Categorias: Comunicação compassiva, Resolução de conflitos, Tomada de decisão Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 24/09/2026
Contexto
Na #PP016 Comunicação Não Verbal, discutimos que a comunicação se dá além das palavras: expressões faciais, postura, contato visual, gestos e tom de voz também transmitem mensagens, podendo reforçar ou contradizer aquilo que estamos dizendo.
Durante um encontro clínico, porém, muitos elementos acontecem ao mesmo tempo: enquanto escutamos as palavras, também precisamos perceber o que é comunicado sem elas — pelo paciente e por nós mesmos. O acrônimo EMPATHY foi desenvolvido para ajudar profissionais a organizar essa atenção. Nesta #PP, vamos conhecer essa ferramenta e discutir como utilizá-la sem transformar a comunicação não verbal em um conjunto rígido de comportamentos.
E-M-P-A-T-H-Y: para onde dirigir a atenção?
Em 2014, Helen Riess e Gordon Kraft-Todd apresentaram o acrônimo EMPATHY como uma ferramenta para orientar profissionais a reconhecer e responder a aspectos da comunicação não verbal na interação com pacientes. Os autores partiram de uma lacuna identificada no ensino em saúde: a comunicação costuma enfatizar o que dizer, enquanto os aspectos não verbais da percepção e da expressão de empatia recebem menos atenção.
Cada letra do acrônimo direciona o olhar para um componente da interação:
E — Eye contact (contato visual). O olhar pode comunicar atenção e interesse, mas não existe uma quantidade “correta” de contato visual. Seu significado depende da pessoa, da situação e do contexto cultural.
M — Muscles of facial expression (musculatura da expressão facial). Mudanças na expressão podem oferecer pistas sobre a experiência emocional do paciente, inclusive quando ela ainda não foi expressa em palavras. Ao mesmo tempo, nossa própria expressão facial também comunica como estamos recebendo aquilo que nos é contado.
P — Posture (postura). A posição do corpo e sua orientação em relação ao paciente participam da interação. Afastar-se, voltar-se repetidamente para o computador ou manter barreiras físicas enquanto alguém fala pode transmitir mensagens, mesmo sem intenção.
A — Affect (afeto). Direciona a atenção ao estado emocional presente na interação, considerando as diferentes pistas verbais e não verbais em conjunto e no contexto em que aparecem.
T — Tone of voice (tom de voz). Não escutamos apenas o que alguém diz, mas também como aquilo é dito. Volume, ritmo, entonação e pausas carregam informações emocionais. O mesmo acontece com a voz do profissional: palavras cuidadosas ditas rapidamente ou em tom impaciente podem comunicar algo bastante diferente de seu conteúdo verbal.
H — Hearing the whole patient (escutar o paciente como um todo). A proposta é integrar aquilo que é dito às demais informações presentes na interação. Isso ajuda a evitar que um gesto, uma expressão ou um silêncio sejam interpretados de forma isolada.
Y — Your response (sua resposta). Por fim, a atenção se volta também para o profissional. Observar mudanças na própria expressão, voz, postura e resposta emocional ajuda a reconhecer como também participamos da interação.
Embora tenha sido desenvolvido para o ensino da comunicação não verbal, o acrônimo EMPATHY não se limita à observação da linguagem corporal. Hearing the whole patient amplia a atenção para a integração das diferentes informações da interação, e Your response inclui também as respostas do próprio profissional.
Olhar para o paciente — e para si mesmo
O acrônimo EMPATHY não propõe um gabarito de como devemos nos comportar. Não há uma quantidade ideal de contato visual, uma postura ou um tom de voz que funcione para todas as pessoas. Seu objetivo é organizar aspectos da interação que podem ser observados durante a conversa.
A observação ocorre em duas direções. Podemos observar mudanças no olhar, na expressão facial, na postura, no afeto e na voz do paciente como pistas para compreender melhor o que acontece durante a conversa. Também podemos observar nossa própria comunicação: para onde direcionamos o olhar, como nosso corpo se posiciona, o que aparece em nossa expressão e como nossa voz se modifica diante do que ouvimos.
A comunicação não verbal não funciona como um código com tradução fixa. Desviar o olhar não significa necessariamente desconforto; cruzar os braços não significa resistência; o silêncio não significa concordância ou tristeza. Esses sinais ganham significado quando são compreendidos em conjunto, ao longo da interação e à luz daquela pessoa e daquele contexto. Nesse sentido, Hearing the whole patient reforça a necessidade de integrar as diferentes pistas, enquanto Your response lembra que o próprio profissional também faz parte da interação.
Empatia não é uma coreografia
Há ainda outro cuidado ao utilizar o EMPATHY. Contato visual, postura, expressão facial e tom de voz são comportamentos que podem ser observados e, por isso, também podem ser ensinados, reproduzidos e avaliados. A presença desses comportamentos, entretanto, não garante por si só uma compreensão empática da experiência do outro.
Em uma análise etnográfica da formação médica, Seth Holmes chama a atenção para essa tensão. O autor descreve como determinadas formas de ensino podem favorecer uma empatia centrada na performance: comportamentos reconhecidos como empáticos são aprendidos e reproduzidos, sem que isso necessariamente corresponda a uma compreensão mais profunda da experiência do paciente.
Essa crítica ajuda a delimitar o uso do EMPATHY. Em vez de “preciso manter contato visual”, podemos perguntar “o que está acontecendo com nosso contato visual?”. Em vez de “preciso assumir uma postura empática”, “o que minha postura está comunicando?”. Dessa forma, o acrônimo pode ser utilizado como um recurso de atenção à interação, e não como um checklist de comportamentos que, isoladamente, definiriam uma comunicação empática.
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A comunicação não verbal é apenas uma das dimensões que participam de uma conversa clínica. No Workshop Paliativo — Comunicação Assertiva em Saúde, aprofundamos estratégias para reconhecer diferentes elementos da comunicação e utilizá-los de forma mais consciente nas interações com pacientes, familiares e equipes.

Modo de usar:
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Use o EMPATHY para direcionar sua atenção. As sete letras ajudam a lembrar diferentes dimensões da interação, mas não constituem uma sequência obrigatória de comportamentos.
Observe além das palavras. Expressão facial, postura, voz e mudanças na interação podem oferecer pistas sobre aquilo que ainda não foi verbalizado.
Evite interpretar sinais isoladamente. Um olhar desviado, uma postura fechada ou um silêncio não possuem significado universal: considere a pessoa, o contexto e as diferenças individuais e culturais.
Observe também a si mesmo. Pergunte-se como seu corpo, sua voz e suas próprias reações participam da conversa.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Ferramentas de comunicação podem ajudar a organizar aspectos de interações que são complexas. No caso do EMPATHY, é importante distinguir seu uso como recurso para orientar a atenção de seu uso como uma lista de comportamentos que deveriam ser reproduzidos.
Durante uma aula de comunicação não verbal, um estudante me perguntou, preocupado, se o paciente não se sentiria acolhido caso ele não conseguisse manter contato visual — algo que reconhecia ter muita dificuldade. Acolhi e agradeci por ele ter dividido aquela preocupação comigo. Primeiro, porque ela me fez rever a forma como eu estava conduzindo a discussão, para enfatizar ainda mais a proposta do acrônimo: prestar atenção aos diferentes componentes da comunicação não significa estabelecer um comportamento correto para cada um deles.
Além disso, nossa percepção da comunicação não acontece pela interpretação isolada de cada comportamento, mas pela integração de múltiplas pistas verbais e não verbais ao longo da interação. Não ter o contato visual como uma fortaleza de sua comunicação não impede aquele estudante de comunicar acolhimento por meio de outros elementos e, mais importante, de se relacionar com o paciente com empatia. Relacionar-se com empatia não significa cumprir um checklist de comportamentos considerados empáticos.
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Referências bibliográficas
Riess H, Kraft-Todd G. E.M.P.A.T.H.Y.: a tool to enhance nonverbal communication between clinicians and their patients. Acad Med. 2014;89(8):1108-1112.
Riess H, Kelley JM, Bailey RW, Dunn EJ, Phillips M. Empathy training for resident physicians: a randomized controlled trial of a neuroscience-informed curriculum. J Gen Intern Med. 2012;27(10):1280-1286.
Holmes SM. Learning language, un/learning empathy in medical school. Cult Med Psychiatry. 2025;49:135-160.


