Categorias: Manejo de fim de vida, Manejo de sintomas Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 24/06/2026
Contexto
O delirium é a complicação neuropsiquiátrica mais frequente em pacientes com doenças ameaçadoras à vida e uma das síndromes mais subdiagnosticadas na prática clínica. Em pacientes acompanhados por equipes de Cuidados Paliativos, sua prevalência aumenta progressivamente à medida que se aproxima a morte, podendo acometer a maioria dos pacientes nas últimas horas ou dias de vida.
Apesar de frequente, o delirium continua sendo confundido com depressão, demência, ansiedade, fadiga ou, simplesmente, com parte esperada da terminalidade. Reconhecê-lo precocemente é importante não apenas pela possibilidade de reversão em alguns casos, mas também pelo impacto que tem no sofrimento do paciente, da família e da equipe assistencial. Nesta #PP, discutiremos os principais desafios relacionados ao seu reconhecimento, à investigação de suas causas e ao manejo dessa síndrome em pacientes com doenças ameaçadoras à vida.
O que é delirium?
O delirium é uma síndrome caracterizada por alteração aguda e flutuante da atenção e da consciência, acompanhada de comprometimento cognitivo. O déficit de atenção é considerado sua característica central.
Na prática, o delirium pode ser entendido como uma forma de falência cerebral aguda desencadeada por uma ou mais condições clínicas subjacentes. Além das alterações cognitivas, os pacientes podem apresentar desorientação, alterações do ciclo sono-vigília, pensamento desorganizado, ilusões, alucinações e mudanças comportamentais. Como seus sintomas costumam oscilar ao longo do dia, não é incomum que períodos de aparente lucidez alternem-se com momentos de confusão, dificultando seu reconhecimento.
Assim como a insuficiência respiratória sinaliza falência pulmonar ou a insuficiência renal sinaliza falência dos rins, o delirium deve ser encarado como um marcador de gravidade clínica. Sua presença está associada a maior morbidade, maior mortalidade e pior prognóstico, especialmente em pacientes com doenças ameaçadoras à vida. Em Cuidados Paliativos, sua ocorrência frequentemente acompanha a progressão da doença e pode representar um sinal de proximidade da morte.
Identificando o delirium
O reconhecimento do delirium exige vigilância ativa. Como os pacientes raramente conseguem relatar espontaneamente seus sintomas, observar mudanças agudas no padrão de atenção, interação, nível de consciência ou comportamento costuma ser mais útil do que esperar por uma queixa específica. Por isso, recomenda-se que pacientes com doenças avançadas sejam avaliados rotineiramente quanto à presença dessa síndrome.
Embora muitas pessoas associem o delirium à agitação intensa, o subtipo mais frequente em Cuidados Paliativos é o delirium hipoativo. Nesses casos, o paciente apresenta sonolência, lentificação psicomotora, apatia, redução da interação e diminuição da responsividade. Por ser silencioso, esse subtipo frequentemente passa despercebido ou é confundido com depressão, fadiga ou evolução natural da doença.
O diagnóstico do delirium é clínico, mas instrumentos de rastreio podem auxiliar sua identificação, especialmente por profissionais menos familiarizados com a síndrome. Ferramentas como o Confusion Assessment Method (CAM) avaliam características centrais do quadro, como início agudo, curso flutuante, déficit de atenção e alterações do pensamento ou do nível de consciência. Independentemente da ferramenta utilizada, o mais importante é incorporar a avaliação sistemática do estado mental à rotina assistencial, particularmente diante de mudanças agudas de comportamento ou cognição.
É possível prevenir o delirium
Nem todo episódio de delirium pode ser prevenido, especialmente em vigência de múltiplos fatores de risco. Ainda assim, diversas intervenções simples podem reduzir fatores desencadeantes e diminuir a ocorrência ou a gravidade da síndrome.
A prevenção começa pela identificação de fatores potencialmente modificáveis. Revisões periódicas da prescrição medicamentosa, controle adequado da dor, correção de distúrbios metabólicos, tratamento da constipação (veja mais sobre esse tema na #PP034 Constipação) e da retenção urinária, além da manutenção de hidratação adequada, podem contribuir para reduzir o risco de delirium.
Medidas não farmacológicas também desempenham papel importante. Ambientes tranquilos, preservação do ciclo sono-vigília, presença de familiares, uso de óculos ou aparelhos auditivos quando necessários, manutenção da mobilidade e da funcionalidade sempre que possível e estratégias de reorientação frequente ajudam a manter a conexão do paciente com o ambiente. Entre essas estratégias, destacam-se informar regularmente a data e o horário e favorecer a entrada de luz natural nos ambientes. Embora as evidências específicas em Cuidados Paliativos ainda sejam limitadas, essas intervenções apresentam baixo risco e potencial benefício, além de demonstrarem resultados positivos em outras populações.
Como manejar o delirium?
Uma vez identificado o delirium, o objetivo deve ser, quando possível, tratar a causa base e sempre reduzir o sofrimento associado à síndrome, com a intenção de preservar a segurança e a capacidade de interação do paciente. Para isso, medidas não farmacológicas continuam sendo fundamentais: ambientes tranquilos, reorientação frequente, presença de pessoas familiares e correção de fatores agravantes podem reduzir a intensidade dos sintomas e o desconforto relacionado ao quadro.
Apesar do uso disseminado de antipsicóticos na prática clínica, as evidências que sustentam seu benefício para o tratamento do delirium permanecem limitadas. De forma geral, esses medicamentos não devem ser utilizados com o objetivo de “tratar o delirium“, mas podem ser considerados para controle de sintomas específicos, especialmente quando há alucinações, delírios ou agitação associados a sofrimento significativo ou risco para o paciente e para terceiros.
Além do impacto sobre o paciente, o delirium costuma ser extremamente angustiante para familiares e profissionais de saúde. Explicar a natureza da síndrome, alinhar expectativas e oferecer suporte emocional são intervenções tão importantes quanto qualquer tratamento farmacológico. Nos casos de delirium refratário associado a sofrimento intolerável, particularmente nas fases finais da vida, a sedação paliativa pode ser considerada como estratégia terapêutica proporcional e eticamente adequada — veja mais sobre esse tema na PP051 Sedação paliativa.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Suspeite de delirium diante de qualquer mudança aguda ou flutuante do comportamento, da atenção ou do nível de consciência.
Revise regularmente medicamentos e outros fatores potencialmente precipitantes.
Implemente medidas não farmacológicas de prevenção e manejo, como reorientação frequente, preservação do sono e manutenção da funcionalidade.
Explique à família a natureza da síndrome e alinhe expectativas quanto às possibilidades de reversão e aos objetivos do tratamento.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Uma das perguntas mais importantes diante de um episódio de delirium não é apenas "o que está causando isso?", mas também "o que ganharíamos se conseguíssemos revertê-lo?". Em alguns pacientes, a reversão pode significar recuperar a capacidade de se comunicar, participar de decisões ou interagir com pessoas importantes. Em outros, especialmente na proximidade da morte, intervenções agressivas podem trazer mais ônus do que benefício. Avaliar o potencial de reversão à luz dos objetivos do cuidado ajuda a equilibrar investigação, tratamento e conforto.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Ansiedade: Estado afetivo caracterizado por apreensão, tensão e antecipação de perigo, com componentes emocionais, físicos e cognitivos. Pode ser uma resposta adaptativa a situações de estresse, mas torna-se patológica quando é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento cotidiano.
Antipsicótico: Grupo de medicamentos utilizados principalmente no tratamento de sintomas psicóticos, como delírios e alucinações. Também podem ser empregados no manejo de náuseas, delirium, agitação, ansiedade e outros sintomas, dependendo de suas propriedades farmacológicas.
Confusion Assessment Method (CAM): Instrumento clínico de rastreio desenvolvido em 1990 por Dra. Sharon Inouye e colegas para auxiliar a identificação do delirium. Baseia-se na avaliação de quatro características: início agudo e curso flutuante, déficit de atenção, pensamento desorganizado e alteração do nível de consciência.
Constipação: Evacuação infrequente (menos de três vezes por semana), com esforço excessivo, fezes endurecidas ou sensação de esvaziamento incompleto.
Delírio: Condição na qual há alteração do juízo de realidade proveniente de um pensamento patológico, porém a lucidez da consciência, atenção e memória permanecem preservadas. Geralmente associado a patologias psiquiátricas.
Delirium: Distúrbio agudo, transitório e geralmente reversível, caracterizado pela alteração flutuante da atenção, da cognição e do nível de consciência. Geralmente, secundário à doença orgânica, representando uma disfunção neurológica associada.
Demência: Síndrome caracterizada por declínio progressivo de uma ou mais funções cognitivas, como memória, linguagem, atenção, funções executivas ou habilidades visuoespaciais, em intensidade suficiente para comprometer a funcionalidade e a independência do indivíduo.
Depressão: Transtorno psiquiátrico caracterizado por humor deprimido e/ou perda de prazer (anedonia) de forma persistente por pelo menos duas semanas.
Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores.
Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”.
Fadiga: Sensação subjetiva e persistente de cansaço, que pode ser física, emocional e/ou cognitiva. Caracteriza-se por ser desproporcional ao esforço realizado, não melhorar com repouso ou sono e interferir negativamente nas atividades da vida cotidiana.
Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS.
Lucidez: Estado de consciência em que o indivíduo demonstra percepção adequada da realidade externa e interna, com capacidade de compreender o que ocorre ao seu redor e responder de forma voluntária, coerente e consciente aos estímulos. No contexto clínico, é frequentemente utilizado no exame do estado mental, por exemplo: *“paciente lúcido e orientado no tempo e no espaço”*.
Objetivo do cuidado: Objetivo a ser alcançado com o tratamento, definido com base nos valores e preferências do paciente por meio de um processo de tomada de decisão compartilhada. Exemplos de objetivos do cuidado incluem: "cura da doença", "prolongamento da vida a qualquer custo", "manutenção ou melhoria da funcionalidade", "prolongamento da vida sem medidas que causem sofrimento", "promoção da qualidade de vida" e "uma boa morte".
Prognóstico: Previsão do curso ou do resultado provável de uma doença, condição ou tratamento, que estima a trajetória futura da saúde de um indivíduo, com espectro amplo, não limitado à estimativa de sobrevida.
Sedação paliativa: Redução intencional e monitorada do nível de consciência de paciente com doença ameaçadora à vida em vigência de sintoma refratário, seja ele físico, psicoemocional ou existencial.
Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
Terminalidade: Termo que define o último período da vida e fase mais avançada de uma doença, em que a saúde não pode ser recuperada. É marcado especialmente pelo declínio funcional do paciente e pela incurabilidade da doença. Na literatura, está associado aos 6 últimos meses de vida, embora cada vez mais seja entendido não como um marcador de tempo, mas de estado de saúde. A maior parte da literatura considera terminalidade como sinônimo de fim de vida, embora algumas correntes façam distinção entre esses dois termos. Na Escola de Habilidades Paliativas, esses termos são utilizados como sinônimos.Referências bibliográficas
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Rosen JH, Bieber E, Matta SE, Sayde GE, Fedotova NO, deVries J, et al. Hypoactive Delirium: Differential Diagnosis, Evaluation, and Treatment. Prim Care Companion CNS Disord. 2024;26(1):23f03602.
Inouye SK, van Dyck CH, Alessi CA, Balkin S, Siegal AP, Horwitz RI. Clarifying confusion: The Confusion Assessment Method. A new method for detection of delirium. Ann Intern Med. 1990;113(12):941-948.


