Categorias: Avaliação prognóstica, Manejo de sintomas, Tomada de decisão, Manejo de fim de vida, Autor(a): Ana Flávia Figueiredo, farmacêutica paliativista Publicado em: 13/05/2026
Contexto
A desprescrição no fim de vida é um processo sistemático de revisão e suspensão de medicamentos que deixaram de oferecer benefícios clínicos significativos, quando o foco do cuidado passa a ser conforto, controle de sintomas, qualidade de vida e redução do sofrimento. Muitos pacientes em fim de vida permanecem utilizando medicamentos voltados à prevenção de eventos futuros, mesmo quando o tempo necessário para obtenção do benefício terapêutico ultrapassa sua expectativa de vida. Além disso, a polifarmácia pode aumentar riscos de interações medicamentosas, efeitos adversos, desconforto relacionado à administração e dificuldade de adesão. Assim, a desprescrição surge como uma estratégia terapêutica centrada na pessoa, permitindo um cuidado mais seguro e alinhado ao objetivo do cuidado. Nesta #PP, discutiremos essa estratégia de cuidado.
O que é desprescrição?
A desprescrição consiste na retirada planejada, de forma gradual ou imediata, de medicamentos potencialmente inapropriados ou que deixaram de oferecer benefício clínico relevante diante da condição atual do paciente. Não se trata de abandono terapêutico, mas de redefinição das prioridades do cuidado. Em Cuidados Paliativos, a decisão de manter ou suspender um medicamento é dinâmica e deve considerar:
Prognóstico
Objetivo do cuidado
Benefícios esperados
Potenciais danos
Via de administração
Capacidade funcional e de deglutição
Preferências do paciente e da família
Cabe destacar que, para pacientes sob os cuidados da família, a redução do número de medicamentos também pode representar menor custo financeiro, simplificação da rotina de cuidados e diminuição da sobrecarga relacionada à administração das terapias no domicílio.
Quais medicamentos devem ser reavaliados?
Medicamentos com finalidade preventiva geralmente são os principais candidatos à desprescrição no fim de vida, especialmente quando não promovem alívio sintomático imediato ou quando o tempo necessário para obtenção de benefício terapêutico é incompatível com a sobrevida esperada do paciente. Nessas situações, a manutenção de determinadas terapias pode aumentar o risco de eventos adversos, interações medicamentosas e sobrecarga terapêutica, sem impacto significativo na qualidade de vida. Dentre as classes medicamentosas que devem ser reavaliadas, destacam-se:
Estatinas
Vitaminas e suplementos
Hipoglicemiantes de controle rigoroso
Anti-hipertensivos
Antiagregantes plaquetários
Anticoagulantes
Bifosfonatos
Por outro lado, medicamentos com impacto no controle de sintomas costumam permanecer essenciais, uma vez que contribuem diretamente para o conforto e a qualidade de vida. Entre eles, destacam-se opioides, analgésicos, antieméticos, ansiolíticos, antissecretores e sedativos, assim como terapias modificadoras de doença com impacto sintomático, como vasodilatadores na insuficiência cardíaca e broncodilatadores na doença pulmonar obstrutiva crônica. Alguns medicamentos, quando indicada a desprescrição, exigem redução gradual para evitar sintomas de retirada ou descompensações clínicas, como é o caso, por exemplo, dos corticosteroides.
Ou seja, a desprescrição em fim de vida não tem como objetivo reduzir medicamentos indiscriminadamente, mas manter apenas aqueles que apresentam benefício clínico real e proporcional às necessidades do paciente. Após a retirada, é preciso manter o acompanhamento atento dos sintomas e mudanças clínicas.
Comunicação e tomada de decisão compartilhada
A comunicação é uma etapa central da desprescrição. Um caso marcante foi o de um paciente com insuficiência cardíaca avançada que utilizava estatina e apresentava dor musculoesquelética persistente, com impacto importante sobre sua funcionalidade e qualidade de vida. Apesar da suspeita de que o medicamento pudesse estar contribuindo para os sintomas, a família demonstrava grande receio em relação à suspensão, principalmente por se tratar de uma medicação prescrita por um especialista e culturalmente associada à “proteção do coração”.
Diante disso, foi realizada uma conversa cuidadosa e compartilhada com os familiares, explicando o objetivo do cuidado naquele momento da doença, os possíveis efeitos adversos da estatina e a ausência de benefício clínico significativo frente ao prognóstico do paciente. Nas semanas seguintes à suspensão do medicamento, observou-se melhora importante da dor e maior conforto no dia a dia.
Situações como essa reforçam que muitas famílias interpretam a retirada de medicamentos como desistência do tratamento, o que pode gerar insegurança, culpa e sofrimento. Por isso, recomenda-se uma abordagem clara, empática e centrada na tomada de decisão compartilhada, reforçando que o objetivo da desprescrição não é abandonar o cuidado, mas evitar danos e priorizar conforto e qualidade de vida.
Expressões como “Estamos adequando os medicamentos às necessidades deste momento” ou “Queremos manter apenas aquilo que realmente contribui para o conforto e qualidade de vida” podem auxiliar na compreensão do processo.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Revise todos os medicamentos prescritos.
Identifique medicamentos potencialmente inapropriados, tendo em mente o objetivo do cuidado do paciente.
Suspenda gradualmente quando indicado, incluindo o paciente e sua família no processo de tomada de decisão compartilhada.
Monitore sintomas e possíveis efeitos de retirada através da reavaliação contínua, acompanhando mudanças clínicas.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Nem todo medicamento precisa ser mantido apenas porque sempre esteve prescrito. Em Cuidados Paliativos, cada fármaco deve responder a uma pergunta fundamental: “Este medicamento ainda traz benefício real para este paciente neste momento da vida?”. Desprescrever é também uma forma de cuidar e reduzir sofrimento.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Desprescrição: Processo sistemático de retirada de medicamentos desnecessários ou potencialmente prejudiciais em uso por pacientes portadores de doença ameaçadora à vida à medida que a expectativa de vida se reduz. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente em literatura. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte". Opioide: Termo que engloba os alcaloides derivados da papoula (Papaver somniferum), seus análogos sintéticos e as substâncias endógenas que se ligam aos receptores opioides distribuídos por todo o corpo. Como medicamentos, são utilizados principalmente para o controle da dor, mas também podem ser eficazes no alívio de outros sintomas. Polifarmácia: Uso simultâneo de 5 ou mais medicamentos que, embora muitas vezes necessário, aumenta o risco de interações medicamentosas, reações adversas e dificulta a adesão ao tratamento. Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida. Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Sobrevida: Tempo de vida após um determinado marco temporal - por exemplo, sobrevida após diagnóstico de uma doença ou alta hospitalar. Tomada de decisão compartilhada: Processo colaborativo em que profissionais de saúde, pacientes e — quando apropriado — seus familiares ou representantes constroem juntos as decisões sobre o cuidado, integrando evidências clínicas (conhecimento técnico) com os valores, preferências e objetivos de vida do paciente.
Referências bibliográficas
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Morin L, Todd A, Barclay S, Wastesson JW, Kelly F. Preventive drugs in the last year of life of older adults with cancer: is there room for deprescribing? Cancer. 2019;125(14):2309-2317.
Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Consenso Brasileiro de Desprescrição em Idosos. Rio de Janeiro: SBGG; 2022.
Kutner JS, Blatchford PJ, Taylor DH Jr, et al. Safety and benefit of discontinuing statin therapy in the setting of advanced, life-limiting illness. JAMA Internal Medicine. 2015;175(5):691-700.



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