Categorias: Fundamentos, Avaliação prognóstica Autor(a): Juliana Martins, médica clínica e paliativista Publicado em: 14/10/2026
Contexto
Avaliar funcionalidade faz parte da rotina de quem cuida de pessoas com doenças ameaçadoras à vida. Percebemos quando alguém deixa de sair de casa, passa a precisar de ajuda para o banho ou permanece a maior parte do dia no leito, e transformar essas observações em uma medida padronizada permite acompanhar mudanças ao longo do tempo e comunicar de forma mais objetiva o estado funcional entre profissionais.
A Palliative Performance Scale (PPS) é uma das escalas mais utilizadas em Cuidados Paliativos. A familiaridade com seu nome, entretanto, não significa necessariamente familiaridade com seu uso: seu uso correto exige conhecer a lógica de pontuação. Quando as cinco dimensões parecem apontar para valores diferentes, não devemos calcular uma média nem compensar uma limitação importante com outra função preservada. Também é preciso distinguir o que a escala descreve daquilo que ela permite inferir sobre prognóstico. Nesta #PP, vamos revisar como pontuar o PPS e como interpretar seus resultados.
Como chegar ao PPS certo?
A Palliative Performance Scale (PPS) foi desenvolvida em 1996 pelo Victoria Hospice, no Canadá, a partir da Karnofsky Performance Scale (KPS), com adaptações para sua utilização em Cuidados Paliativos. Ela classifica a funcionalidade — leia mais sobre o tema na #PP026 Funcionalidade — em 11 níveis, de 100% a 0%, sempre em intervalos de 10% — portanto, não existe PPS de 45% ou 75%. Para chegar ao escore, são avaliadas cinco dimensões: deambulação; atividade e evidência de doença; autocuidado; ingesta; e nível de consciência.
A pontuação não é definida pela “média” das cinco dimensões. A leitura é feita da esquerda para a direita e, quando as descrições apontam para níveis diferentes, as colunas mais à esquerda têm maior peso na definição do PPS. Assim, começamos pela deambulação, seguida de atividade e evidência de doença; depois consideramos autocuidado, ingesta e nível de consciência. Isso não significa que as primeiras variáveis tenham necessariamente, de forma individual, maior valor prognóstico, mas apenas que recebem maior peso na definição da pontuação do PPS.
Na prática: imagine uma pessoa que permanece a maior parte do tempo no leito, é incapaz de realizar a maioria das atividades e necessita de assistência quase completa para o autocuidado, mas ainda se alimenta razoavelmente e está plenamente consciente. Ingesta e consciência preservadas não elevam automaticamente a pontuação: o conjunto é compatível com PPS 40%. Esse exemplo reforça a lógica de leitura da esquerda para a direita: dimensões mais preservadas à direita não devem elevar a pontuação quando as dimensões à esquerda indicam um PPS mais baixo.

Por que o PPS é tão útil?
Uma das principais vantagens do PPS é reunir, em uma única medida, diferentes manifestações da perda de funcionalidade que observamos à beira do leito. Em vez de registrar apenas que o paciente “está mais debilitado”, podemos traduzir mudanças de capacidades específicas em uma medida padronizada. Além de facilitar a comunicação entre profissionais, isso permite comparar avaliações realizadas em momentos diferentes da trajetória do paciente e reconhecer mais objetivamente a evolução funcional.
Além de descrever a funcionalidade, o PPS também tem valor como fator prognóstico: escores mais baixos estão associados a menor sobrevida em diferentes estudos. A trajetória funcional e a velocidade da piora acrescentam informação ao valor isolado. Um PPS de 40% estável há meses tem significado clínico diferente de uma queda de 70% para 40% em poucas semanas.
A aplicação seriada permite transformar uma impressão de declínio em informação funcional comparável ao longo do tempo. A interpretação prognóstica, contudo, depende da população e do contexto em que a escala é utilizada.
Onde estão as limitações?
Como discutimos na #PP033 Métodos e Ferramentas Prognósticas, uma ferramenta prognóstica deve ser interpretada considerando a população e o contexto em que foi estudada. No caso do PPS, embora existam estudos em diferentes populações, a evidência prognóstica é mais robusta em pessoas com câncer avançado e em populações acompanhadas por serviços de Cuidados Paliativos ou hospice. Isso exige cautela ao extrapolar a relação entre determinada pontuação e sobrevida para outras doenças e cenários assistenciais.
Há ainda uma limitação inerente à própria escala: o PPS descreve como a pessoa está naquele momento, mas não explica por que ela está assim. Uma queda funcional provocada pela progressão irreversível da doença tem significado diferente daquela causada por uma intercorrência potencialmente reversível, como infecção, hipercalcemia ou efeito de medicamentos. O mesmo cuidado é necessário diante de limitações funcionais que antecedem e não decorrem da doença em atividade. Uma pessoa com paraplegia, tetraplegia ou paresia prévia, por exemplo, pode pontuar baixo em deambulação e autocuidado por sua condição basal, e não por progressão da doença. Nesses casos, o valor absoluto do PPS pode não refletir adequadamente o impacto da doença em atividade sobre a funcionalidade — e seu significado prognóstico deve ser interpretado com cautela.
Embora o PPS seja um fator prognóstico, ele não deve ser usado isoladamente para estimar a sobrevida individual de um paciente. A avaliação prognóstica deve integrar trajetória da doença, velocidade do declínio, sintomas, complicações e outros fatores prognósticos, além da funcionalidade medida pelo PPS.
Quer aprofundar este tema?
O PPS é uma das ferramentas abordadas no e-pali 2 — Prognóstico e Funcionalidade, em que aprofundamos a avaliação da funcionalidade e sua relação com o prognóstico, além de outras escalas funcionais, métodos prognósticos e formas de integrar essas informações ao raciocínio clínico.

Modo de usar:
Descubra como aplicar esta pílula paliativa de forma prática em seu dia a dia.
Comece pela esquerda. Avalie primeiro a deambulação e avance pelas demais dimensões. Quando as descrições apontarem para níveis diferentes, as colunas mais à esquerda têm maior peso na definição do escore.
Escolha a linha que melhor representa a funcionalidade do paciente considerando o conjunto das cinco dimensões. O PPS é atribuído em intervalos de 10%: quando o paciente apresenta características de linhas diferentes, não calcule uma média entre elas; decida a que melhor representa a funcionalidade do paciente.
Registre o PPS de forma seriada. Um valor isolado descreve a funcionalidade naquele momento; avaliações sucessivas ajudam a reconhecer sua trajetória.
Pergunte o que explica aquela pontuação. Diante de uma redução do PPS, investigue se ela acompanha a progressão da doença ou se há fatores potencialmente reversíveis contribuindo para a perda funcional.
Dica da especialista 🤌🏻
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💡 Quando recebo um paciente com um PPS baixo, duas perguntas me interessam tanto quanto a pontuação: “qual era o PPS antes?” e “o que aconteceu para ele chegar até aqui?”. Um PPS de 30% em uma pessoa que mantém essa funcionalidade há meses não carrega a mesma informação que uma queda de 70% para 30% em poucas semanas. E se essa perda ocorreu durante uma intercorrência potencialmente reversível, talvez nem represente a nova condição basal do paciente. O número ganha significado quando avaliamos dentro de uma trajetória.
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Cuidados Paliativos • Doença ameaçadora à vida • Funcionalidade • Palliative Performance Scale (PPS) • Prognóstico • Karnofsky Performance Scale (KPS) • Deambulação • Fator prognóstico • Sobrevida • Ferramenta prognóstica • Hospice • Paraplegia • Tetraplegia • Paresia
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Referências bibliográficas
Victoria Hospice Society. Palliative Performance Scale (PPSv2). Victoria, BC: Victoria Hospice Society; 2001.
Baik D, Russell D, Jordan L, Dooley F, Bowles KH, Masterson Creber RM. Using the Palliative Performance Scale to Estimate Survival for Patients at the End of Life: A Systematic Review of the Literature. Journal of Palliative Medicine. 2018;21(11):1651-1661.
Hsien Seow et al. Trajectory of Performance Status and Symptom Scores for Patients With Cancer During the Last Six Months of Life. J Clin Oncol 29, 1151-1158(2011).
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Bischoff KE, Patel K, Boscardin WJ, O’Riordan DL, Pantilat SZ, Smith AK. Prognoses Associated With Palliative Performance Scale Scores in Modern Palliative Care Practice. JAMA Netw Open. 2024;7(7):e2420472.


