Categorias: Manejo de sintomas Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 08/07/2026
Contexto
Embora tradicionalmente associada ao câncer, a dor é um dos sintomas mais frequentes entre pessoas com doenças crônicas não-oncológicas acompanhadas em Cuidados Paliativos, como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal crônica e doenças neurológicas. Nesses pacientes, o manejo da dor crônica costuma representar um dos maiores desafios da prática clínica, exigindo acompanhamento longitudinal e decisões terapêuticas que vão muito além da prescrição de um analgésico.
A dor crônica não-oncológica é uma condição clínica complexa, resultante da interação entre mecanismos biológicos, psicológicos e sociais. Por isso, o sucesso terapêutico depende menos da escolha do analgésico e mais da compreensão dos mecanismos envolvidos no quadro doloroso e de seu impacto na vida da pessoa. Apesar disso, grande parte das discussões sobre o tema concentra-se nos medicamentos disponíveis, enquanto pouca atenção é dada ao raciocínio que deve orientar a sua escolha. É justamente sobre a construção desse plano terapêutico — desde a avaliação inicial até a definição das estratégias terapêuticas e seu acompanhamento — que trata esta #PP.
Dor crônica: mais do que uma questão de tempo
A dor é definida pela International Association for the Study of Pain (IASP) como uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a dano tecidual real ou potencial. Tradicionalmente, considera-se dor crônica aquela que persiste por mais de três meses ou além do tempo esperado para cicatrização. Entretanto, esse critério temporal, embora útil para fins de definição, não é suficiente para explicar a cronificação da dor.
Atualmente, compreende-se que a dor crônica resulta de alterações persistentes nos mecanismos de processamento da dor, que fazem com que ela passe a se comportar como uma condição clínica própria, e não apenas como um sintoma prolongado. Entre esses mecanismos, destaca-se a dor nociplástica, decorrente de alterações na nocicepção sem evidência de lesão tecidual ou doença do sistema nervoso somatossensorial que expliquem plenamente os sintomas.
Sob a perspectiva fisiopatológica, a dor pode ser classificada em dor nociceptiva, decorrente da ativação dos nociceptores por lesão tecidual; dor neuropática, causada por lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial (tema abordado em profundidade na #PP052 Dor neuropática); e dor nociplástica. Na prática, esses mecanismos frequentemente coexistem, e sua identificação é fundamental para orientar a construção do plano terapêutico.
A avaliação orienta o tratamento
Compreender os mecanismos da dor é apenas o primeiro passo. A construção do plano terapêutico exige uma avaliação ampla, capaz de identificar não apenas as características da dor, mas também seu impacto na vida da pessoa. Além da intensidade, localização, qualidade e fatores desencadeantes, é fundamental investigar como a dor interfere na funcionalidade, no humor, no sono, no trabalho, nas relações interpessoais e nas atividades cotidianas. Em muitos casos, essas informações orientam melhor o tratamento do que a intensidade da dor isoladamente.
A avaliação também deve buscar a causa da dor, revisar tratamentos prévios — incluindo resposta, efeitos adversos e motivos para sua interrupção — e identificar red flags que indiquem a necessidade de investigação complementar, encaminhamento ao especialista ou atendimento de emergência. Exames laboratoriais e de imagem devem ser solicitados apenas quando houver indicação clínica, evitando sua utilização indiscriminada, já que alterações estruturais nem sempre explicam a intensidade dos sintomas ou seu impacto na qualidade de vida. A coleta dessas informações pode ser organizada por roteiros estruturados, como OLD CARTS, SOCRATES ou PQRSTU. O mais importante, porém, não é o acrônimo utilizado, mas garantir uma avaliação sistemática e centrada na pessoa.
Ao final da avaliação, o profissional deve ser capaz de responder a algumas perguntas fundamentais:
Qual é o mecanismo predominante da dor?
Existe uma causa tratável? Há fatores que perpetuam ou amplificam os sintomas?
O paciente pode ser acompanhado na Atenção Primária à Saúde (APS) ou necessita de cuidado especializado?
Essas respostas são a base para a construção de um plano terapêutico individualizado. A maioria das pessoas com dor crônica pode iniciar seu tratamento na APS, desde que seja submetida a uma avaliação clínica abrangente e tenha acompanhamento longitudinal. O encaminhamento para serviços especializados deve ser reservado para situações de maior complexidade, como necessidade de tratamento intervencionista da dor, dúvidas diagnósticas ou esquemas terapêuticos complexos.
Plano terapêutico não se resume a medicamentos
Com a avaliação concluída, é hora de construir o plano terapêutico. O primeiro passo é alinhar expectativas com a pessoa que convive com a dor crônica. Na maioria dos casos, o foco não é eliminar completamente a dor, mas reduzir seu impacto sobre a funcionalidade, favorecer a participação nas atividades do cotidiano e melhorar a qualidade de vida. Essas metas devem ser definidas de forma compartilhada, respeitando os valores e as prioridades do paciente.
A educação do paciente é parte essencial desse processo. Compreender os mecanismos da dor, reconhecer fatores que perpetuam os sintomas e entender que a recuperação costuma ser gradual favorecem a adesão ao tratamento. Também é fundamental abordar condições que amplificam a experiência dolorosa, como insônia (tema discutido na #PP042 Insônia), ansiedade, depressão e sedentarismo.
O tratamento da dor deve ser multimodal, combinando diferentes estratégias de acordo com os mecanismos envolvidos, os objetivos terapêuticos e as preferências da pessoa. Medidas não farmacológicas — como exercício físico, reabilitação, intervenções psicológicas e estratégias de autocuidado — constituem a base do manejo e, quando necessário, podem ser associadas ao tratamento medicamentoso. A escolha das intervenções, farmacológicas ou não, deve ser orientada pelo mecanismo predominante da dor, e não apenas pelo diagnóstico da doença. Casos selecionados podem se beneficiar de programas estruturados de reabilitação ou de tratamento intervencionista da dor. Independentemente da estratégia adotada, o plano terapêutico deve ser reavaliado periodicamente, considerando não apenas a intensidade da dor, mas também a evolução da funcionalidade, da qualidade de vida, da adesão ao tratamento e da ocorrência de efeitos adversos.
Tratar a dor crônica não significa apenas escolher o analgésico mais adequado, mas sim construir um plano terapêutico individualizado, baseado na compreensão dos mecanismos da dor, nas metas compartilhadas com o paciente e na combinação de diferentes estratégias de tratamento. Assim, a pergunta deixa de ser “qual remédio devo prescrever?” e passa a ser “qual plano terapêutico esta pessoa precisa?” — exatamente a perspectiva proposta pelo Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP).

Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Identifique o mecanismo predominante da dor antes de definir qualquer estratégia terapêutica.
Avalie sistematicamente o impacto da dor sobre a funcionalidade, o sono, o humor e a qualidade de vida.
Construa objetivos terapêuticos compartilhados com o paciente, priorizando ganhos funcionais em vez da eliminação completa da dor.
Reavalie periodicamente o plano terapêutico e ajuste as intervenções de acordo com a resposta clínica, a adesão ao tratamento e a ocorrência de efeitos adversos.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Quando uma pessoa procura atendimento por dor crônica, ela geralmente espera sair da consulta com uma receita. Procure inverter essa lógica: antes de decidir qual medicamento prescrever, dedique tempo para compreender como a dor interfere em sua vida e o que ela espera recuperar com o tratamento. O alinhamento de expectativas é fundamental para o sucesso terapêutico — especialmente para que ele seja um sucesso para quem sente a dor.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Analgésico: Grupo de medicamentos utilizados para aliviar ou controlar a dor por diferentes mecanismos de ação, incluindo a modulação da nocicepção, da inflamação ou do processamento da dor no sistema nervoso. Ansiedade: Estado afetivo caracterizado por apreensão, tensão e antecipação de perigo, com componentes emocionais, físicos e cognitivos. Pode ser uma resposta adaptativa a situações de estresse, mas torna-se patológica quando é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento cotidiano. Atenção Primária à Saúde (APS): De acordo com o Ministério da Saúde, é o primeiro nível de atenção em saúde, caracterizado por um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo, que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação e a redução de danos. Trata-se da principal porta de entrada ao SUS e do centro de comunicação entre toda a Rede de Atenção à Saúde. O modelo brasileiro de APS é a Estratégia Saúde da Família (ESF), organizada a partir de equipes de Saúde da Família (eSF) que atuam nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) nos municípios de todo o país. Depressão: Transtorno psiquiátrico caracterizado por humor deprimido e/ou perda de prazer (anedonia) de forma persistente por pelo menos duas semanas. Dor: De acordo com a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), é “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada a uma lesão tecidual real ou potencial, ou descrita nos termos de tal lesão”. Dor crônica: Dor que persiste ou recorre por período superior a três meses, podendo manter-se independentemente da lesão inicial e estar associada a alterações neurobiológicas, emocionais e funcionais. Dor neuropática: Dor causada por lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial, caracterizada por sintomas como queimação, choque elétrico, formigamento, alodínia e hiperalgesia. Dor nociceptiva: Dor resultante da ativação de nociceptores periféricos por lesão tecidual real ou potencial, geralmente associada a processos inflamatórios, mecânicos ou isquêmicos. Dor nociplástica: Dor decorrente de alteração no processamento da nocicepção, sem evidência de lesão tecidual suficiente para explicar a dor nem de lesão ou doença do sistema nervoso somatossensorial que a justifique. Efeito adverso: Efeito nocivo e não intencional decorrente do uso de um medicamento ou intervenção em saúde, que ocorre nas doses habitualmente utilizadas para prevenção, diagnóstico ou tratamento de doenças. Diferencia-se do efeito colateral por necessariamente implicar dano ou prejuízo ao paciente. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Insônia: Distúrbio que compromete a qualidade e/ou a quantidade do sono, com consequente redução da capacidade de realizar as atividades cotidianas. Método Clínico Centrado na Pessoa (MCCP): Abordagem do cuidado em saúde que coloca a pessoa - e não apenas sua condição clínica - no centro do processo de cuidado. Propõe que o serviço de saúde se ajuste às necessidades, valores e preferências do paciente, promovendo uma parceria ativa entre equipe, paciente, familiares e cuidadores. Essa abordagem busca garantir que todos sejam respeitados, bem informados, engajados nas decisões, apoiados e tratados com dignidade, compaixão e empatia. Nocicepção: Processo fisiológico de detecção, transmissão e processamento de estímulos potencialmente lesivos pelo sistema nervoso, podendo ocorrer na ausência da experiência consciente de dor. Nociceptor: Terminação nervosa sensorial especializada na detecção de estímulos potencialmente lesivos, como estímulos mecânicos, térmicos ou químicos, iniciando o processo de nocicepção. OLD CARTS: Mnemônico clínico utilizado para a avaliação sistemática da dor, permitindo uma abordagem estruturada, reprodutível e centrada na vivência do paciente. PQRSTU, SOCRATES e OLD CARTS são ferramentas equivalentes para a avaliação clínica da dor. Cada letra corresponde a uma dimensão da experiência dolorosa, conforme: O: Onset (Início) L: Location (Localização) D: Duration (Duração) C: Character (Característica) A: Aggravating factors (Fatores de piora) R: Relieving factors (Fatores de alívio) T: Timing (Padrão temporal) S: Severity (Intensidade) PQRSTU: Mnemônico clínico utilizado para a avaliação sistemática da dor, permitindo uma abordagem estruturada, reprodutível e centrada na vivência do paciente. Cada letra corresponde a uma dimensão da experiência dolorosa, conforme: P: Provocadores / Paliativos Q: Qualidade R: Região / Irradiação S: Severity (Intensidade) T: Tempo / Duração U: Understanding (Compreensão) Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Red flag: Termo em inglês equivalente a “sinal de alarme”, cuja presença sugere gravidade e demanda investigação ou intervenção imediata. Sedentarismo: Condição caracterizada pela prática insuficiente de atividade física para atender às recomendações de saúde, associada à redução do condicionamento físico, perda de funcionalidade e piora de diversos desfechos em saúde, incluindo a dor crônica. Na Escola de Habilidades Paliativas, os termos sedentarismo e inatividade física são utilizados de forma intercambiável, por não haver prejuízo à compreensão dos conceitos abordados. Sistema nervoso somatossensorial: Sistema responsável pela percepção de estímulos como dor, tato, temperatura, pressão e propriocepção, envolvendo vias periféricas e centrais. SOCRATES: Mnemônico clínico utilizado para a avaliação sistemática da dor, permitindo uma abordagem estruturada, reprodutível e centrada na vivência do paciente. PQRSTU, SOCRATES e OLD CARTS são ferramentas equivalentes para a avaliação clínica da dor. Cada letra corresponde a uma dimensão da experiência dolorosa, conforme: S: Site (Localização) O: Onset (Início) C: Character (Característica) R: Radiation (Irradiação) A: Associated symptoms (Sintomas associados) T: Time course (Evolução temporal) E: Exacerbating / Relieving factors (Fatores de piora e alívio) S: Severity (Intensidade) Tratamento intervencionista da dor: Conjunto de procedimentos minimamente invasivos, guiados por conhecimento anatômico ou métodos de imagem, destinados ao diagnóstico ou tratamento da dor por meio da administração de medicamentos, bloqueios nervosos, neuromodulação ou outras técnicas.
Referências bibliográficas
Raja SN, Carr DB, Cohen M, et al. The revised International Association for the Study of Pain definition of pain: concepts, challenges, and compromises. Pain. 2020;161(9):1976-1982.
Fallon M, Bennett MI, Kaasa S, eds. Oxford Textbook of Palliative Medicine. 6th ed. Oxford: Oxford University Press; 2024.
Darnall BD, Hooten WM. Evaluation of chronic non-cancer pain in adults. In: UpToDate. Waltham, MA: UpToDate. Acesso em: jul. 2026.
Hooten WM, Darnall BD. Approach to the management of chronic non-cancer pain in adults. In: UpToDate. Waltham, MA: UpToDate. Acesso em: jul. 2026.


