Categorias: Avaliação prognóstica, Manejo de sintomas, Manejo de fim de vida Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 19/08/2026
Contexto
Sentir-se cansado após um dia intenso ou uma noite mal dormida faz parte da experiência de qualquer pessoa. Mas, para quem vive com uma doença ameaçadora à vida, o cansaço pode assumir outra dimensão: persistir apesar do repouso, limitar atividades cotidianas e consumir a pouca energia disponível para aquilo que realmente importa.
A fadiga é um sintoma frequente em pessoas acompanhadas pelos Cuidados Paliativos, mas nem sempre recebe a mesma atenção que dor, dispneia ou outros sintomas físicos. Parte dessa invisibilidade pode estar relacionada à dificuldade de defini-la, mensurá-la e, principalmente, tratá-la. Nesta #PP, vamos entender o que caracteriza a fadiga e o que podemos fazer diante dela.
Cansaço é fadiga?
A fadiga é uma experiência subjetiva de cansaço ou exaustão associada à percepção de menor capacidade para realizar atividades físicas ou mentais. Diferentemente do cansaço habitual, pode ser persistente, desproporcional à atividade realizada e não melhorar adequadamente com o repouso. Em pessoas com câncer, pode estar relacionada tanto à própria doença quanto ao seu tratamento, mas também é frequente em outras doenças ameaçadoras à vida. Grande parte das evidências disponíveis, entretanto, vem de estudos realizados em pacientes oncológicos.
Além da dimensão física, a fadiga pode apresentar componentes cognitivos e emocionais. Por isso, é importante diferenciá-la de sintomas ou condições que podem ser descritos de maneira semelhante, como sonolência, fraqueza muscular, depressão, delirium e lentificação psicomotora. A pergunta “você está cansado?” pode não ser suficiente para compreender o que a pessoa está experimentando.
A avaliação deve considerar não apenas a intensidade da fadiga, mas também sua repercussão sobre a funcionalidade. Uma escala numérica de 0 a 10 pode ser utilizada para rastreamento e acompanhamento, enquanto instrumentos como o Brief Fatigue Inventory permitem avaliar também sua interferência em diferentes dimensões da vida cotidiana, como atividades gerais, trabalho, relações interpessoais e capacidade de aproveitar a vida. Mais importante do que uma medida isolada é acompanhar sua evolução, uma vez que mudanças ao longo do tempo podem ajudar a identificar fatores que contribuem para o sintoma e avaliar a resposta às intervenções propostas.
De onde vem a fadiga?
Em Cuidados Paliativos, dificilmente existe uma única explicação para a fadiga. A própria doença e seus tratamentos podem contribuir, assim como anemia, infecções, desidratação, alterações metabólicas ou endócrinas, caquexia, redução do condicionamento físico e doenças concomitantes. Outros sintomas — como dor, dispneia, ansiedade, depressão e alterações do sono — também podem intensificá-la. A revisão dos medicamentos é parte importante dessa investigação: opioides, corticosteroides e outros medicamentos sedativos, além da polifarmácia e de interações medicamentosas, podem estar envolvidos.
A investigação deve ser orientada pela história clínica e pelo exame físico. Exames complementares podem ser necessários quando houver suspeita de condições potencialmente tratáveis, mas identificar uma alteração não significa necessariamente que ela seja responsável pela fadiga. Por exemplo, um paciente pode apresentar anemia e fadiga simultaneamente sem que a primeira seja a principal causa da segunda. Por isso, quando uma possível causa é tratada, o sintoma deve ser reavaliado para verificar se houve benefício.
Antes de investigar ou tratar, três perguntas ajudam a orientar a abordagem::
A fadiga é um problema relevante para esta pessoa?
Quais são suas causas mais prováveis?
Existe alguma intervenção com uma relação razoável entre benefícios e ônus?
Em Cuidados Paliativos, procurar causas potencialmente reversíveis não significa necessariamente investigar todas as causas possíveis, mas identificar aquelas cuja abordagem possa trazer benefício compatível com os objetivos do cuidado.
Mais energia ou melhor uso dela?
Quando uma causa reversível é identificada, seu tratamento pode melhorar a fadiga. No entanto, muitas vezes não é possível identificar ou corrigir completamente os fatores responsáveis pelo sintoma. Nesses casos, o manejo deve combinar estratégias individualizadas, farmacológicas e não farmacológicas, considerando a condição clínica, a funcionalidade e aquilo que a pessoa deseja conseguir fazer.
Uma das estratégias é a conservação de energia, que busca reduzir o gasto desnecessário e direcionar a energia disponível para as atividades mais importantes. Uma forma prática de orientar essa estratégia é utilizar os 4 Ps:
Planejamento (planning): organizar previamente as atividades, distribuindo as tarefas ao longo do dia ou da semana e aproveitando os períodos de maior disposição;
Ritmo (pacing): alternar atividade e descanso, realizar as tarefas em um ritmo sustentável e fazer pausas antes de atingir a exaustão;
Posicionamento (positioning): adaptar a postura e o ambiente para reduzir o esforço necessário, como realizar determinadas atividades sentado ou manter objetos de uso frequente ao alcance;
Priorização (prioritizing): identificar quais atividades são mais importantes para a pessoa, delegando, adiando ou deixando de realizar aquelas que consomem energia sem contribuir de maneira significativa para seus objetivos.
Conservar energia, entretanto, não significa recomendar repouso indiscriminadamente. Quando a condição clínica permite, atividade física e exercício individualizados podem ajudar a preservar a funcionalidade e reduzir o descondicionamento. A evidência de redução da fadiga com a atividade física é mais consistente durante e após o tratamento do câncer; em pacientes com doença ameaçadora à vida acompanhados pelos Cuidados Paliativos, os resultados ainda são menos consistentes.
Também não existe um medicamento capaz de tratar rotineiramente a fadiga em todas as pessoas. Corticosteroides podem produzir benefício de curto prazo em alguns pacientes com câncer avançado, mas sua utilização deve considerar o prognóstico e o risco de efeitos adversos. Os psicoestimulantes também foram estudados, mas a evidência permanece inconsistente e não sustenta seu uso rotineiro. Mais do que procurar uma única intervenção, o manejo da fadiga costuma exigir a combinação de diferentes estratégias direcionadas às necessidades de cada pessoa.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Pergunte ativamente sobre fadiga e avalie seu impacto na funcionalidade e nas atividades importantes para a pessoa.
Diferencie fadiga de sonolência, fraqueza muscular, depressão e outras condições percebidas como “falta de energia”.
Investigue causas potencialmente tratáveis quando sua identificação puder resultar em benefício para aquela pessoa.
Oriente estratégias de conservação de energia utilizando os 4 Ps: planejamento, ritmo, posicionamento e priorização.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Nem sempre precisamos eliminar a fadiga para que o tratamento tenha sido bem-sucedido. Uma pequena melhora pode ser suficiente para que ela deixe de ocupar um lugar tão importante entre os problemas percebidos pela pessoa. Por isso, além de perguntar “quanto é sua fadiga de zero a dez?”, experimente perguntar: “O que você gostaria de conseguir fazer se tivesse um pouco mais de energia?”. A resposta ajuda a transformar o controle do sintoma em um objetivo concreto e significativo para aquela pessoa.
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Ansiedade • Caquexia • Conservação de energia • Cuidados Paliativos • Delirium • Depressão • Dispneia • Doença ameaçadora à vida • Dor • Fadiga • Fraqueza muscular • Funcionalidade • Opioide • Polifarmácia • Prognóstico • Sintoma
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Referências bibliográficas
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