Categorias: Comunicação compassiva, Manejo de sintomas, Manejo de fim de vida, Educação para a morte Autor(a): Ana Carolina Kotinda Bennemann, médica oncologista e paliativista Publicado em: 20/05/2026
Contexto
Embora os sintomas físicos em Cuidados Paliativos tenham sido recorrentemente abordados nos últimos anos, as estratégias para o enfrentamento do sofrimento emocional e existencial ainda demandam mais estudos. A Terapia da Dignidade (TD) é uma psicoterapia breve utilizada para abordar sofrimento emocional e existencial de pessoas próximas ao fim de vida (para saber mais sobre a TD, leia a #PP031 Terapia da Dignidade) e, nos últimos 20 anos, tem sido aplicada e estudada em diversos países.
A Terapia da Dignidade Na Voz de Quem Cuida (TDc) deriva da TD tradicional e se alinha à compreensão dos Cuidados Paliativos como uma abordagem que cuida para além da morte do paciente, alcançando também familiares e cuidadores enlutados. Nesta #PP, discutiremos a TDc e sua importância no cuidado dos que permanecem.
Da Terapia da Dignidade (TD) Tradicional à Terapia da Dignidade Na Voz de Quem Cuida (TDc)
A aplicação da TD, no Brasil e no mundo, tem demonstrado benefícios como aumento do senso de dignidade e propósito, além da redução do sofrimento emocional de pacientes e familiares. Na TD, o terapeuta da dignidade — profissional de saúde treinado nessa abordagem — conversa com o paciente sobre sua trajetória, os momentos mais importantes, as maiores conquistas e os diferentes papéis exercidos durante a vida. Também são abordados os aprendizados construídos ao longo da existência e o legado que desejam deixar: aquilo que gostariam de dizer aos seus entes queridos ou mesmo à humanidade em geral. Esses temas são explorados por meio do protocolo orientador de perguntas da TD, recentemente traduzido e adaptado culturalmente para o português brasileiro.
A partir dessa conversa, o terapeuta da dignidade elabora um pequeno livro com as narrativas do paciente, podendo incluir fotografias, receitas de família, letras de músicas e outros elementos considerados significativos. Esse livreto — chamado de documento-legado — é então entregue ao paciente ou a um familiar por ele escolhido.
Para pacientes que não tiveram a oportunidade de realizar a TD em vida, a intervenção pode acontecer de forma póstuma por meio da TDc. Nessa abordagem, o familiar ou cuidador principal é convidado a responder ao protocolo orientador de perguntas da TDc a partir de suas memórias sobre o paciente já falecido, falando sobre sua trajetória, conquistas, valores e legados. Assim como na TD tradicional, as narrativas compartilhadas dão origem a um documento-legado, construído pelo terapeuta da dignidade a partir das respostas do participante. O material pode incluir fotografias, cartas, receitas, músicas ou outros elementos considerados importantes, tornando-se um registro afetivo da história e da identidade daquela pessoa.
Benefícios da Terapia da Dignidade Na Voz de Quem Cuida (TDc)
O documento-legado produzido por meio da TDc tem demonstrado, em estudos preliminares, potencial para auxiliar na elaboração do luto de familiares, fortalecendo sentimentos de conexão e continuidade dos vínculos. Ao oferecer uma narrativa organizada e validada, a intervenção pode ajudar a transformar a ausência em memória significativa, reduzindo sentimentos de vazio, culpa e desamparo.
A TDc está alinhada a valores centrais dos Cuidados Paliativos, como dignidade, compaixão e continuidade do cuidado. Ainda, reafirma um princípio fundamental: o cuidado não termina com a morte. Ao integrar aspectos existenciais, relacionais e simbólicos, essa abordagem propõe uma prática ética e humanizada, reconhecendo o impacto do adoecimento e da morte para além do corpo do paciente, alcançando também a família e a comunidade em que ele estava inserido.
Terapia da Dignidade Na Voz de Quem Cuida (TDc) no Brasil
O Brasil tem sido pioneiro no estudo dessa ferramenta, em colaboração com pesquisadores de Portugal e do Canadá. Atualmente, diversos estudos sobre a TDc estão em andamento, sugerindo que essa intervenção poderá se tornar uma importante estratégia no manejo do sofrimento de familiares enlutados.
O protocolo orientador de perguntas da TDc já foi traduzido e adaptado culturalmente para uso na população brasileira. Entretanto, a TDc ainda está em fase de consolidação científica, com estudos em andamento avaliando sua factibilidade na prática clínica, aceitabilidade e eficácia.
Sua implantação no Brasil enfrenta alguns desafios, como a dificuldade de falar sobre morte e morrer com a população em geral — temas frequentemente cercados por tabus —, a escassez de profissionais de saúde capacitados para ofertar essa terapia e a limitada incorporação institucional da intervenção nos cenários de cuidado.
Durante o estudo de validação brasileiro, o nome da terapia — inicialmente traduzido do inglês como Terapia da Dignidade Póstuma — precisou ser modificado para Terapia da Dignidade Na Voz de Quem Cuida (TDc), pois familiares demonstraram aversão à palavra “póstuma”, evidenciando o estigma e o desconforto que a temática da morte ainda desperta em nossa sociedade. A nova nomenclatura apresentou ampla aceitação entre os participantes, reforçando o potencial clínico e humano dessa abordagem como estratégia promissora no cuidado ao luto.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Reconheça o familiar ou cuidador enlutado como parte do cuidado. O sofrimento relacionado à perda pode persistir após a morte do paciente e demanda acolhimento e acompanhamento.
Considere intervenções estruturadas para manejo do sofrimento existencial e do luto. Estratégias como a TD e a TDc podem ampliar as possibilidades de cuidado para além do controle de sintomas físicos.
Busque formação específica antes de aplicar a TDc na prática clínica. Por envolver manejo de sofrimento emocional e existencial, a intervenção requer preparo técnico e supervisão adequada.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 O uso da Terapia da Dignidade e da Terapia da Dignidade Na Voz de Quem Cuida na prática clínica, quando realizado de maneira adequada, tem demonstrado benefícios importantes para pacientes e familiares. Buscar literatura sobre o tema e capacitações específicas pode ampliar sua compreensão da abordagem e contribuir para uma aplicação segura, ética e qualificada em diferentes contextos de cuidado.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Dignidade: Princípio que reconhece o valor intrínseco de cada indivíduo, estabelecendo que todas as pessoas devem ser tratadas com respeito, igualdade e liberdade, por meio da garantia de suas necessidades vitais. Documento-legado: Registro afetivo e simbólico produzido ao final da Terapia da Dignidade, que reúne os momentos mais significativos evocados pelo paciente durante a entrevista estruturada, podendo ser compartilhado com pessoas queridas como expressão de sua identidade, valores e história de vida. Fim de vida: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. Alguns locais utilizam este termo como um período de dias a semanas que antecede a morte. Na Escola de Habilidades Paliativas, utilizamos como sinônimo de terminalidade, conforme é mais frequente na literatura. Luto: Vivência natural diante de uma perda de um vínculo significativo, seja ou não por morte. É uma resposta multidimensional, com manifestações emocionais, físicas, sociais, espirituais e comportamentais. Em inglês, três termos distintos costumam ser traduzidos como luto: 1. Bereavement – estado objetivo de perda, decorrente de um vínculo rompido. 2. Grief – resposta emocional e multidimensional à perda. 3. Mourning – expressão pública do luto, mediada por rituais, normas culturais ou práticas espirituais. Em português, luto pode abranger os três sentidos, o que exige atenção à polissemia em contextos clínicos, acadêmicos e culturais. Protocolo orientador de perguntas da Terapia da Dignidade: Instrumento estruturado composto por perguntas abertas utilizadas na Terapia da Dignidade, que orienta a condução da entrevista e serve de base para a elaboração do documento-legado. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual. Terapeuta da dignidade: Profissional de saúde capacitado para conduzir a Terapia da Dignidade. Terapia da Dignidade (TD): Psicoterapia breve voltada a pessoas com doenças ameaçadoras à vida, que busca aliviar o sofrimento emocional e existencial por meio do resgate do sentido, da identidade e do legado pessoal, resultando na criação de um documento-legado. Terapia da Dignidade Na Voz de Quem Cuida (TDc): Modalidade de Terapia da Dignidade (TD) realizada de forma póstuma com familiares ou cuidadores de pessoas falecidas que não tiveram a oportunidade de realizar a TD em vida. Terapia da Dignidade Póstuma: Nome inicialmente utilizado na tradução brasileira da modalidade póstuma da Terapia da Dignidade (TD). Durante o processo de validação no Brasil, o termo “póstuma” gerou desconforto entre familiares e cuidadores, levando à adoção da nomenclatura Terapia da Dignidade na Voz de Quem Cuida (TDc), que apresentou maior aceitação e potencial como estratégia de cuidado no luto.
Referências bibliográficas
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