Categorias: Manejo de sintomas Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 09/09/2026
Contexto
Xerostomia — o termo técnico para boca seca — pode parecer um desconforto menor diante de dor, dispneia, náusea ou outros problemas que costumam ocupar o centro da atenção no manejo dos sintomas. Mas, para quem convive com ela todos os dias, pode significar dificuldade para falar, comer, engolir e dormir — além de alterar o paladar, favorecer infecções e interferir na interação social.
Nesta #PP, vamos discutir por que a xerostomia é tão frequente em pessoas acompanhadas pelos Cuidados Paliativos, como identificá-la e quais estratégias podem ser utilizadas para aliviar esse sintoma.
Qual a relevância da xerostomia?
A xerostomia é frequente em pessoas com doenças ameaçadoras à vida e, apesar disso, permanece pouco reconhecida e tratada. Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou prevalências entre 40% e 83,5% em pacientes com câncer avançado, em torno de 60% naqueles com DPOC ou insuficiência cardíaca avançadas e de 59% entre pessoas hospitalizadas por complicações relacionadas ao HIV/AIDS. Ou seja, é um sintoma prevalente em diferentes doenças acompanhadas pelos Cuidados Paliativos.
Embora os termos sejam frequentemente usados como equivalentes, xerostomia e hipossalivação não significam a mesma coisa. Xerostomia é a sensação subjetiva de boca seca relatada pelo paciente — ou seja, o sintoma que poderá ser gerador de sofrimento. Já a hipossalivação corresponde à redução objetiva da produção de saliva. As duas condições podem ocorrer simultaneamente, mas nem sempre estão associadas: uma pessoa pode apresentar xerostomia mesmo sem redução importante do fluxo salivar.
A xerostomia não depende apenas do volume de saliva produzido: alterações em sua composição também podem contribuir para o sintoma. Por ser uma experiência subjetiva, a xerostomia é identificada a partir do relato do paciente e deve ser investigada ativamente. Uma pergunta simples, como “Sua boca fica seca?”, deve fazer parte da avaliação, enquanto o exame da cavidade oral fornece informações complementares.
No exame da cavidade oral, alguns achados podem sugerir hipossalivação: mucosa oral seca ou pegajosa, ausência do habitual acúmulo de saliva no assoalho da boca, saliva espessa ou filamentosa, língua seca ou fissurada e lábios ressecados ou rachados. Também é importante procurar alterações e complicações associadas à redução da saliva, como candidíase oral, cáries, doença periodontal e dificuldade no uso de próteses dentárias. Ainda assim, a ausência desses achados não exclui xerostomia, que permanece, por definição, uma experiência subjetiva.
Antes de tratar, procure a causa
Medicamentos estão entre as causas mais importantes de xerostomia, especialmente em pacientes expostos à polifarmácia. Diferentes fármacos podem contribuir simultaneamente para a redução da secreção salivar ou para a sensação de boca seca, e seu efeito pode ser cumulativo. Atenção especial deve ser dada à carga anticolinérgica dos medicamentos, frequente em prescrições de pacientes acompanhados pelos Cuidados Paliativos.
Revisar a prescrição faz parte do tratamento. Algumas questões são importantes: algum medicamento pode estar contribuindo? Ele continua necessário? É possível reduzir a dose, substituí-lo ou suspendê-lo? Isso não significa retirar automaticamente medicamentos importantes apenas porque podem causar xerostomia, mas avaliar sua indicação, benefício atual e dose. Em alguns pacientes, reduzir a carga anticolinérgica total da prescrição pode ser mais factível do que encontrar — e retirar — um único medicamento responsável.

Além dos medicamentos, outras condições podem contribuir para a xerostomia. A radioterapia de cabeça e pescoço pode comprometer diretamente a função das glândulas salivares, assim como sua infiltração por tumores. Desidratação e desnutrição também podem reduzir a produção salivar, enquanto fatores como ansiedade e depressão podem contribuir para a percepção de boca seca.
Estimular ou substituir a saliva?
Depois de corrigir o que for possível, o tratamento sintomático segue dois caminhos principais: estimular a saliva que o paciente ainda consegue produzir ou tentar substituí-la.
Quando existe função residual das glândulas salivares, medidas simples podem ajudar. Gomas de mascar e balas ou pastilhas sem açúcar podem estimular a produção salivar por meio da mastigação e do estímulo gustatório. Para pessoas que utilizam próteses dentárias, devem-se preferir gomas menos aderentes. Alimentos e produtos de sabor ácido também estimulam a salivação, mas seu uso frequente merece cautela pelo risco de irritação da mucosa e erosão dentária. Quando essas medidas são insuficientes e existe função salivar residual, a pilocarpina pode ser considerada para estimular a secreção salivar. A pilocarpina pode ser administrada por via oral e seus principais efeitos adversos decorrem de sua ação colinérgica, incluindo sudorese, náusea e aumento da frequência urinária. É contraindicada em pessoas com asma não controlada e deve ser utilizada com cautela em algumas condições cardiovasculares e oftalmológicas.
Quando a estimulação é insuficiente ou há pouca função salivar residual, podem ser utilizados substitutos salivares, disponíveis principalmente na forma de sprays, géis e pastilhas. Esses produtos não reproduzem todas as propriedades físicas e químicas da saliva natural e seu efeito tende a ser temporário, mas podem proporcionar alívio da xerostomia.
A escolha da formulação pode ser individualizada conforme a necessidade e a preferência do paciente. Sprays são fáceis de aplicar ao longo do dia, enquanto formulações mais viscosas, como os géis, tendem a permanecer por mais tempo sobre a mucosa e podem ser particularmente úteis quando se deseja um efeito mais prolongado, como durante a noite. A escolha deve considerar a preferência do paciente, a facilidade de uso e o alívio proporcionado.
Também é importante considerar a composição dos substitutos salivares. Em pessoas com dentes naturais, devem-se preferir formulações com pH neutro, já que produtos ácidos podem favorecer a desmineralização e a erosão dentária. Como a redução do fluxo salivar também aumenta o risco de cáries, o uso regular de produtos fluoretados deve fazer parte dos cuidados com a saúde bucal. Alguns substitutos salivares já contêm fluoreto em sua composição. Alguns produtos à base de mucina são de origem suína, aspecto que pode ser relevante diante de preferências culturais, religiosas ou alimentares.
Medidas mais simples continuam tendo espaço: umidificação frequente da boca e dos lábios e pequenos goles de água ao longo do dia são estratégias acessíveis e bem toleradas, embora seu efeito seja bastante curto — em um estudo citado pelo Oxford, o alívio durou, em média, apenas 12 minutos. Apesar disso, muitos pacientes preferem a água por sua familiaridade, tolerabilidade, disponibilidade e custo. A adequação da consistência dos alimentos e a higiene oral também devem acompanhar essas estratégias.
É importante reconhecer as limitações do tratamento da xerostomia. Embora existam várias estratégias recomendadas, poucas foram avaliadas em estudos de boa qualidade. Na prática, isso significa que muitas vezes será necessário experimentar, avaliar o alívio obtido e ajustar a estratégia de acordo com a resposta e a preferência do paciente.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Pergunte ativamente sobre xerostomia. Lembre-se de que a ausência de sinais evidentes ao exame da boca não exclui o sintoma.
Examine a cavidade oral em busca de sinais de hipossalivação e de suas possíveis complicações, como candidíase oral, cáries e doença periodontal.
Revise a prescrição, considerando não apenas medicamentos isolados, mas a polifarmácia e a carga anticolinérgica do conjunto de medicamentos.
Individualize o tratamento: corrija causas modificáveis, estimule a produção de saliva quando possível e utilize substitutos salivares ou medidas simples de umidificação de acordo com a necessidade, preferência e possibilidade de uso pelo paciente.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Quando um paciente relata xerostomia, é tentador responder imediatamente com uma prescrição. Mas, antes de acrescentar mais um produto, pergunte o que ele já faz quando a boca fica seca e se isso funciona. Às vezes, pequenos goles de água são suficientes; em outras situações, um gel ou spray será mais confortável. O melhor tratamento não é necessariamente o mais elaborado, mas aquele que proporciona alívio, é bem tolerado e cabe na rotina do paciente.
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Referências bibliográficas
Van der Meulen AI, Stoppelenburg A, Theunissen M, de Nijs EJM, van den Beuken-van Everdingen MHJ, van der Linden YM. Dry mouth in palliative care: A systematic review of clinical practice guidelines around the world. Palliative Medicine. 2026;40(7):933-957.
Davies AN. Oral care. In: Cherny NI, Fallon MT, Kaasa S, Portenoy RK, Currow DC, eds. Oxford Textbook of Palliative Medicine. 6th ed. Oxford University Press; 2021:656-672.


