, o contexto, a personalidade e o que a pessoa narra para si mesma sobre o significado daquela situação. Ademais, não necessariamente um fator de risco ou proteção vai ser complicador ou protetor do luto.
Ações da equipe para prevenção do luto complicado
A equipe de saúde pode representar segurança para o indivíduo doente e familiares conforme apresenta comportamentos de atenção, preocupação com o que é importante para o outro, gerando também acolhimento e continência emocional. Ademais, os profissionais de saúde podem apresentar comportamentos que podem favorecer o processo de luto da unidade de cuidado, tais como:
Comunicação efetiva, afetiva, clara e honesta, que possibilite ao núcleo paciente-família construir uma narrativa sobre a experiência vivida, favorecendo a atribuição de significados;
Atuação da equipe como referência de segurança, permitindo que pacientes e familiares se sintam confortáveis para solicitar e receber cuidado em momentos de vulnerabilidade;
Controle adequado de sintomas, contribuindo para a percepção de que o paciente esteve confortável e de que “tudo o que era possível foi feito”, reduzindo sentimentos de culpa e pendências relacionadas ao cuidado;
Co-construção de estratégias de enfrentamento;
Incentivo ao autocuidado dos familiares, especialmente daqueles que assumem o papel de cuidadores e tendem a priorizar o cuidado do outro em detrimento de si;
Facilitação da realização de rituais, religiosos ou não, que auxiliem no processo de separação;
Apoio à resolução de pendências e à realização de despedidas, quando possível;
Validação da dor e da perda, reconhecendo o sofrimento do outro e promovendo sensação de acolhimento e pertencimento;
Atenção contínua ao que é importante e significativo para cada pessoa.
Por fim, a atenção contínua ao que é importante e significativo para cada pessoa também envolve a identificação precoce de fatores de risco para desorganizações no processo de luto. Quando esses fatores estão presentes, pode ser indicado oferecer intervenções de apoio ou encaminhar o enlutado para acompanhamento especializado, com o objetivo de favorecer a elaboração da perda e prevenir maior sofrimento. De modo geral, esse encaminhamento torna-se particularmente relevante diante de sofrimento intenso e persistente ao longo do tempo, sem sinais de adaptação, com prejuízo significativo do funcionamento social, ocupacional ou relacional. Sinais como isolamento progressivo, dificuldade marcante em atribuir significado à perda, sentimentos persistentes de culpa ou vazio, desesperança contínua e incapacidade de retomar minimamente a vida cotidiana podem indicar a necessidade de cuidado especializado.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Reconheça perdas e lutos ao longo do adoecimento, incluindo os lutos em vida e os lutos não reconhecidos, ampliando o olhar da equipe para além do momento do óbito;
Identifique precocemente fatores de risco para o luto complicado, considerando o contexto, a cultura, a história e os significados atribuídos pelo paciente e por seus familiares;
Oriente atitudes e intervenções cotidianas da equipe multiprofissional — como comunicação qualificada, validação do sofrimento, manejo adequado de sintomas e apoio à construção de significados — que podem contribuir para a prevenção do luto complicado;
Apoie discussões em equipe e decisões de cuidado, favorecendo encaminhamentos oportunos e a continuidade do suporte ao paciente e à família ao longo de toda a trajetória da doença.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Pacientes e familiares vivenciam perdas ao longo de todo o processo de adoecimento, e não apenas no fim de vida ou após a morte. Esses lutos em vida precisam ser reconhecidos, legitimados e cuidados por toda a equipe multiprofissional. A identificação de fatores de risco e de proteção para luto complicado constitui uma ferramenta fundamental para orientar intervenções e encaminhamentos precoces, sempre respeitando a singularidade de cada história e evitando a patologização de experiências humanas naturais.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Autoestima: Percepção subjetiva de valor e segurança que uma pessoa atribui a si mesma, refletindo como se sente em relação a quem é. Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Luto: Vivência natural diante de uma perda de um vínculo significativo, seja ou não por morte. É uma resposta multidimensional, com manifestações emocionais, físicas, sociais, espirituais e comportamentais. Em inglês, três termos distintos costumam ser traduzidos como luto: 1. Bereavement – estado objetivo de perda, decorrente de um vínculo rompido. 2. Grief – resposta emocional e multidimensional à perda. 3. Mourning – expressão pública do luto, mediada por rituais, normas culturais ou práticas espirituais. Em português, luto pode abranger os três sentidos, o que exige atenção à polissemia em contextos clínicos, acadêmicos e culturais. Luto complicado: Termo clínico utilizado para descrever uma vivência de luto marcada por sofrimento persistente, desorganização emocional e dificuldade de retomada das atividades da vida com a qualidade anterior após o rompimento de um vínculo significativo. Pode envolver isolamento, somatizações, sentimentos intensos e duradouros, sintomas depressivos, baixa autoestima e maior vulnerabilidade emocional. Diferencia-se do transtorno do luto prolongado por não corresponder necessariamente a uma categoria diagnóstica formal única. Luto em vida: Processo de luto vivenciado antes da morte, relacionado às múltiplas perdas que ocorrem ao longo do adoecimento, como perdas de funcionalidade, autonomia, papéis sociais, projetos, identidade e sentido de continuidade da vida. Luto não reconhecido: Forma de luto em que a perda não é socialmente validada, dificultando o apoio, os rituais de despedida e a elaboração do sofrimento. Pode ocorrer em perdas estigmatizadas (como suicídio, overdose ou HIV), vínculos invisíveis (como relações extraconjugais ou amizades intensas) ou perdas não humanas (como animais de estimação). Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
Referências bibliográficas
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Braz MS. O sofrimento do luto do profissional de saúde: a construção do vínculo de cuidado formal e a permissão de enlutar-se. In: Mucci S, organizadora. Acolhimento ao luto: guia prático para profissionais da saúde. São Paulo: Atheneu; 2024.
Casellato G. Luto não reconhecido: o fracasso da empatia nos tempos modernos. In: Casellato G, organizadora. O resgate da empatia: suporte psicológico ao luto não reconhecido. São Paulo: Summus; 2015. p. 10-15.
Doka KJ. Disenfranchised grief: recognizing hidden sorrow. Lexington: Lexington Books; 1989.
Neimeyer RA, Jordan JR. Disenfranchisement as empathic failure: grief therapy and the co-construction of meaning. In: Doka KJ, editor. Disenfranchised grief: new directions, challenges and strategies for practice. Illinois: Research Press; 2002. p. 95-117.



