Categorias: Fundamentos, Avaliação prognóstica, Comunicação compassiva, Resolução de conflitos, Tomada de decisão, Gestão em cuidados paliativos Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista e Fernanda Tourinho, médica clínica e paliativista Publicado em: 22/04/2026
Contexto
Na prática clínica, é comum que decisões sejam tomadas com base em protocolos, exames e possibilidades terapêuticas — mas nem sempre no que realmente importa para o paciente. Considerando a abordagem dos Cuidados Paliativos, essa desconexão pode resultar em intervenções com desfechos clínicos pouco alinhados aos seus valores e prioridades, sem impacto significativo qualidade de vida.
É nesse contexto que emerge uma pergunta central, muitas vezes negligenciada: qual é o objetivo do cuidado para este paciente, neste momento da sua trajetória? Através de qual processo ele deve ser definido? Esse é o tema desta #PP.
O que é, afinal, o objetivo do cuidado?
O objetivo do cuidado é o que se busca alcançar no cuidado de um paciente, definido a partir dos seus valores, preferências e prioridades. Inclui metas globais, clínicas e pessoais, construídas através de um processo decisório que envolve o paciente/família e a equipe de saúde. Funciona como uma bússola clínica: orienta decisões, organiza o raciocínio e dá sentido às intervenções propostas A partir da sua definição, é possível formular um plano de cuidados que conecte o que é tecnicamente possível ao que, de fato, faz sentido para o paciente. O objetivo do cuidado é a meta a ser alcançada e o plano de cuidados são as ações coordenadas que serão realizadas pela equipe para alcançar essa meta.
Em Alice no País das Maravilhas, há um diálogo clássico entre Alice e o Gato:
“Você poderia me dizer, por favor, qual caminho devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende muito de para onde você quer ir”, responde o Gato.
“Não me importa muito para onde…”, diz Alice.
“Então qualquer caminho serve.”
Na prática clínica, o raciocínio é o mesmo: quando não está claro o objetivo do cuidado, qualquer plano parece justificável — investigar mais, intervir mais, escalar. Quando sabemos onde queremos chegar, o plano de cuidados deixa de ser uma sequência automática de condutas e passa a ser um caminho intencional.
Diferente de metas clínicas isoladas (como “reduzir a creatinina” ou “tratar a infecção”), o objetivo do cuidado traduz o impacto desejado na vida do paciente — como viver mais, viver melhor, manter independência, evitar sofrimento ou priorizar conforto. É, portanto, um conceito relacional, que só pode ser definido em diálogo.
Sua discussão se conecta diretamente à comunicação de prognóstico: sem discutir o que pode acontecer ao longo do tempo — em termos de função, trajetória clínica esperada e imprevisibilidade — os pacientes não têm base para decidir de forma alinhada aos seus valores. Isso é particularmente relevante porque as preferências dos pacientes são fortemente influenciadas pelos desfechos esperados, sobretudo aqueles relacionados ao impacto funcional e cognitivo, e não apenas pela possibilidade de sobreviver. Ignorar esses aspectos é, na prática, ou decidir no lugar do paciente, ou abandoná-lo a uma decisão solitária, sem a base prognóstica que sustenta a tomada de decisão compartilhada.
A definição e nomeação explícita do(s) objetivo(s) do cuidado(s) permite alinhar expectativas, orientar condutas e reduzir conflitos, tanto entre paciente e família quanto com a equipe.
Entre o desejo e a possibilidade
Na prática, definir o objetivo do cuidado passa, do ponto de vista do paciente, por equilibrar dois eixos: o que o paciente deseja alcançar e o que ele está disposto (ou consegue) sustentar para isso.
De um lado, estão os resultados que importam:
Função (ex: manter independência)
Sintomas (ex: controlar dor sem sedação)
Prolongamento da vida
Bem-estar emocional
Papéis sociais e familiares
De outro, está o custo do cuidado — o chamado ônus do tratamento:
Consultas, exames e internações
Medicamentos e seus efeitos adversos
Demandas de autocuidado
Procedimentos e seus impactos
Custos financeiros e na rotina
Além desses dois eixos, há ainda o que é tecnicamente possível e clinicamente adequado. Nem tudo o que se deseja é viável do ponto de vista biológico, assim como nem toda intervenção disponível é proporcional àquele contexto. Avaliar potencial de benefício e risco de dano é parte fundamental desse processo — garantindo que as decisões não sejam guiadas apenas por desejo ou disponibilidade, mas por uma leitura clínica consistente e responsável. É papel da equipe auxiliar o paciente nesse percurso, construindo um objetivo e um plano que melhor traduzem, de forma realista, suas expectativas e as possibilidades clínicas.
A pergunta que organiza o cuidado
Definir o objetivo do cuidado é fundamental — mas não suficiente. Na prática, mesmo quando ele está claro, há o risco de que as decisões clínicas sigam o curso habitual, orientadas por protocolos, rotinas e pela lógica do “sempre foi assim”. Essa inércia pode manter intervenções que pouco dialogam com o que realmente importa para o paciente. Estar atento a esse movimento é essencial pois o objetivo do cuidado deve ser buscado na prática. Caso contrário, o cuidado permanece ancorado no status quo, e não nos valores que deveriam orientá-lo.
Em meio à complexidade dos cenários clínicos, uma pergunta simples pode reorganizar o raciocínio: “o que estamos tentando alcançar com este cuidado?”.
Essa formulação ajuda a filtrar intervenções, priorizar ações e, muitas vezes, evitar excessos.
Quando o objetivo está claro, decisões difíceis tornam-se mais sustentáveis, seja para o paciente, a família ou para a equipe. Quando não está, o cuidado se fragmenta, e o risco de tratamentos potencialmente inapropriados aumenta.
O objetivo do cuidado não é fixo
Definir o objetivo do cuidado não é um evento pontual, mas um processo construído ao longo do tempo, por meio da tomada de decisão compartilhada. Isso implica traduzir possibilidades clínicas em caminhos compreensíveis, explorando com o paciente (e sua família) o que faz sentido diante da sua realidade.
Mais importante: não é fixo. Em pacientes com doença ameaçadora à vida, o objetivo pode mudar ao longo do tempo, conforme a evolução da doença, as experiências vividas e a reavaliação do que faz sentido. Como reforçado por consensos contemporâneos, o planejamento antecipado de cuidados deve partir da compreensão dos valores, metas de vida e preferências do paciente, sendo continuamente revisitado ao longo da trajetória da doença. Ou seja, definir o objetivo do cuidado implica reconhecer a necessidade de revisões sucessivas, conforme o contexto clínico e o significado atribuído pelo paciente se transformam.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Pergunte explicitamente: “o que é mais importante para você neste momento?”
Traduza opções terapêuticas em impacto prático (tempo, função, conforto)
Revise o objetivo do cuidado sempre que houver mudança clínica relevante
Utilize o objetivo do cuidado definido como critério para indicar, limitar ou suspender intervenções
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Em muitos atendimentos, o desalinhamento entre objetivo do cuidado e plano de cuidados não acontece por discordância, mas por ausência de diálogo. Há também outro risco, que é o de perguntar e não agir: nomear o objetivo do cuidado só faz diferença quando ele, de fato, orienta as decisões.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de ****tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Planejamento antecipado de cuidados: Processo no qual uma pessoa com capacidade decisória preservada, com auxílio da equipe de saúde, expressa e registra seus valores, objetivos e preferências em relação a seus cuidados de saúde, com foco no fim da vida. Tem como objetivo garantir cuidados compatíveis com a biografia da pessoa, devendo ter como produtos finais: 1) A construção de um testamento vital e 2) A escolha de um procurador para cuidados de saúde. Em inglês, diz-se “*Advance Care Planning (ACP)*”, de forma que também pode ser traduzido como planejamento avançado de cuidado. Plano de cuidados: Estratégia através da qual o objetivo do cuidado será alcançado. É sempre individualizado, conforme fase da doença, valores e biografia do paciente. Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida. Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Quimioterapia: Tratamento oncológico com uso de medicamentos de ação sistêmica que destroem ou inibem o crescimento de células tumorais. Pode ser curativa ou paliativa, e classificada conforme o momento de uso: neoadjuvante (antes) ou adjuvante (após outros tratamentos). Sobrevida: Tempo de vida após um determinado marco temporal - por exemplo, sobrevida após diagnóstico de uma doença ou alta hospitalar. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Tomada de decisão compartilhada: Processo colaborativo em que profissionais de saúde, pacientes e — quando apropriado — seus familiares ou representantes constroem juntos as decisões sobre o cuidado, integrando evidências clínicas (conhecimento técnico) com os valores, preferências e objetivos de vida do paciente. Tratamento potencialmente inapropriado: Intervenção que pode ter alguma chance de alcançar o efeito desejado, mas que, na avaliação da equipe, apresenta conflitos éticos ou clínicos relevantes que podem justificar sua não indicação. É preferível ao termo “fútil”, por reconhecer a possibilidade de benefício, ponderando sua proporcionalidade e adequação ao contexto do cuidado.
Referências bibliográficas
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