Categorias: Fundamentos, Tomada de decisão, Gestão em cuidados paliativos, Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 26/08/2026
Contexto
Estimativas globais indicam que mais de 56 milhões de pessoas necessitam de Cuidados Paliativos a cada ano, e essa demanda tende a crescer com o envelhecimento populacional e o aumento das doenças crônicas. Diante de uma necessidade tão ampla, seria inviável que todos esses pacientes fossem acompanhados diretamente por equipes especializadas. Como já discutimos em edições anteriores — como na #PP025 Ferramentas de Triagem em Cuidados Paliativos e na #PP008 Serviços de Cuidados Paliativos —, os Cuidados Paliativos precisam fazer parte das competências dos profissionais que assistem pessoas com doenças ameaçadoras à vida, reservando-se a atuação especializada principalmente para situações que demandem habilidades paliativas avançadas.
Identificar uma necessidade paliativa não significa, portanto, indicar automaticamente o acompanhamento por uma equipe especializada. O desafio seguinte é reconhecer a complexidade dessas necessidades e compreender quais podem ser manejadas pela equipe que já acompanha o paciente, desde que capacitada em habilidades paliativas básicas, e quais demandam Cuidados Paliativos avançados.
Nesta #PP, discutiremos como identificar necessidades paliativas complexas e utilizar essa avaliação para orientar a participação de profissionais com competências avançadas em Cuidados Paliativos.
O que é complexidade em Cuidados Paliativos?
A palavra “complexo” define aquilo que é composto por múltiplos elementos inter-relacionados ou que apresenta dificuldade de compreensão ou resolução. Em Cuidados Paliativos, complexidade diz respeito à natureza da situação vivenciada pelo paciente e à extensão das necessidades e demandas de cuidado que dela resultam. Ela pode ser influenciada pelo diagnóstico, pelo prognóstico ou pela intensidade dos sintomas, mas não é determinada isoladamente por nenhum desses fatores. Por exemplo, uma dor intensa pode ser adequadamente manejada por uma equipe capacitada em habilidades paliativas básicas e com acesso aos recursos necessários. Essa mesma situação pode tornar-se complexa quando sua resolução exige competências ou recursos que a equipe não possui. Assim, intensidade, gravidade e complexidade não são sinônimos: sintomas intensos ou doenças e complicações graves podem envolver necessidades relativamente simples de manejar, enquanto situações de menor gravidade podem ser complexas.
Além disso, a complexidade não é uma característica inerente ao paciente, nem resulta da simples soma de problemas. Ela emerge da interação entre as necessidades do paciente e da família, os recursos disponíveis e a capacidade de resposta dos profissionais e serviços envolvidos no cuidado. Por isso, pode variar conforme o contexto e se modificar ao longo da trajetória da doença.
De onde vem a complexidade?
A complexidade é multifatorial e pode emergir de diferentes dimensões da experiência de adoecimento e do cuidado. Para facilitar sua compreensão, podemos organizar didaticamente os fatores que contribuem para a complexidade em alguns grupos. Essa divisão não constitui uma classificação, e esses fatores frequentemente se sobrepõem:
Paciente e família: necessidades físicas, psicoemocionais, sociais, familiares e espirituais; capacidade de cuidado e suporte familiar; condições socioeconômicas.
Relações, comunicação e tomada de decisão: dificuldades de comunicação; conflitos entre paciente, familiares e profissionais; dificuldades na tomada de decisão; e questões bioéticas relacionadas ao cuidado.
Equipe de saúde: conflitos entre profissionais e ausência das competências técnicas necessárias para responder a determinadas necessidades.
Serviço e rede de cuidado: disponibilidade de recursos, acesso a medicamentos e tecnologias, organização e continuidade do cuidado, possibilidade de acompanhamento e acesso aos diferentes profissionais e serviços da rede.
Esses fatores não atuam de forma independente. Uma necessidade pode adquirir maior complexidade quando se associa a outras demandas ou quando os recursos e competências necessários para atendê-la não estão disponíveis. Assim, compreender a complexidade exige olhar não apenas para o que o paciente e sua família precisam, mas também para as relações envolvidas no cuidado e para a capacidade da equipe, do serviço e da rede de responder a essas necessidades.
Por que e como identificar a complexidade?
Avaliar a complexidade não serve apenas para descrever uma situação clínica: pode ajudar a definir o nível de cuidado necessário e os recursos que precisam ser mobilizados para atendê-la. Essa perspectiva é especialmente importante no SUS. A Política Nacional de Cuidados Paliativos (PNCP) prevê acesso aos Cuidados Paliativos em todos os pontos da Rede de Atenção à Saúde (RAS), ao mesmo tempo em que propõe regulação assistencial, coordenação do cuidado, definição de fluxos e articulação entre as equipes assistenciais e aquelas especializadas em Cuidados Paliativos. Nesse contexto, avaliar a complexidade pode contribuir para direcionar a atuação das equipes especializadas às situações que mais necessitam de sua expertise, sem restringir o acesso à abordagem paliativa.
Reconhecer e dimensionar todos os fatores que contribuem para a complexidade de forma não sistematizada pode ser difícil. Por isso, diferentes instrumentos foram desenvolvidos para apoiar essa avaliação. Revisões da literatura mostram grande diversidade entre eles quanto às dimensões avaliadas e à forma de classificar a complexidade, destacando HexCom, IDC-Pal e ID-PALL entre os instrumentos que permitem avaliações mais abrangentes das necessidades individuais.
O HexCom organiza a avaliação em diferentes dimensões das necessidades e considera também os recursos disponíveis para responder a elas. O IDC-Pal identifica elementos de complexidade relacionados ao paciente, à família e à organização do cuidado, permitindo classificar as situações como não complexas, complexas ou altamente complexas. Já o ID-PALL é um instrumento breve desenvolvido para auxiliar profissionais não especialistas a identificar pessoas com necessidades de Cuidados Paliativos e diferenciar situações que podem ser atendidas por Cuidados Paliativos básicos daquelas que podem demandar Cuidados Paliativos avançados.
No Brasil, ainda são limitadas as opções de instrumentos adaptados ao nosso contexto. O ID-PALL possui versão traduzida e adaptada transculturalmente para o português brasileiro — o ID-PALL-BR—, enquanto não identificamos versões brasileiras do HexCom e do IDC-Pal; este último possui versão adaptada para o português europeu.
Nenhum instrumento, entretanto, substitui a avaliação clínica. Mais do que produzir uma classificação ou pontuação, avaliar a complexidade significa perguntar se as necessidades daquela pessoa e de sua família podem ser adequadamente atendidas com as competências e recursos disponíveis naquele contexto. Quando essas necessidades excedem essa capacidade de resposta, deve-se considerar o envolvimento de profissionais ou equipes com maior nível de expertise em Cuidados Paliativos.
Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Identifique as necessidades paliativas, lembrando que sua presença não significa automaticamente necessidade de acompanhamento por uma equipe especializada.
Avalie a complexidade considerando as necessidades do paciente e da família, os recursos disponíveis e a capacidade de resposta da equipe e da rede de cuidado.
Reconheça a complexidade ao longo da trajetória da doença: necessidades, recursos e capacidade de resposta podem se modificar com o tempo.
Direcione competências e recursos especializados para as situações que deles necessitam, favorecendo a coordenação do cuidado e o acesso aos Cuidados Paliativos.
Dica da especialista 🤌🏻
Você já tem o e-pali ou costuma ler A incrível newsletter paliativa? Então já sabe que essa é uma seção especial: aqui compartilhamos insights a partir da nossa visão e experiência profissional.
💡 Quando estiver diante de uma situação que parece complexa, experimente mudar a pergunta. Em vez de pensar apenas “o que este paciente precisa?”, pergunte também “o que temos disponível para responder a essas necessidades?”. Muitas vezes, a complexidade não está em um problema isolado, mas na distância entre aquilo de que o paciente e sua família precisam e aquilo que conseguimos oferecer naquele contexto. Reconhecer essa distância ajuda a identificar quando é necessário mobilizar outros profissionais ou recursos.
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👉 Esta edição cita 18 conceitos, disponíveis gratuitamente no Glossário Paliativo:
Cuidados Paliativos • Cuidados Paliativos avançados • Cuidados Paliativos básicos • Diagnóstico • Doença ameaçadora à vida • Dor • Família • Habilidades paliativas • Hexágono de complexidade (HexCom) • ID-PALL-BR • Identification des Patients nécessitant des Soins Palliatifs Généraux et Spécialisés (ID-PALL) • Instrumento Diagnóstico de la Complejidad en Cuidados Paliativos (IDC-Pal) • Necessidade paliativa • Política Pública de Cuidados Paliativos (PNCP) • Prognóstico • Rede de Atenção à Saúde (RAS) • Sintoma • Sistema Único de Saúde (SUS)
O Glossário Paliativo cresce continuamente, com novos conceitos incorporados a cada edição das Pílulas Paliativas.
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