Categorias: Gestão em cuidados paliativos, Educação em Cuidados Paliativos Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 03/06/2026
Contexto
Seja qual for o caminho profissional escolhido após a graduação, todo médico cuidará de pessoas com doenças ameaçadoras à vida em maior ou menor frequência. Por isso, competências da abordagem paliativa — como comunicação de notícias sensíveis, tomada de decisão compartilhada e manejo de sintomas — deveriam fazer parte da formação de todos os estudantes de Medicina. Ainda assim, o ensino de Cuidados Paliativos na graduação permanece heterogêneo, muitas vezes fragmentado, tardio ou dependente do interesse individual de docentes e estudantes. A literatura aponta que não basta abordar o tema em aulas isoladas. É necessário desenvolver competências ao longo de todo o curso, combinando conhecimento teórico, prática supervisionada, reflexão, contato clínico e avaliação. Nesse contexto, esta #PP discute os desafios e as oportunidades relacionados ao ensino de Cuidados Paliativos na graduação em Medicina.
O que todo médico precisa saber sobre Cuidados Paliativos?
Embora existam diferenças entre os currículos propostos por organizações e sociedades científicas de diferentes países, há notável convergência em torno de alguns domínios centrais. Entre eles, destacam-se:
Princípios dos Cuidados Paliativos
Manejo de sintomas frequentes
Comunicação em situações difíceis
Condução de processos de tomada de decisão compartilhada
Aspectos éticos e legais do cuidado
Reconhecimento do sofrimento em suas múltiplas dimensões
Abordagem interdisciplinar.
Mais do que conteúdos isolados, essas competências representam formas de pensar e exercer a medicina. Saber comunicar uma notícia sensível, discutir o objetivo do cuidado, reconhecer necessidades psicossociais e espirituais ou manejar dor ou dispneia não são habilidades restritas ao paliativista, mas competências necessárias em diferentes cenários assistenciais, como a atenção primária, enfermarias, unidades de terapia intensiva e serviços de urgência e emergência. Por isso, o objetivo da graduação não é formar especialistas em Cuidados Paliativos: é possibilitar que todo médico desenvolva competências paliativas básicas para oferecer um cuidado centrado na pessoa.
Como ensinar Cuidados Paliativos na graduação em Medicina?
Assim como ocorre com outras competências complexas da prática médica, o ensino de Cuidados Paliativos não pode se limitar à transmissão de conhecimento teórico. Embora aulas expositivas contribuam para a compreensão de conceitos fundamentais, o desenvolvimento das competências exige oportunidades de prática supervisionada, reflexão e feedback.
A literatura aponta que estratégias educacionais ativas tendem a produzir melhores resultados. Simulações, roleplay, discussão de casos clínicos, pacientes padronizados, atividades reflexivas e aprendizagem interprofissional estão entre as metodologias mais frequentemente recomendadas. Essas abordagens permitem que os estudantes desenvolvam competências técnicas e relacionais em ambientes seguros, nos quais o erro pode ser discutido e transformado em oportunidade de aprendizagem.
Entretanto, um dos achados mais consistentes dos estudos é a importância do contato com pacientes reais. Vivenciar situações de adoecimento grave, acompanhar conversas difíceis e observar profissionais experientes lidando com incertezas e emoções possibilitam aprendizagens que dificilmente são reproduzidas em sala de aula. Por esse motivo, recomenda-se que o ensino dos Cuidados Paliativos esteja distribuído ao longo da graduação, associado a experiências clínicas supervisionadas e oportunidades estruturadas de reflexão sobre a prática.
Da recomendação à implementação curricular
O ensino de Cuidados Paliativos na graduação médica brasileira vem passando por uma transformação importante. Em levantamento nacional realizado em 2018, apenas 44 das 315 escolas médicas brasileiras (14%) incluíam formalmente conteúdos relacionados aos Cuidados Paliativos em seus currículos. Além disso, observava-se grande heterogeneidade na carga horária, no momento de inserção curricular e nos cenários de aprendizagem oferecidos aos estudantes. Estudos mais recentes mostram que os desafios persistem também no campo da prática, uma vez que menos da metade dos serviços especializados oferece atividades para estudantes de graduação.
Apesar dessas limitações, avanços importantes ocorreram nos últimos anos. Em 2022, as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) passaram a mencionar explicitamente competências relacionadas aos Cuidados Paliativos na formação médica, movimento posteriormente reforçado pelas DCNs de 2025. Esses documentos reconhecem que o cuidado de pessoas com doenças ameaçadoras à vida não é responsabilidade exclusiva de especialistas, mas uma competência necessária ao médico generalista.
Mais do que criar disciplinas específicas, os debates atuais apontam para a necessidade de uma integração longitudinal dos Cuidados Paliativos ao longo da graduação. Afinal, competências como comunicação, manejo de sintomas, abordagem interdisciplinar e cuidado centrado na pessoa não pertencem a uma única especialidade, mas atravessam toda a prática médica.
A incorporação dos Cuidados Paliativos à graduação médica representa a busca por competências que qualificam o cuidado em qualquer cenário assistencial. O desafio atual já não é definir o que deve ser ensinado, mas garantir que todos os estudantes tenham oportunidades reais de desenvolver essas competências ao longo de sua trajetória formativa.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Identifique oportunidades para abordar competências em Cuidados Paliativos nas atividades clínicas e disciplinas já existentes.
Combine aulas teóricas com metodologias ativas, como simulações, discussão de casos e atividades reflexivas.
Valorize experiências clínicas supervisionadas como espaço privilegiado para o desenvolvimento de competências paliativas.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 A literatura mostra que o contato com pacientes reais é um dos elementos mais importantes para o aprendizado em Cuidados Paliativos. Na minha experiência como docente, isso se confirma diariamente. Os estudantes aprendem não apenas com o que ensinamos, mas também observando como nos comunicamos, tomamos decisões e cuidamos das pessoas. Por isso, experiências clínicas supervisionadas e bons modelos profissionais são componentes tão importantes quanto qualquer conteúdo curricular.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Abordagem interdisciplinar: Trabalho colaborativo entre profissionais de diferentes áreas para atender às múltiplas necessidades do paciente e da família. Há o compartilhamento de informações e experiências que permite a tomada de decisões conjuntas e a construção de um plano de cuidados colaborativo. Se diferencia do atendimento multidisciplinar por prever a estreita interação entre os membros da equipe, mesmo que não no momento do atendimento.
Cuidado centrado na pessoa: Abordagem do cuidado em saúde que coloca a pessoa - e não apenas sua condição clínica - no centro do processo de cuidado. Propõe que o serviço de saúde se ajuste às necessidades, valores e preferências do paciente, promovendo uma parceria ativa entre equipe, paciente, familiares e cuidadores. Essa abordagem busca garantir que todos sejam respeitados, bem informados, engajados nas decisões, apoiados e tratados com dignidade, compaixão e empatia.
Dispneia: Sensação subjetiva de dificuldade ou desconforto para respirar, com intensidade variável. Resulta da interação de fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais, podendo desencadear respostas físicas e emocionais.
Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores.
Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”.
Manejo de sintomas: Habilidade paliativa que envolve a avaliação, prevenção e tratamento de sintomas físicos, psicológicos, sociais e espirituais, por meio de intervenções farmacológicas e não farmacológicas, com o objetivo de aliviar o sofrimento e promover conforto e qualidade de vida.
Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte".
Paliativista: Profissional de saúde especialista em Cuidados Paliativos. No Brasil, o reconhecimento da especialização em Cuidados Paliativos se dá através da prova de título - promovida pela Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), em parceria com a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), anualmente para médicos(as) e enfermeiros(as) - ou da residência médica ou multiprofissional - que pode ser feita por profissionais da Enfermagem, Farmácia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Nutrição, Psicologia, Serviço Social e Terapia Ocupacional.
Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
Tomada de decisão compartilhada: Processo colaborativo em que profissionais de saúde, pacientes e — quando apropriado — seus familiares ou representantes constroem juntos as decisões sobre o cuidado, integrando evidências clínicas (conhecimento técnico) com os valores, preferências e objetivos de vida do paciente.Referências bibliográficas
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Brasil. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 3, de 3 de novembro de 2022. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina e dá outras providências.
Brasil. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES nº 4, de 29 de maio de 2025. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Graduação em Medicina.
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