Categorias: Manejo de sintomas Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 29/07/2026
Contexto
A dispneia é um dos sintomas mais prevalentes em pessoas com doenças ameaçadoras à vida e é compreendida como uma experiência multidimensional. Sua presença está associada a maior sofrimento, pior qualidade de vida, maior procura por serviços de emergência e maior sobrecarga para familiares e cuidadores. Apesar disso, ainda é comum que seu manejo seja limitado à oferta de oxigênio ou ao tratamento da doença de base. O alívio desse sintoma exige uma abordagem sistemática, que combine investigação das causas reversíveis, medidas não farmacológicas e tratamento farmacológico direcionado ao sofrimento da pessoa. Esta #PP apresenta os princípios que orientam essa abordagem.
Dispneia é um sintoma, não um diagnóstico
A dispneia é definida como uma experiência subjetiva de desconforto respiratório, cuja intensidade nem sempre corresponde à gravidade das alterações fisiológicas. Assim como ocorre com a dor, o relato do paciente é o padrão-ouro para sua avaliação.
A percepção da dispneia resulta da interação entre mecanismos fisiológicos, fatores psicológicos, contexto social e experiências prévias. Por isso, duas pessoas com a mesma saturação de oxigênio ou a mesma doença pulmonar podem apresentar níveis completamente diferentes de sofrimento.
Ao avaliar um paciente com dispneia, deve-se responder algumas perguntas:
A dispneia surgiu de forma aguda ou progressiva?
Há evidências de causas potencialmente reversíveis, como broncoespasmo, infecção, insuficiência cardíaca, anemia, derrame pleural ou tromboembolismo pulmonar?
Em quais situações ela ocorre? Apenas aos esforços ou também em repouso?
Qual é o impacto sobre a funcionalidade e sobre as atividades que o paciente considera importantes?
Há sintomas associados, como ansiedade, tosse ou dor torácica?
Essas informações permitem caracterizar o sintoma quanto à intensidade, evolução temporal, fatores desencadeantes, de alívio e sintomas associados. Também orientam a investigação da etiologia e ajudam a identificar causas potencialmente reversíveis.
As possibilidades diagnósticas são numerosas e variam conforme a doença de base. Em pessoas com câncer, mecanismos diretamente relacionados ao tumor ou ao seu tratamento são frequentes, enquanto, nas demais condições, predominam outras causas clínicas. Organizar essas etiologias facilita o raciocínio diagnóstico e ajuda a identificar intervenções que podem aliviar a dispneia.

Sempre que possível, deve-se tratar a causa reversível identificada. Entretanto, o tratamento etiológico e o controle sintomático não são etapas sequenciais: ambos devem ser instituídos de forma concomitante, de acordo com as necessidades do paciente.
Oxigênio nem sempre é a resposta
O manejo da dispneia exige reconhecer que a sensação de falta de ar não depende exclusivamente da presença de hipoxemia. Em pacientes sem hipoxemia, o uso rotineiro de oxigênio suplementar não demonstra benefício consistente no alívio da dispneia quando comparado ao ar ambiente. Nesses casos, medidas simples podem produzir alívio semelhante.
O direcionamento de um ventilador portátil ou de um leque para o rosto estimula receptores do nervo trigêmeo e reduz a percepção da falta de ar em muitos pacientes. Posicionamento, técnicas respiratórias, conservação de energia e reabilitação pulmonar também fazem parte do tratamento e devem ser associados às demais medidas de controle sintomático. Além de reduzir a intensidade da dispneia, essas estratégias aumentam a autonomia da pessoa e oferecem recursos para que ela consiga lidar com novos episódios de dispneia com maior segurança.
Opioide não é só pra dor
Existe receio frequente quanto ao uso de opioides para tratamento da dispneia, principalmente pelo medo de depressão respiratória. No entanto, quando utilizados em doses baixas e titulados de forma adequada, eles reduzem a percepção da falta de ar sem produzir piora clinicamente relevante da função respiratória. A morfina permanece como o medicamento com maior experiência clínica para esse objetivo. Seu benefício parece decorrer da redução da resposta central ao desconforto respiratório e da diminuição da demanda ventilatória associada ao sofrimento.
Já os benzodiazepínicos não tratam diretamente a dispneia. Seu uso deve ser reservado para situações em que exista ansiedade importante associada ou quando outras medidas já foram empregadas e o sofrimento persiste.
Nos casos de dispneia refratária, isto é, quando todas as medidas disponíveis falharam em aliviar um sofrimento intenso, pode ser necessário discutir intervenções mais avançadas, incluindo sedação paliativa (para mais sobre o tema, leia a #PP051 Sedação paliativa).
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Avalie a dispneia a partir do relato do paciente, e não apenas da saturação de oxigênio.
Investigue causas potencialmente reversíveis sem retardar o controle sintomático.
Associe medidas não farmacológicas ao tratamento medicamentoso, como ventilador portátil, posicionamento e técnicas respiratórias e de conservação de energia.
Utilize opioides de forma criteriosa quando houver dispneia, mesmo na ausência de dor.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡Um dos erros mais frequentes é interpretar a dispneia apenas como um problema respiratório. Muitas vezes, o maior componente do sofrimento está relacionado ao medo de sufocar, à perda de autonomia ou à ansiedade desencadeada pela sensação de falta de ar. Permanecer ao lado do paciente, transmitir segurança, orientar a respiração e explicar o que está acontecendo podem aliviar tanto quanto um medicamento.
Glossário Paliativo 🗺
O glossário paliativo traz os principais termos que você precisa conhecer em cuidados paliativos. A cada edição da Pílula Paliativa você encontrará neste espaço os termos citados.
Ansiedade: Estado afetivo caracterizado por apreensão, tensão e antecipação de perigo, com componentes emocionais, físicos e cognitivos. Pode ser uma resposta adaptativa a situações de estresse, mas torna-se patológica quando é persistente, desproporcional e interfere no funcionamento cotidiano. Autonomia: Princípio bioético que define a capacidade do sujeito de se autodeterminar, decidir por si próprio. Broncoespasmo: Contração da musculatura lisa dos brônquios, levando ao estreitamento das vias aéreas e causando aumento da resistência ao fluxo de ar. Pode manifestar-se por dispneia, sibilância, tosse e sensação de aperto no peito. Conservação de energia: Conjunto de estratégias que visam otimizar o uso da energia corporal para preservar a independência e o conforto durante as atividades do cotidiano. Envolve o planejamento de tarefas, o uso de pausas programadas, a priorização de atividades significativas e o uso de dispositivos auxiliares. Em pessoas com dispneia, fadiga ou limitação funcional, essas técnicas reduzem o esforço respiratório e previnem crises, promovendo maior qualidade de vida. Dispneia: Sensação subjetiva de dificuldade ou desconforto para respirar, com intensidade variável. Resulta da interação de fatores fisiológicos, psicológicos, sociais e ambientais, podendo desencadear respostas físicas e emocionais. Doença ameaçadora à vida: Condição de saúde de qualquer etiologia, ativa, grave, progressiva e que causa sofrimento multidimensional ao paciente, seus familiares e cuidadores. Dor torácica: Dor ou desconforto localizado na região do tórax, com causas que variam desde condições benignas até emergências médicas. Em Cuidados Paliativos, pode estar relacionada ao câncer, doenças cardiovasculares, pulmonares, musculoesqueléticas ou gastrointestinais, e seu manejo depende da identificação da causa e do tratamento adequado da dor e dos sintomas associados. Funcionalidade: Capacidade de uma pessoa realizar, com ou sem apoio, atividades físicas, cognitivas, sociais e afetivas do cotidiano. Em Cuidados Paliativos, é um marcador clínico importante para avaliar independência e orientar o plano de cuidados. Pode ser medida por escalas como o Índice de Barthel, Escala de Katz e PPS. Hipoxemia: Redução da concentração de oxigênio no sangue arterial, geralmente definida por diminuição da pressão parcial de oxigênio (PaO₂) e/ou da saturação arterial de oxigênio (SaO₂/SpO₂), conforme o contexto clínico e os critérios utilizados. Morfina: Opioide natural forte, agonista de receptores μ, utilizado como fármaco de referência para comparação de potência entre opioides. Opioide: Termo que engloba os alcaloides derivados da papoula (Papaver somniferum), seus análogos sintéticos e as substâncias endógenas que se ligam aos receptores opioides distribuídos por todo o corpo. Como medicamentos, são utilizados principalmente para o controle da dor, mas também podem ser eficazes no alívio de outros sintomas. Qualidade de vida: De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) é “a percepção que um indivíduo tem da sua posição na vida. Esta percepção é feita em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações, e no contexto da cultura e dos sistemas de valores em que vive.“ Tosse: Reflexo natural de defesa do sistema respiratório, marcado pela expulsão súbita e ruidosa de ar para remover secreções, partículas ou irritantes das vias aéreas. Reabilitação pulmonar: Programa estruturado e multidisciplinar que combina exercícios físicos, educação em saúde e intervenções para promover mudanças de comportamento, com o objetivo de reduzir sintomas, melhorar a capacidade funcional, aumentar a qualidade de vida e otimizar o manejo das doenças respiratórias crônicas. Sedação paliativa: Redução intencional e monitorada do nível de consciência de paciente com doença ameaçadora à vida em vigência de sintoma refratário, seja ele físico, psicoemocional ou existencial. Sofrimento: Experiência repulsiva e sua emoção negativa correspondente. Pode ser de natureza física, psicoemocional, social e/ou espiritual.
Referências bibliográficas
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Cherny NI, Fallon MT, Kaasa S, Portenoy RK, Currow DC, eds. Oxford Textbook of Palliative Medicine. 6th ed. Oxford University Press; 2021.
Hui D, Maddocks M, Johnson MJ, et al. Management of breathlessness in patients with advanced serious illness. UpToDate. Atualizado periodicamente.
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Bausewein C, Johnson MJ, Simon ST, et al. Chronic breathlessness: practical management beyond pharmacological treatment. ERJ Open Res. 2025;11(6):00205-2025.


