Categorias: Fundamentos, Avaliação prognóstica, Tomada de decisão Autor(a): Lessandra Chinaglia, médica geriatra e paliativista Publicado em: 06/05/2026
Contexto
A Oncogeriatria é uma área relativamente recente da medicina, de relevância crescente, e que tem por objetivo otimizar o manejo clínico de pacientes idosos acometidos por neoplasias malignas. O envelhecimento é um dos principais fatores de risco para o câncer, sendo responsável por aproximadamente 60% dos casos diagnosticados e 70% das mortes por câncer. O fenômeno global do envelhecimento populacional tem impulsionado um aumento expressivo na incidência de câncer em indivíduos com 65 anos ou mais. A Oncogeriatria surge para atender à complexidade do cuidado oncológico em idosos, com interface estreita com os Cuidados Paliativos, de forma a promover um cuidado centrado na pessoa. É nesse contexto que se insere a integração entre Oncogeriatria e Cuidados Paliativos — tema desta #PP.
Entendendo a Oncogeriatria
A Oncogeriatria emerge como uma área indispensável, com o objetivo de desmistificar a idade cronológica como barreira para o tratamento oncológico e combater o etarismo no cuidado em saúde. Parte-se do reconhecimento de que o envelhecimento é um processo heterogêneo, no qual indivíduos com a mesma idade podem apresentar perfis clínicos, funcionais e sociais bastante distintos — como já discutido na #PP017 Cuidados Paliativos em Geriatria.
As pessoas idosas apresentam maior vulnerabilidade e são sub-representadas em estudos clínicos, o que reforça a necessidade de estratégias que busquem melhorar os desfechos clínicos e reduzir os riscos associados ao tratamento. Neste contexto, o pilar fundamental da prática oncogeriátrica reside na realização da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), que constitui um processo diagnóstico multidimensional e interdisciplinar para identificar fragilidades e vulnerabilidades que não seriam detectadas em uma avaliação oncológica padrão — para saber mais sobre a abordagem em Oncologia, leia a #PP039 Cuidados Paliativos em Oncologia.
Os domínios fundamentais associados a desfechos relevantes em idosos com câncer — e que, portanto, compõem a AGA — são: funcionalidade, cognição, saúde emocional, comorbidades, polifarmácia, nutrição e suporte social. Essa avaliação deve ser implementada, sempre que possível, em todas as pessoas com câncer com 65 anos ou mais, especialmente naquelas com planejamento de início de tratamento sistêmico — devendo, portanto, ser realizada antes do seu início.
Essa abordagem permite uma estratificação de risco mais precisa e, consequentemente, a individualização do plano terapêutico. As evidências disponíveis permitem dizer que a implementação da AGA no contexto oncogeriátrico está relacionada à redução da toxicidade à quimioterapia e à melhora da comunicação em saúde, sem alteração da sobrevida global. O manejo deve ser direcionado às vulnerabilidades identificadas, cujas informações devem ser consideradas no processo de decisão terapêutica. Isso facilita a tomada de decisão compartilhada e alinha o tratamento aos valores, às preferências e às metas do paciente.
Cuidados Paliativos e a Oncogeriatria: diferenças e complementaridade
A Oncogeriatria e os Cuidados Paliativos são disciplinas distintas em origem, foco primário e ferramentas, mas compartilham preocupações sobrepostas no cuidado ao idoso com câncer e são complementares na prática clínica.
A Oncogeriatria se concentra na otimização do tratamento oncológico para o idoso, considerando a idade biológica — estado funcional e o envelhecimento real do corpo, diferentemente da idade cronológica — como determinante das decisões terapêuticas. Ela utiliza a AGA para orientar a escolha do tratamento, bem como intervenções geriátricas — de reabilitação, preabilitação, ajuste de medicações, controle de comorbidades e suporte nutricional —, que possibilitam ao idoso ser submetido ao tratamento com maiores chances de benefício e menor risco.
Em paralelo, os Cuidados Paliativos são uma abordagem centrada no manejo de sintomas angustiantes e no suporte psicossocial e espiritual, com o objetivo de antecipar, prevenir e reduzir o sofrimento, independentemente do estágio da doença. Devem ser iniciados ao diagnóstico — conforme amplamente recomendada por diretrizes internacionais —, concomitantemente à terapia modificadora de doença, e tornam-se foco principal quando esta não é mais eficaz, apropriada ou desejada.
Apesar das diferenças, as duas disciplinas compartilham princípios fundamentais: ambas priorizam o cuidado centrado no paciente, a tomada de decisão compartilhada, a avaliação de valores e objetivos, e a coordenação interdisciplinar. Os Cuidados Paliativos contribuem com expertise no manejo de sintomas complexos, no apoio à tomada de decisões éticas, na definição de metas de cuidado, no planejamento antecipado e na estimativa prognóstica.
Por sua vez, a geriatria agrega conhecimentos fundamentais relacionados à AGA, ao manejo da fragilidade, da multimorbidade e da polifarmácia, além da avaliação e otimização da funcionalidade, da identificação e do manejo do comprometimento cognitivo e da coordenação de cuidados complexos.
Assim, a Oncogeriatria e os Cuidados Paliativos são disciplinas complementares, não excludentes, e sua integração produz os melhores desfechos para o idoso com câncer.
Complexidade clínica e integração no cuidado ao idoso com câncer
Em pacientes idosos, o acúmulo de múltiplas doenças crônicas, incluindo o câncer, associado às síndromes geriátricas, pode levar à deterioração progressiva da saúde, com perda de funcionalidade e aumento da dependência. Esse processo costuma ser marcado por exacerbações clínicas recorrentes e, muitas vezes, imprevisíveis, que exigem acompanhamento contínuo e cuidadoso.
No contexto dos Cuidados Paliativos e de suporte em idosos com câncer, é essencial considerar as alterações relacionadas ao envelhecimento na farmacocinética e na farmacodinâmica, que influenciam diretamente a resposta aos medicamentos e o risco de efeitos adversos. Além disso, fatores como função orgânica reduzida (por exemplo, doença renal crônica), presença de múltiplas comorbidades e polifarmácia aumentam significativamente a vulnerabilidade desses pacientes às toxicidades dos tratamentos oncológicos.
Diante dessa complexidade, o manejo adequado requer uma abordagem abrangente e sistemática, que inclua a avaliação contínua dos sintomas, do estado geral de saúde, da funcionalidade e das síndromes geriátricas, permitindo um cuidado mais seguro, individualizado e centrado no paciente.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Evite decisões baseadas apenas na idade cronológica: utilize a Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) para determinar a idade biológica e estratificar pacientes em robustos, vulneráveis ou frágeis, orientando a elegibilidade e a intensidade do tratamento.
Baseie o plano terapêutico na funcionalidade e nos valores do paciente: integre os achados da AGA às preferências individuais, garantindo uma tomada de decisão compartilhada e livre de etarismo.
Atue precocemente sobre vulnerabilidades identificadas: implemente intervenções geriátricas (reabilitação, preabilitação, ajuste de medicações e suporte nutricional) e antecipe riscos como polifarmácia, quedas e outras síndromes geriátricas.
Integre Oncogeriatria e Cuidados Paliativos ao longo de toda a trajetória da doença: promova acompanhamento interdisciplinar desde o diagnóstico, com foco no controle de sintomas, na prevenção de complicações e na qualidade do cuidado até o fim de vida.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Antecipar é cuidar melhor. Na prática, integrar a Oncogeriatria antes mesmo do início do tratamento oncológico — e mantê-la ao longo da trajetória — permite identificar fragilidades, prever toxicidades, ajustar condutas e prevenir síndromes geriátricas, como quedas, delirium e polifarmácia. Essa integração é uma forma concreta de garantir que toda pessoa idosa com câncer receba um cuidado de qualidade, respeitoso, efetivo e centrado na pessoa.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Avaliação Geriátrica Ampla (AGA): Processo diagnóstico multidimensional, interdisciplinar e sistematizado, utilizado na geriatria para avaliar a pessoa idosa em suas dimensões clínica, funcional, cognitiva, emocional e social. A AGA integra diferentes instrumentos validados para identificar vulnerabilidades, condições potencialmente reversíveis e riscos de desfechos adversos, com o objetivo de subsidiar a elaboração de um plano de cuidado individualizado, otimizar a tomada de decisão e melhorar desfechos em saúde, incluindo funcionalidade, qualidade de vida e sobrevida. Delirium: Distúrbio agudo, transitório e geralmente reversível, caracterizado pela alteração flutuante da atenção, da cognição e do nível de consciência. Geralmente, secundário à doença orgânica, representando uma disfunção neurológica associada. Etarismo: Preconceito baseado na idade (geralmente contra pessoas idosas) que leva à desvalorização, exclusão ou tratamento desigual. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente em literatura. Fragilidade: Estado clínico caracterizado pela diminuição da reserva fisiológica de múltiplos sistemas, tornando o indivíduo mais vulnerável a estressores e com maior risco de resultados adversos como hospitalização, dependência funcional e morte. Não deve ser confundida com a síndrome de fragilidade. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Multimorbidade: Presença de duas ou mais condições crônicas de saúde em um mesmo indivíduo, sem hierarquia entre elas, que interagem e impactam o cuidado, a funcionalidade e a qualidade de vida. Oncogeriatria: Área de atuação que integra a geriatria e a oncologia, dedicada ao cuidado de pessoas idosas com câncer, considerando a heterogeneidade do envelhecimento e a maior vulnerabilidade dessa população. Envolve a avaliação multidimensional — frequentemente por meio da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) — para subsidiar decisões terapêuticas individualizadas, equilibrando benefícios e riscos das intervenções oncológicas, com foco em desfechos como funcionalidade, qualidade de vida e sobrevida. Polifarmácia: Uso simultâneo de 5 ou mais medicamentos que, embora muitas vezes necessário, aumenta o risco de interações medicamentosas, reações adversas e dificulta a adesão ao tratamento. Quimioterapia: Tratamento oncológico com uso de medicamentos de ação sistêmica que destroem ou inibem o crescimento de células tumorais. Pode ser curativa ou paliativa, e classificada conforme o momento de uso: neoadjuvante (antes) ou adjuvante (após outros tratamentos). Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Terapia modificadora de doença: Todo tratamento que modifica o curso de uma doença, com objetivo de aumento de sobrevida e, idealmente, melhora na qualidade de vida. Não é sinônimo de terapia curativa. Tomada de decisão compartilhada: Processo colaborativo em que profissionais de saúde, pacientes e — quando apropriado — seus familiares ou representantes constroem juntos as decisões sobre o cuidado, integrando evidências clínicas (conhecimento técnico) com os valores, preferências e objetivos de vida do paciente.
Referências bibliográficas
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